Vandermark 5, Spaceways Inc., Tripleplay, Sound In Action, DVK, School Days, Free Music Ensemble, Sonore, Peter Brötzmann Chicago Tentet, Territory Band. Estes são apenas alguns dos muitos projectos que contam com o contributo do inestimável saxofonista Ken Vandermark. Proveniente de Chicago – a cidade de onde emergiram algumas das mais potentes vagas do free jazz, do Art Ensemble of Chicago a Anthony Braxton – Vandermark já se afirmou como uma das vozes mais importantes do jazz do nosso tempo. Com a generosidade dos gigantes, vai repartindo colaborações entre os dois lados do Atlântico, distribuindo talento por um sem número de títulos, gravações e editoras. Com o seu famoso grupo Vandermark 5 editou uma série de discos denominados “Free Jazz Classics”, mas ele próprio já se tornou, com todo o mérito, numa referência incontornável do free jazz contemporâneo. Em vésperas de uma série de concertos com um novo grupo no Jazz Ao Centro (Coimbra) e de um concerto solo na Galeria Zé dos Bois (Lisboa), Ken Vandermark revela-nos, com simpatia e inadequada humildade, que não é fundamentalista (ouve rock, funk e reggae), que encontra inspiração nas vielas sinuosas de Alfama e analisa com optimismo o actual momento do jazz. Senhoras e senhores, convosco, the hardest working man in Chicago!
Como é que surgiu este projecto com Adam Lane, que vai ser apresentado no Jazz Ao Centro?
O projecto foi ideia do Pedro [Costa, da editora Clean Feed] que sugeriu que tocasse com o Adam Lane, um contrabaixista de Nova Iorque com quem ainda não tinha tocado, e a ideia era que o Adam escrevesse algum material e eu escrevesse outro tanto. E eu sugeri que trouxéssemos o Paal Nilssen-Love para a bateria e o Magnus Broo para o trompete, dois músicos com quem já trabalhei noutros grupos e que são fantásticos. E o Adam adorou a ideia de trabalhar com estes dois rapazes. Tanto quanto sei os concertos em Coimbra serão gravados, por isso em princípio destas três noites de concertos sairá um álbum ao vivo.
Este quarteto tocará apenas música original?
Sim, só originais.
Este álbum será editado pela Clean Feed. Como foi a experiência com esta editora com a edição do disco “Gambit” do seu grupo Tripleplay?
Foi óptimo trabalhar com a Clean Feed. Gosto muito de trabalhar com o Pedro, ele é muito receptivo, tem uma mente aberta e está sempre muito bem informado, sabe muito sobre a música. Por isso trabalhar com alguém assim é o ideal, porque estamos a comunicar com alguém que tem um background semelhante. No caso dele trabalha com a editora, no meu caso eu trato de fazer a música, e eu vejo esta situação mais como uma colaboração entre pessoas que trabalham em concordância em partes diferentes do campo. Por isso tem sido muito bom trabalhar com ele.
Já estão planeadas as próximas homenagens na série “Free Jazz Classics” dos Vandermark 5?
As últimas edições, o terceiro e quarto volumes, foram Sonny Rollins e Rahsaan Roland Kirk. E agora vou fazer uma pausa dessas gravações durante um bocado porque quero que as pessoas se foquem mais na minha música original. Eu gosto muito de reinterpretar essa música, mas acho importante que as pessoas percebam que as ideias das composições originais são as mais importantes, porque é o trabalho que está mais directamente ligado àquilo que penso. Por isso neste momento vou fazer uma pausa para deixar tocar música de outras pessoas.
Os clássicos são importantes para quem está a começar a ouvir jazz. No seu caso pessoal, qual foi o primeiro músico de jazz que o marcou?
Um dos meus primeiros músicos preferidos foi o Sonny Rollins. Ele teve um impacto enorme em mim - e ainda tem actualmente. Mas não sei se concordo com essa ideia de que é preciso começar por ouvir os clássicos para se poder ouvir a música que se faz agora. A questão que e coloco é: em que ponto é que alguém está suficientemente informado para perceber a música que se faz hoje? E a verdade é que as pessoas ouvem a música (qualquer que seja o tipo de música, e isto faz sentido fora o tipo que música que eu ou outras pessoas com quem trabalho façam) porque está ligada ao nosso tempo actual. Por isso a música é influenciada pela história do jazz, mas também tem influências da história do rock, do reggae, do funk e de todos os estilos de música que ouvimos. E cada vez mais reparo que os verdadeiros fãs de música, em qualquer país que vá, têm um background de gostos semelhantes – podem conhecer algum jazz, mas também um bocadinho de rock e por aí fora, e todas essas coisas formam o ouvinte. Por isso, a ideia de que se tem de conhecer primeiro os clássicos não faz muito sentido. Por onde é que se começa, pelo Louis Armstrong? A música dele é fabulosa, mas a música dele formou os músicos depois dele, a música swing formou os músicos do bebop e por aí fora… É uma cadeia de progresso. Sim, se conhecer a música de Anthony Braxton ou de Eric Dolphy, talvez a minha música faça mais sentido, há mais pontos de referência. Mas acho que é possível recuar a partir do ponto onde estamos agora. Enquanto ouvinte demorei muito tempo até apreciar a música de Louis Armstrong, levei anos a perceber o quão espantosa era… Foi uma espécie de escuta multidimensional, imaginado o futuro e ao mesmo tempo viajando até à música do passado, incorporando todos esses elementos.
O trio The Thing de Mats Gustaffson toca versões de música rock em formato free jazz. Acha que este poderia ser então um bom ponto de partida para alguém que está a começar a ouvir jazz?
Sim, definitivamente! Esse é um método que funciona com um grupo muito alargado de ouvintes, porque muitos conhecem a música de outro formato diferente, podem ouvi-la num formato improvisado e têm assim uma referência mais próxima.
Para além do jazz, toca música funk nos Spaceways Inc. ou integrado nos The Crown Royals. Músicos como George Clinton e James Brown ainda são referências musicais importantes para si neste momento?
Sim! Tentei aprender de várias histórias da música e cada artista tem pontos de vista diferentes sobre o que fazer com o som. Tento ter a mente aberta, tento ouvir com os “ouvidos abertos”… Tenho sido capaz de descobrir maneiras de organizar a música no campo em que trabalho ao recolher coisas de outros campos, como do dub/reggae ou do funk de James Brown. Todas estas coisas entram na forma como organizo a minha música, e embora muitas vezes não soem parecidas, muitas das ferramentas e estratégias são similares. Por isso é muito importante para mim ouvir mais música para lá da história do jazz, para ajudar a desenvolver outras ideias.
Actualmente ainda ouve música rock?
Sim… É engraçado, a maior parte das coisas rock de que gosto (e em muitos casos estão a fazer da música mais avançada, em termos de estruturas), bandas como Shellac, The Ex, Mission of Burma, Wire, são todos músicos mais velhos, músicos da minha idade ou mais velhos. E acho que de algum modo continuam a ser forças criativas, porque desenvolvem sempre novas estratégias para fazer música rock. Estou sempre e ouvir a música deles, descubro maneiras novas de organizar aquilo que faço. Uma banda como Shellac desconstrói as formas da música rock e cria uma ideia de tensão a partir daí e isso influencia o modo como tento organizar a música que faço.
Estudou intensivamente a história do jazz e a sua evolução. Enquanto interveniente activo, como vê a actual fase do jazz que vivemos neste momento?
Acho que estamos numa fase muito interessante neste momento. Estamos num ponto central, depois de todas as revoluções que aconteceram: houve as coisas que aconteceram no AACM [Association for the Advancement of Creative Musicians] no final dos anos sessenta; as coisas que aconteceram em Inglaterra, com Derek Bailey, Tony Oxley e Evan Parker; a cena holandesa, com Han Bennink e Misha Mengelberg; a cena alemã com Brötzmann e muitos outros. Aconteceram todas estas explosões de pensamento radical na música e nos meados dos anos 80 e 90, particularmente nos Estados Unidos, houve uma espécie de reacção contra todos estes desenvolvimentos, um novo conservadorismo – o que eu acho infeliz. Neste momento todas estas escolas de pensamento têm um sistema codificado próprio, como a escola da livre improvisação inglesa, que é herdeira dos desenvolvimentos que aconteceram nos anos 70. Agora há as pessoas que se juntam a certas escolas e há outras que tentam integrar as diferentes ideias de todas estas escolas, para criar novos híbridos e novos métodos. E agora estamos numa fase interessante, tal como aconteceu no jazz americano no final dos anos 50, quando as pessoas estavam a tentar decifrar o que fazer a seguir. Havia músicos como Jimmy Giuffre, Ornette Coleman, Cecil Taylor, todos a experimentar coisas antes de chegarem às formulas definitivas - como o trio de Giuffre, o quarteto de Ornette, a música de Cecil depois da passagem pelo seu grupo de Dennis Charles, Andrew Cyrille e Sunny Murray… Penso que este momento é empolgante porque não é claro o que vem a seguir e de uma certo modo isso torna as coisas muito livres e as pessoas estão dispostas a olhar para além das escolas e tentar algo diferente.
Estamos num período de transição?
Exacto!
Como um dos maiores músicos da era contemporânea, sente algum tipo de pressão?
Bem, com as coisas postas desse modo, sim! (risos)
Mas não deixa de ser verdade…
A pressão advém dos músicos com quem trabalho, porque quero fazer o melhor trabalho possível, uma vez que as pessoas com quem trabalho já fazem o mesmo. Neste momento sinto que começo a chegar àquela música que é mesmo minha, às ideias mais originais. Para mim isto é muito entusiasmante e a pressão, o desafio, é tentar ir mais além, correr mais riscos, pegar naquilo que aprendi e colocar num novo sítio. Não sei se pressão será a palavra correcta, mas o desafio de correr riscos é importante para mim e estou muito motivado para continuar a fazer isso. Eu trabalho com pessoas como Peter Brötzmann ou Joe McPhee, que são cerca de vinte anos mais velho que eu, e eles estão a tocar a melhor música das suas carreiras e nunca param de tentar ser criativos. Conhecer pessoas assim e trabalhar com elas é uma inspiração directa que me compromete com o mesmo caminho. Por onde quer que eu vá, e o meu percurso pode ser diferente das direcções que eles tenham tomado, a minha música é decisivamente influenciada por eles, pelo exemplo forte daquilo que significa ser um músico criativo.
Joe McPhee, Peter Brötzmann, Evan Parker, Anthony Braxton… estes músicos são grandes influências. O que o continua a inspirar, para além do exemplo destes músicos?
Acho que para mim a coisa mais inspiradora é o factor de eu adorar trabalhar com o som e tentar organizar o material, quer seja compondo uma música ou tocando numa sessão de improvisação completamente livre. Para tentar moldar a música em diferentes tipos de formas, há tanta coisa para fazer que eu estou sempre a arranjar inspiração. Por exemplo, hoje estive a trabalhar numa nova composição, para o projecto com o Adam [Lane], e tirei as ideias para a música enquanto caminhava ontem à noite com o Pedro pelo bairro mais antigo de Lisboa…
Alfama?
É isso, Alfama! Enquanto andava na rua tirei algumas ideias sobre como organizar os temas. Quanto temos uma progressão linear, entre um ponto e outro, podemos variar pelas curvas e contracurvas, tal como as ruas do velho bairro. Estas coisas assim inspiram-me o tempo todo. As outras artes inspiram-me, a pintura, a escrita, o cinema… Há tantas coisas que nos despertam as ideias, temos só de estar abertos, olhar, ouvir.
Viajando até Chicago… Fred Anderson encerrou o famoso bar Velvet Lounge, Rob Mazurek mudou-se para o Brasil. Como está a cena de Chicago, actualmente?
É interessante que perguntem isso, porque em Setembro do ano passado encontrei-me com o Dave Rempis e o Mike Reed (um óptimo baterista) e ambos têm estado a organizar concertos em Chicago, tal como eu andei durante muito tempo a organizar concertos num bar chamado The Empty Bottle. Agora, com o encerramento do bar do Fred e com o Empty Bottle a promover muito menos concertos de música improvisada do que acontecia antes, as coisas têm estado a mudar. Nós reunimo-nos como forma de evitar o declínio da actividade musical e temos conseguido arranjar novos locais para tocar e dar vida a muitas coisas. Apesar do facto de pessoas como Chad Taylor e Rob Mazurek terem deixado a cidade, vieram outros músicos, como Nate McBride ou Ingebrigt Haker-Flaten [contrabaixista dos Atomic]. Há muita gente a chegar, há muitos músicos novos (na casa dos vintes) e depois há gente como o Fred Anderson que aos setenta anos continua a tocar. Acho que a cena continua vibrante e tem vivido um ressurgimento de energia, apesar das mudanças. As pessoas têm encontrado novos sítios para apresentar a música, eu tenho trabalhado num bar chamado Hideout e o Dave [Rempis] tem um novo espaço chamado Elastic e ao que parece o Fred Anderson vai reabrir o Velvet Lounge num novo sítio - ouvi dizer que seria possivelmente em Junho, mas talvez seja um pouco mais tarde, no Verão. Por isso, neste momento o ambiente é entusiasmante.
O Ken Vandermark ainda é, como alguém classificou, “the hardest working man in Chicago”?
Ah, não!… Muitas das pessoas com quem trabalho têm uma abordagem semelhante, tentando fazer uma quantidade de coisas, trabalhando com muita gente. Eu sou afortunado porque tenho tido a possibilidade de sair de Chicago e percorrer a Europa e a América do Norte, mostrando as ideias que desenvolvi em Chicago a uma quantidade enorme de pessoas. Estou motivado e a trabalhar no duro, mas há mais pessoas que também trabalham no duro, não sou o único.
E agora, para além do projecto com Adam Lane, quais são os seus planos para os tempos mais próximos?
Há um monte de coisas a sair… Há um novo quarteto chamado Powerhouse Sound, que é um grupo mais eléctrico, que é uma espécie de desenvolvimento das ideias dos Spaceways Inc. A primeira versão era com músicos de Oslo, mas tive de mudar para um grupo sedeado em Chicago e agora inclui Jeff Parker na guitarra, John Herndon na bateria e Nate McBride no baixo eléctrico. Este grupo vai lidar com o meu interesse em música funk, reggae e rock de uma forma mais directa. A Territory Band reúne-se em Agosto para um projecto com Fred Anderson como artista convidado – e estou muito atraído por este projecto. O Free Music Ensemble [FME] tem agendada uma tour na Europa em Outubro e está um novo disco para sair. E estou a organizar um novo quarteto, para o qual ainda não descobri bem os músicos, mas que será uma forma abstracta de trabalhar a música. Será um projecto ligado à improvisação, afastando-se do jazz, talvez utilizando ideias de outras músicas de uma forma… como dizer… abstracta!
Mas ainda não tem nenhum músico em mente para este projecto?
Não… Esta Primavera estive a tocar com alguns músicos em Chicago, com este projecto em mente, estive a testar algumas opções. Quero fazer um quarteto, e tenho a certeza que haverá bateria, mas ainda não tenho mais nada definido. No Verão quero voltar a casa e trabalhar mais para encontrar os músicos certos.
Para este projecto de improvisação não vai recrutar músicos europeus?
Eu quero um grupo com base em Chicago porque assim é mais fácil ensaiar. Continuo a tocar com músicos europeus, como no grupo Free Fall, o Paal Nilssen-Love faz parte do FME, há o Brötzmann Tentet… Agora vou fazer uma tour com o Paul Lytton e o Phil Wachsmann, num grupo de livre improvisação chamado CINC, vamos lançar um disco pela Okka Disk. Há uma quantidade imensa de coisas…
Já veio algumas vezes a Portugal. Tem algum conhecimento da cena free jazz portuguesa?
Não sei muito, mas vou aproveitar o festival [Jazz Ao Centro] para ouvir alguns dos músicos portugueses. Estive a falar com o Pedro, acho que a última vez que cá estive foi no concerto do grupo Tripleplay. Mas agora quando cheguei e saí do avião foi como se tivessem passado apenas umas semanas… O país é fantástico, estar novamente em Lisboa e andar a passear por aí é muito agradável, isto é muito bonito e é bom estar de volta. Como já disse sobre a caminhada pelo velho bairro, é inspirador! E as pessoas… Pessoas como o Pedro ou vocês, todas estas pessoas que aqui conheço são apaixonadas sobre música, sabem imenso e fazem tudo o que podem para a apoiar. Quer esteja em Portugal, na Alemanha ou nos Estados Unidos, quando se encontram situações em que as pessoas querem mesmo que a música avance, isso dá-nos razões para continuar a trabalhar. Às vezes pode ser frustrante, às vezes sente-se que não se consegue comunicar as ideias, ou que se está apenas a bater com a cabeça na parede, mas depois chega-se a um sítio destes e pensa-se: “ok, foi por isto que fiz o trabalho, há aqui pessoas interessadas ouvir”. Por isso estou muito contente por estar de volta.
Depois dos concertos no Jazz Ao Centro, vai tocar na Galeria Zé dos Bois, um espaço que tem servido de palco a músicas extremas/free/noise. O que podemos esperar deste concerto a solo?
No ano passado estive a trabalhar num projecto de música a solo com um pintor de Chicago chamado Richard Hull. Também fiz um projecto, em Dezembro, com uma bailarina de Estocolmo chamada Lotta Melin e com Jaap Blonk [improvisador vocal holandês] e este projecto esteve ligado com a escrita de Samuel Beckett. Haverá alguma música daí e outra música completamente improvisada. A maior parte da música será improvisada, mesmo as partes escritas têm grandes secções para improvisação. Por isso algumas partes serão muito intensas, agressivas e barulhentas, outras serão calminhas e minimais – e também haverá momentos intermédios, entre uma coisa e outra. Como não tenho muitas oportunidades de fazer concertos solo, será um privilégio fazê-lo.
Nuno Catarino
(Mondo Bizarre - Junho 2006)