Entrevistas
JULIE DOIRON
DA NOITE SE FEZ A SOLIDÃO
Para Julie Doiron, tudo começou nos anos 90 com os Eric’s Trip que, depois de uma aventura bem sucedida e alguns discos editados pela Sub Pop, decidiram pôr termo à sua carreira. Mas a sede de música da canadiana não se apagou, nem a vontade de fazer discos. Depois de mais de uma mão cheia de registos – com ou sem colaborações – este novo “Goodnight Nobody”, continua com as canções intimistas e melancólicas, agora centradas na noite e na sua companhia. Julie Doiron apresenta-se em Portugal para dois concertos que terão lugar em Lisboa, dia 17 de Março, na Galeria Zé dos Bois – concerto que conta com a presença dos parisienses Berg Sans Nipple – e no Porto, no dia seguinte, no bar O Meu Mercedes é Maior Que o Teu – para além das presenças dos mesmos Berg Sans Nipple e de Old Jerusalem que deverá apresentar o seu segundo disco intitulado Twice The Humbling Sun, o evento serve ainda para assinalar o regresso do fanzine o mouco, que passa agora ao formato digital.

Como é que foi o seu primeiro contacto com a música?
Bem, sinto-me muito feliz por ter crescido numa família muito divertida na qual tanto a minha avó como a minha mãe adoravam cantar. A minha avó era especialmente uma grande cantora e passava a vida a cantar. Eu era muitas vezes encorajada a cantar juntamente com elas. Depois, com o passar dos tempos, aprendi coisas como o piano, o saxofone, a guitarra, o trompete e depois finalmente o baixo aquando dos Eric’s Trip. Mas o primeiro contacto foi a cantar com a minha mãe e com a minha avó.

Começou nos Eric’s Trip como baixista. O que nos pode contar desses dias?
Na verdade, nos dois primeiros anos em que estive nos Eric’s Trip eu toquei guitarra e o Chris tocou baixo. Depois ele quis tocar guitarra e eu concordei em trocar para o baixo. Diverti-me muito com os Eric’s Trip. Tivemos tanto sucesso e só estabelecemos a banda para tocar na nossa cave e para nos divertirmos a tocar juntos. Nunca tínhamos imaginado que as coisas fossem correr tão bem como correram.

Disse algures que era demasiado tímida naqueles dias para começar a sua própria banda. Como é que foi então, na altura, liderar o seu próprio projecto?
Acho que à medida que me fui habituando a tocar nos Eric’s Trip fui-me tornando cada vez mais confortável e até fui fazendo alguns espectáculos a solo de quando em vez. Depois quando acabamos o meu desejo de continuar a tocar era forte e eu simplesmente precisava de continuar a tocar. Agora sinto-me bastante confortável em palco e adoro estar lá na maior parte do tempo apesar de ficar nervosa antes dos espectáculos. Mas a partir do momento que estou em palco posso simplesmente fechar os meus olhos e cantar…

Há algum tempo atrás actuava sob o nome de Broken Girl mas mudou-o após um disco…
Sim, durante algum tempo pensava que o nome correspondia… mas comecei rapidamente a odiá-lo depois de começar realmente a ouvir as pessoas dizê-lo alto e bom som. Prefiro o meu próprio nome a esse (Broken Girl).

Como é conciliar a música com a família? Sei que tenta sempre ficar próxima da família, mesmo quando está em digressão…
Isto tem-se tornado mais difícil nos ultimamente pois tive de fazer mais digressões nos últimos três anos. A minha família, em especial o meu marido, tem sido muito compreensiva e tem-me apoiado muito. Ele é artista e ambos nos temos apoiado um ao outro nas nossas carreiras. Não é fácil para nós, uma vez que eu vou embora tantas vezes e agora não tenho intenção de fazer tantas digressões longas. Agora vou apenas fazer algumas pequenas digressões por ano. Não penso parar de fazer digressões por completo porque adoro actuar; no entanto vou escolher os meus espectáculos de forma ponderada.

Geralmente escreve canções em inglês mas em “Desormais”, por exemplo, todas as canções são escritas em francês. Uma linguagem diferente significa obrigatoriamente uma diferente abordagem a uma canção? Como é que surgiu a ideia?
Falo ambos os idiomas por isso quis cantar em francês porque gosto bastante. Vou fazer outro disco em francês em breve, penso eu.

A sua relação com a Sub Pop acabou após “Loneliest In The Morning”. Como é que tudo aconteceu? A Jagjaguwar Records é uma boa casa para os seus discos?
Estou muito contente com a Jagjaguwar. Penso que havia muita confusão na Sub Pop quando eu estava lá e muitas mudanças estavam a ser feitas. Acho que fui apenas perdida naquela editora durante aquele tempo. Mas os Eric’s Trip tiveram uma grande experiência na Sub Pop.

Quais são os seus sentimentos em relação à Sappy Records?
Eu adorava a Sappy e sinto bastante a sua falta. Tivemos de parar de gerir a editora porque, apesar de a apreciarmos bastante, não tínhamos o tempo suficiente para fazer dela uma verdadeira editora. Eu precisava de me preocupar apenas com a minha carreira musical e com o papel de mãe e o Jon queria pintar a maior parte do tempo. Não nascemos mesmo para ser pessoas de negócios a tentar pagar a bandas. Ter uma editora ensinou muitas coisas e eu fui sempre muito compreensiva com outras editoras no que diz respeito a problemas que possam ocorrer graças à experiência de gerir uma editora. Apesar de tudo, fantasio muitas vezes em começar de novo a Sappy.

Tocou com bandas como os Wooden Stars e com membros dos Herman Düne e gravou um split EP com os Okkervil River. Como é que isso aconteceu e como é que foram essas experiências?
Cada uma dessas situações é um pouco diferente e demorariam imenso tempo a ser explicadas. Basicamente, com os Wooden Stars, eu era amiga do Mike que também está nos Snailhouse e eu precisava de uma banda de digressão para o disco da Sub Pop. Eles ofereceram-se para seguir em digressão comigo e isso soou-me de forma perfeita. Com os Herman Dane, tive sorte de conhecer por acaso o David, em Chicago, em 1999, mantivemo-nos em contacto e tornámo-nos bons amigos. É muito bom tocar música com eles. Eles amam verdadeiramente a música e é muito bom estar próximo deles. Aprendi muito com o amor deles pela música. Eles são óptimos! Em relação aos Okkervil, a ideia foi sugerida e eu achei que era uma ideia muito boa. É possível que um dia venhamos a fazer qualquer coisa juntos.

Imagine que tinha a oportunidade de gravar um disco ao vivo com uma banda da sua escolha. Quem escolheria?
Adorava gravar um disco ao vivo. No entanto, teria de ser um segredo para mim. Não sei se conseguiria ter o mesmo tipo de actuação se soubesse que estava a ser gravada para um álbum.

E o que é que prefere, tocar sozinha ou com o apoio de uma banda? Prefere a liberdade de tocar a solo ou o conforto de uma banda?
Na verdade adoro ambos! A solo e com uma banda. Adoro ambos!

Está satisfeita com o novo disco, "Goodnight Nobody"? O que é que nos pode contar sobre este novo disco?
Sim, estou muito contente com este novo disco. É bastante aquilo que eu esperava que fosse. Gravamos as canções com os Herman Düne em apenas um dia em Paris porque eu queria que fosse mesmo espontâneo. E gravei as outras canções em apenas um dia no estúdio do meu amigo Dave Draves no Canadá. Estou muito contente com este disco, sim.

Uma vez mais, apesar das diferenças para os registos anteriores, continua a utilizar instrumentação minimal para dar vida às canções. Isso pode significar uma atenção especial com as letras ou é só uma forma de fazer com que as pessoas foquem a sua atenção nas palavras no lugar da música?
Eu tento não pensar, apenas faço...

As canções em “Goodnight Nobody” são construídas com a ajuda de uma guitarra acústica, de uma guitarra eléctrica, de um piano e até de um banjo. A diversidade instrumental foi uma escolha consciente? Tem alguma espécie de preferência entre o formato acústico e o formato eléctrico?
Não, eu acho que não tenho qualquer preferência no facto de o som geral ser eléctrico ou acústico. No entanto, uso a guitarra eléctrica para quase tudo. Suponho que se tivesse uma guitarra acústica decente a usaria mais.

A começar pelo título, o disco parece quase obcecado pela noite e pelos seus segredos e mistérios. Tem também quatro temas com a palavra “noite”. Porquê?
Simplesmente porque tinha de ser dessa forma. O disco anterior, “Heart And Crime”, era obcecado pelo coração e com todas as coisas que, por vezes, caminham ao seu lado.

Como é que vê a música no Canadá? Qual é a sua relação com os músicos canadianos?
Tenho um grande apreço pelos meus amigos músicos canadianos. Não tenho muitos mas sinto-me muito agradecida pelos que tenho. É muito bom ser amiga de pessoas que eu admiro musicalmente. Em relação à cena canadiana, há muito boas coisas a acontecer aqui, agora.

Acho que é consensual que 2004 foi um grande ano para a música folk. Uma vez que a sua musica surge tantas vezes ligada à musica folk, quais foram os seus discos favoritos do ano anterior, no que à folk diz respeito?
Alguns dos meus discos favoritos do ano passado foram: Hayden – “Elk Lake Serenade” (do Canadá), Howie Beck – “Alice” (do Canadá), Snailhouse (na verdade, este lançamento é de 2005, do Canadá), Tom Waits – “Real Gone”, Joanna Newsom – “Milk-Eyed Mender”... eu adoro tudo o que venha dos Herman Düne e o novo disco vai ser lançado em Março… Jens Lekman – “When I Said I Wanted To Be Your Dog” (Suécia), Nicolai Dunger (vi-o actuar ao vivo e achei-o fantástico – ele também é da Suécia, creio eu).


André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre 2005)