Entrevistas
LAURA VEIRS
“O PUNK E A FOLK SÃO MÚSICA PARA O POVO”
Laura Veirs é um caso sério de simplicidade. Não da forçada, nem da taciturna, antes da que brota com espontaneidade de alguns privilegiados. Geóloga de formação, a norte-americana passou muito tempo ao ar livre, em “trabalho de campo”, e talvez por isso quando lhe ligamos para Londres, e, à laia de arranque de conversa, nos queixamos do tempo doentiamente quente que se fazia sentir por Portugal no começo do Verão, nos pergunte: “Estão perto do mar?”. “Do rio”, esclarecemos, pensando no Tejo. “Porque é que não vão para lá nadar?”, sugere Laura Veirs. Sem malícia, nem segundas intenções, mas com muita frescura: como a sua música, que em 2004 dá um passo em frente com “Carbon Glacier”, o terceiro álbum de originais que motivou esta entrevista.

Tem estado em digressão pela Europa. Quais as melhores e piores memórias até ao momento?
Temo-nos estado a concentrar em tocar ao vivo, sim. Eu e o guitarrista temos actuado sobretudo em Inglaterra, na Escócia, na Irlanda... Gosto de todos os países, por uma razão ou outra. De Itália por causa da comida e de Espanha por causa das pessoas (risos).

Tem-se apresentado sozinha ou com algum músico convidado?
Na Europa, sou só eu, com um guitarrista. Em casa [EUA] somos quatro: um teclista, um baterista, o mesmo guitarrista [que toca na Europa] e eu. Tanto me sinto bem numa como noutra formação. Por acaso, hoje aconteceu-me uma coisa: o guitarrista que me acompanha ficou retido no aeroporto, porque perdeu o passaporte! Por isso, esta noite vou tocar sozinha. Por um lado estou triste com o que lhe aconteceu, por outro, é engraçado, porque vou poder experimentar mais.

Não tem medo de ficar demasiado nervosa, de sofrer de “stage fright”?
Sim, eu costumo sofrer de “stage fright”... Mas isso às vezes não é um problema. Quer dizer, eu fico sempre nervosa, quando actuo, e das duas uma: ou começo a gritar e o medo passa, ou continuo nervosa até ao fim do concerto.

É curioso, porque cheguei a ler que se distingue de outras cantautoras pela confiança que transmite em palco...
Sim, dizem-me que eu pareço muito segura de mim... Mas não é verdade. Acho que simplesmente me envolvo muito no que estou a fazer. Ponho-me a cantar bem alto, para acabar logo com aquilo. Em palco, não tenho nada atrás do que me esconder. Nas digressões mais longas, não fica com demasiadas saudades de casa?
Sim. Se forem duas semanas, não faz mal, mas mais do que isso... tenho um parceiro de longa data e mais de duas semanas já é demais, para estar longe dele.

Começou, tal como outra cantora folk, a Neko Case, pelo punk. Qual a porta secreta que permite passar de um género ao outro?
Acho que há bastantes semelhanças. Ambos os tipos de música lidam com as coisas que realmente interessam, com as coisas importantes. Ambos são música para o povo. Eu tocava guitarra e cantava numa banda punk; ainda assim, identificava-me com coisas mais acústicas. Quando gravei o meu primeiro disco [“Laura Veirs”], em 1999, ele tinha um ambiente folk punk, pelas guitarras barulhentas, pela maneira como a bateria era tocada... O meu disco seguinte [“Troubled By The Fire”, 2003] já era mais na onda da blues guitar. Hoje estou mais virada para o indie rock: Built To Spill, Sleater-Kinney, Cat Power, M. Ward, há muita coisa criativa a acontecer na costa Nordeste do Pacífico, o que me deixa contente. As pessoas viram o meu percurso como uma evolução natural, acho que não choquei ninguém.

Vive em Seattle. Como é a cena musical dessa região, actualmente?
Seattle ficou conhecida, nos anos 90, pelo grunge, mas hoje em dia acolhe sobretudo muitas colaborações entre artistas de diferentes estilos. Músicos de country, rock, jazz tocam frequentemente uns com os outros.

Por falar em country, concorda que a sua música tem parecenças com a das canadianas The Be Good Tanyas [banda country/bluegrass] e a de Jolie Holland, que recentemente se aventurou a solo?
Com o “Carbon Glacier”, diria que fiquei mais perto do estilo musical delas, sim. Percebo a comparação.

E discos de jazz e blues? Existem na sua colecção?
Tenho algumas coisas de old blues, de jazz nem por isso. As minhas vozes favoritas são as de Bessie Smith, Patsy Cline, James Cotton... Todo o pessoal que toca country blues.

Foi essa a música com que cresceu?
Não, enquanto crescia, ouvia mais o que os meus pais ouviam: música clássica, world music, jazz... Agora, gosto de tudo. E tenho a sorte de estar numa editora como a Nonesuch, que lança todos os tipos de música, desde artistas búlgaros a jazz esquisito e singer songwriters. É muito bom: neste momento, tenho para ouvir para aí uns 30 discos que me foram oferecidos pela editora! (risos) E quando ando em tournée posso conhecer os outros artistas, o que também é bom.

Há quem compare a sua música à de Tom Waits. Concorda?
Gosto bastante dele, mas não tenho os discos todos... Não diria que é uma influência directa. Basicamente, gosto e conheço porque passa na rádio. De quem gosto muito é do Iron & Wine, neste segundo disco [“Our Endless Numbered Days”]. Gostava de tocar com ele.

Estava à espera de uma reacção tão entusiástica por parte da imprensa ao álbum “Carbon Glacier”? A revista Uncut considerou-o disco do mês e deu-lhe cinco estrelas...
Não, de todo! Estou surpreendida e satisfeita. Nos EUA, o disco só sai em Agosto, pela editora Nonesuch. Vamos ver o que as pessoas acham dele.

“Carbon Glacier” é um título inspirado nos seus conhecimentos de Geologia, não é?
Sim, trata-se de um bloco de gelo em Mount Rainier [no estado norte-americano de Washington], que tem muita sujidade escura, de carvão. É interessante, e bonito.

As suas investigações no seio da Natureza ajudam-na a escrever as letras das canções? Passagens como “Rivers run icy and strong” ou “I can’t hold the thunderstorm in my heart” sugerem que sim...
Sim, como costumava passar muito tempo em trabalho de campo, é-me fácil lembrar-me de imagens da Natureza, como metáforas para os meus sentimentos. As letras são muito importantes nos meus discos, tanto como a música. São as letras que dão a coesão temática ao disco, que unem as canções.

E quanto à deixa “The rose is not afraid to blossom/Though it knows its petals must fall?”
Há muitas pessoas que se fecham muito, que têm medo de se esticar, de mostrar a sua beleza. Acabam por não “desabrochar” (“blossom”). Com essa letra quis dizer que as pétalas têm de cair: é natural. Mas voltam a crescer. Pessoalmente, gosto sempre de me levar a novos limites.

“Carbon Glacier” é um disco que vai crescendo com as audições, revelando-se progressivamente mais fantasmagórico, ainda que doce...
Sim, espero que sim! Tentei conseguir essa combinação entre luz e escuridão. Acho que é preciso ouvi-lo mais de uma vez; há pessoas que não o querem ouvir uma segunda vez, mas se o fizerem, percebem isso.

Já está a escrever canções para o próximo disco?
Eu escrevo muitas canções, estou sempre a escrever. Já devo ter composto umas 30, algumas das quais deitei fora. É complicado escrever enquanto se está em digressão, mas o teu subconsciente está sempre a trabalhar nisso. A forma como o sol atravessa o céu, uma nuvem, um cão, a família, os amigos, livros, os outros músicos... tudo isto são grandes fontes de inspiração.

Em “Chimney Sweeping Man”, canta: “I write a lot of letters to pass the time”. É verdade, ou já se rendeu ao poder dos e-mails?
(Risos) Tanto escrevo cartas como mando e-mails. Mas gosto tanto de cartas... são tão “old timey”, sabes? Ainda outro dia me sentei para escrever uma carta a um amigo. Podia ter mandado um e-mail, mas preferi escrever a carta. E depois recebi uma resposta toda trabalhada, com recortes de revistas, o desenho de um dragão a cuspir fogo, montes de coisas que não podes, ou não te dás ao trabalho de fazer num e-mail. Acho que ainda vai haver um revival das cartas.

Hotmail, põe-te a pau?
Exacto (risos).

Lia Pereira