Entrevistas
KEVIN BLECHDOM
COM O CORAÇÃO À MOSTRA
Já fez mais de um ano que a americana Kevin Blechdom actuou nos palcos portugueses, mostrando um tipo de concerto surpreendente pela sua vitalidade e humor. No próximo dia 31 de Outubro, noite das bruxas, Kevin Blechdom volta a Lisboa para um concerto na Galeria Zé dos Bois e no dia seguinte em Famalicão, na Casa das Artes. Com um novo álbum lançado pela editora Chicks On Speed chamado “Eat My Heart Out”, este concerto promete ser mais uma vez um alucinante espectáculo cheio de surpresas e, talvez, com performances vocais inesperadas. A música de Kevin Blechdom foge a qualquer compromisso, assume-se marcadamente feminista e versa sobre o amor e o sexo de uma forma completamente exagerada (como a própria confessa). Bastante diferente do usual nos músicos de laptop, esta artista desafia constantemente o ouvinte e interpela-o, e acredita que o choque pode ser uma arma. Este concerto promete, portanto, ser mais uma experiência radical, com um enorme sentido de humor. O burlesco e o sarcasmo moram aqui. Para assinalar este concerto, a Mondo Bizarre trocou algumas impressões com a Kevin Blechdom.

No seu novo disco “Eat My Heart Out” mostra novamente que é uma cantora excelente. Mas, que eu saiba, começou por fazer canções instrumentais com a Blevin Blectum. Porque não explorou o seu talento vocal antes? Ou já cantou antes do seu trabalho a solo?
Estive numa banda chamada Adult Rodeo, com o meu irmão e a minha cunhada entre 1998 e 2000, estávamos na editora Shimmy, e eu comecei a cantar nesse projecto. Coros, essencialmente, e algumas canções a solo também. Depois Blectum From Blechdom, a minha banda seguinte, era apenas um projecto electrónico no início. Lentamente comecei a cantar mais e mais. Até que Blectum From Blechdom terminou e eu decidi focar-me no canto.

As letras que canta parecem muito pessoais. É verdade ou está simplesmente a fazer uma personagem?
Agora todo o material é exageradamente autobiográfico. Portanto, é verdade, mas eu tendo a fazer com que as coisas expludam para dimensões desproporcionadas. É um comic book musical acerca da minha vida...

Amor e sexo estão espalhados por todo o seu trabalho. São estas coisas a sua maior inspiração quando faz canções? Está a tentar exorcizar alguns dos seus demónios quando escreve sobre estes assuntos?
Há realmente algum exorcismo no meio das canções. É provavelmente também uma resposta feminista para o mundo e eu costumo realmente apreciar o choque, mas tento ser mais sofisticada agora. Sim, o Amor é uma enorme inspiração, e a dinâmica da “relação” exerce um fascínio sobre mim, especialmente quando colaboro com pessoas com quem eu gosto de estar muito próxima e de uma forma intensa, e eu gosto do conteúdo da música que reflicta a dinâmica de uma relação. Mas isto pode ser muito perigoso se as coisas dão errado. Há que as manter juntas!

O seu novo álbum é muito diferente do que é costume ouvir actualmente na música electrónica e no pop-rock. Ainda assim lembra-me projectos como Residents, Negativland ou os Sparks. Estas pessoas foram uma inspiração para si?
Os Residents e Negativland foram grandes influências, ao lado de muita, muita música. Os Sparks só agora comecei a ouvir e adoro. Eu ouvi imenso gospel, bluegrass e canções ligeiras quando fiz “Eat My Heart Out”.

É americana, mas lançou o novo disco numa editora europeia. Porque preferiu uma editora europeia?
Bem, acho que eles me encontraram, e achei que era uma boa ideia. E tendo a ter espectáculos mais bem sucedidos na Europa e estou muito tempo em Berlim, por isso faz todo o sentido. Europa é ainda mais aberta para o underground, música experimental e arte, por isso é fácil fazer-se o que se quer aqui.

Porque é que a capa do CD é diferente da capa do promocional? E o coração no promo é humano ou de um animal?
Bem, os distribuidores americanos, britânicos e japonês não o distribuiriam nas lojas principais se eu mostrasse o peito na capa. Por isso, a editora decidiu que perderíamos vendas se não “censurássemos” a capa. Adicionamos outra capa em cima da original. A capa original ainda está no CD, mas tem outra capa em cima dela. O animal era uma cabra, acho...

E porquê o título “Eat My heart out”? É um convite para ouvir as canções ou realmente sente que as pessoas comem o seu coração quando ouvem as suas canções?
É um pouco de ambas. É também acerca de me sentir “vampirizada” emocionalmente, mas decidindo deixar que isso aconteça. É definitivamente um convite para sorver o conteúdo emocional.

Ainda joga Snood antes de começar os seus concertos?
Ah, não, estou enjoada desse jogo. Planningtorock e eu estivemos trabalhando no nosso próprio jogo de vídeo ultimamente, onde nós somos as personagens.

Muitos artistas electrónicos começaram a usar vídeos durante os seus espectáculos. Que pensa disso? Com que coisas se preocupa antes de um concerto: com a música que toca ou com a forma como a performance é feita no palco?
Às vezes penso em animar alguns dos meus desenhos para os meus concertos, mas ainda não fiz isso. De facto não tenho grandes preocupações antes de tocar. Eu venho da escola “the show must go on”, e nessa perspectiva nada poderá aparecer no caminho ou parar-te, há sempre uma maneira de fazer com que o show aconteça! E tenho um enorme prazer em lidar com dificuldades técnicas. Mas gosto de um concerto certinho também. Quero sempre desafiar-me no palco e descobrir novos sítios criativos para viver. Para não me repetir demasiado e mudar constantemente.

Ainda canta a canção “I Will Always Love You”?
Só se nunca a toquei aí antes... Estou farta dessa canção. Agora temos outras surpresas para o final, algo similar com a capa censurada do disco, mas não quero revelar o segredo.

César A Laia
(Mondo Bizarre - Outubro 2005)