LAGWAGON
Pensem nos miúdos antes de se separarem
De volta com “Blaze”, o seu melhor disco em anos, os Lagwagon estão prontos a retomar, sem mácula, a sua posição de pioneiros do pop-punk. Joey Cape, o vocalista do grupo, fala sobre o passado e o novo estado de graça da banda.
A mamã e o papá estão a ficar fartos um do outro. O casamento está a dar as últimas, mas ainda não chegou ao espectáculo de gritaria e portas a bater, que dá trabalho aos polícias, nem à discreta, mas brutal, guerra de palavras que enche os consultórios dos psiquiatras com adultos traumatizados. Não, não há dedos a apontar, não há culpados. As coisas limitaram-se a arrefecer.
Talvez seja a pressão que os miúdos exercem, ou o problema de conjugar a carreira com a família. Talvez o nível das hormonas tenha descido e os corpos se tenham tornado mais gordinhos e flácidos, o fulgor no quarto que levaram a mamã e o papá a serem pais desapareceu, evaporou-se como o cabelo do Mick Jones. As coisas chegaram a um beco sem saída, arrefeceram, passaram e, pondo os eufemismos de lado, tornaram-se merdosas.
Não são só as mamãs e os papás que se aborrecem uns dos outros. A mesma coisa também pode acontecer a bandas. Aconteceu aos Lagwagon depois da edição do último disco, “Let’s Talk About Feelings” (1998): o peso de oito anos acumulou-se na vida conjunta dos seus membros, como o impacto de um martelo na cabeça equivalente a um empréstimo a 30 anos de uma casa nos subúrbios e as noites de sábado passadas no café da esquina. A banda passou por um mau bocado que durou quase cinco anos.
“Penso que se perdeu um pouco a química,” explica o vocalista Joey Cape. “Acontece muito a bandas quando já estão juntas há demasiado tempo. Passa-se por um período de tempo em que as coisas não acontecem naturalmente. Por um motivo qualquer, todas as gravações nos pareciam mais forçadas. Depois de prontas, as canções não soavam “bem”, não pareciam estar muito coesas.”
Contudo, a química voltou, após uma notavelmente longa ausência das prateleiras de edições novas. Após meia geração de lágrimas engolidas, românticas chamas bruxuleantes e dúvidas, o novo disco, “Blaze”, afirma “Nós ainda existimos!”, com uma paixão que tem estado ausente do trabalho da banda desde 1995, com “Hoss”, os Lagwagon (Cape juntamente com os guitarristas Chris Rest e Chris Flippin, o baixista Jesse Buglione e o baterista Dave Raun) rasgam o pop-punk californiano como deve ser. Desde os ritmos que só um “speed freak”, um puto com hiperactividade ou um verdadeiro punk consegue acompanhar, até às duas guitarras que rugem pelas frase e melodias, que são metade divisão de tanques, metade gelado de menta e nata.
As dúvidas em relação às fundações maritais em que os Lagwagon basearam o seu nome desaparecem de uma vez por todas – e ainda havia bastantes questões. Por exemplo, “Let’s Talk About Leftovers” (2000), um lançamento remediado de variedades, que deixou os fãs a queixarem-se do dinheiro mal-empregado. Ou mesmo “Let’s Talk About Feelings”, uma excursão tolerável pelo som da banda, se bem que previsível e pré-formatada. Depois seguiu-se “Double Plaidnium” (1997), que levou Ken Stringfellow, guitarrista dos Posies, a emprestar o seu talento para desacelerar um pouco a banda. Tudo isso são tudo águas passadas pois agora os Lagwagon estão em excelente forma.
Então o que reacendeu a chama? Alguns casais vão para retiros românticos de vez em quando para fugir à rotina e para reavivar a paixão, outros escrevem poemas e aninham-se, outros ainda voltam-se para os filmes eróticos, para as conversas obscenas e para um monte de roupas e objectos comprados “confidencialmente” pela Internet e que só usam quando os miúdos ficam em casa dos avós. Passados anos de falsas partidas em estúdio – três ou quatro idas foram abandonadas depois de resultarem em estremecimentos para maiores de 13, quando o mínimo aceitável para os Lagwagon são cenas explícitas para maiores de 18 – as condições acabaram por se reunir no Verão passado. Bem oleados e montados na excitação de uma digressão de Verão, Cape e companhia encontraram uma nova chama.
“Estivemos na Warped Tour o ano passado e as coisas começaram a funcionar na digressão. Era do tipo: “Espera aí! Temos que começar a compor!”” diz Cape. “Escrevemos a maior parte do novo disco nas últimas semanas da digressão. Quando chegámos a casa começámos logo a ensaiar e as coisas empeçaram a encaixar umas nas outras.”
Tal como um casal em lua-de-mel, os Lagwagon passaram à acção e produziram sete ou oito canções num instante. Algumas outras foram repescadas dos destroços das anteriores idas ao estúdio, arranjadas e gravadas novamente depois da banda ter redescoberto a sua química. Depois de tantos anos, os Lagwagon despacharam “Blaze” em poucos meses.
Claro que há outras explicações, mais intriguistas, para o facto de a relação ter voltado a funcionar. Os vizinhos têm visto o carteiro a fazer longas visitas à mamã enquanto o papá e os miúdos estão fora. Se calhar, dizem eles, ela só precisava de alguma variedade para condimentar as coisas, ou se calhar precisava de tentar outras coisas para perceber como era bom o que já tinha. Cape também tem estado entretido com as suas actividades extra maritais, com o seu projecto paralelo, Bad Astronaut. Em vez de acabar com os Lagwagon, os Bad Astronaut deram-lhe a oportunidade de esticar as pernas e voltar refrescado.
“Eu saí e fiz os Bad Astronaut,” admite. “Essa foi a minha resposta. Fui e passei dois anos noutra banda. Isso resultou muito bem para mim. Consegui tirar imensa coisa do sistema e senti-me confortável ao regressar aos Lagwagon.”.
No entanto, nada dura para sempre. Apesar da nova chama que alimenta os Lagwagon, Cape não vai fingir que ele e os restantes membros da banda vivem num estado de felicidade marital utópica. Cerca de metade dos casamentos acaba em destroços e esse valor aumenta drasticamente quando se trata de casamentos musicais. Isto significa que mais cedo ou mais tarde, os Lagwagon acabarão por meter os papéis para o divórcio e tornar tudo oficial.
Por enquanto, os fãs podem estar descansados. Embora Cape tenha publicamente reconhecido os problemas que a banda estava a ter durante a sua escapadela com os Bad Astronaut, a conversa mudou. Por enquanto, o Sol brilha na união pop-punk da banda.
“Já estávamos a trabalhar no disco há tanto tempo que eu achava que talvez fizéssemos um bom disco,” diz Cape sobre as anteriores predições do fim iminente dos Lagwagon. “Depois de tanto trabalho, acabávamos por ter um disco bastante bom, e tínhamos que desistir porque as coisas tinham chegado ao seu fim. Não sei. Este disco fez-se com bastante facilidade. Não penso que os Lagwagon durem muito mais tempo. Só depende de me estar a divertir e de estar a fazer música com qualidade. Se for assim, então quero fazer parte disso.”
Apesar da banda ter suportado uma perda de química, as coisas nunca mais serão as mesmas. O tempo passa e, sinceramente, cinco anos são uma eternidade no mundo do punk. Quando “Let’s Talk About Feelings” saiu, em 1998, os Lagwagon tinham ajudado a popularizar o som pop-punk por eles inventado. Dúzias de bandas foram atrás deste som, duplicando, intencional ou subconscientemente, o som pop da solarenga Califórnia. Na altura, as bandas que copiavam o som dos Lagwagon e dos NOFX eram mais que as mães. Hoje em dia, o emo-punk capturou a mente dos miúdos e está a controlar os novos lançamentos. As coisas já não são como eram.
“Acho que agora somos uma banda da velha-guarda,” diz Cape meditativo. “No fundo, penso que somos uma banda nova de cada vez que fazemos um disco. Como estamos numa editora independente e não estamos preocupados com marketing e essas coisas,
penso que somos capazes de ultrapassar alguns dos limites que são impostos às bandas. Acho que nos limitamos a fazer discos. Tentamos fazer discos de que gostamos.”
Aproveitem enquanto podem. Tal como diz Cape, nunca se sabe quando vai chegar o fim para os Lagwagon. Afinal, trata-se de um romance cheio de atribulações.
“O futuro da banda muda. Esta sempre a mudar,” diz Cape. “Depende sempre do ponto onde nos encontramos a dada altura. Neste momento sinto-me bem com os Lagwagon. Tudo me parece muito sólido.”
E há motivos para tal: “Blaze” é Lagwagon no seu melhor, é o tipo de material que ajudou a pôr a banda no mapa, a influenciar uma geração de bandas pop-punk e, mais importante, a abanar o vosso mundo. Agora podem ir dizer aos chatos dos vossos pais que ainda há esperança para eles.
Matt Schild
Exclusivo: Aversion.com/Mondo Bizarre
Tradução: Frederico Mendes
(Mondo Bizarre # 15)
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