Entrevistas
THE LEGENDARY TIGER MAN
BLUES EM TERRA DE NINGUÉM
Luxúria, paixões turbulentas, jogos de apostas incertas, whiskey, muito fumo. Assim vive a música Legendary Tiger Man; tudo convocado para o apropriadamente intitulado "Naked Blues". Paulo Furtado, ao passá-los diante dos nossos olhos (e ouvidos), está sereno; solitário na eterna encruzilhada de Robert Johnson. Toca blues, claro. E, enquanto o "bottleneck" desliza sobre a guitarra, conta do que nos alimenta e atormenta o espírito desde há milhares de anos. Ouve-se um eterno presente.

Quando é que Paulo Furtado, o apreciador de blues, se transformou em blues-man?; homem capaz de levar guitarra e harmónica até à encruzilhada onde o Diabo promete maravilhas? Terá sido o respirar da essência do blues na sua terra natal, os Estados Unidos, decisiva para passares da audição de discos para a composição?
Acho que foi uma mutação gradual. Sem dar por isso, os blues foram tomando conta do meu trabalho. Quando olho para trás, para as últimas gravações de Tédio Boys, vejo já desenharem-se claramente riffs de blues... E a América, claro, funcionou como um grande motor de arranque... Mas para mim os blues são um caminho, não um fim a atingir... Quero fazer muitas outras coisas, mesmo como Legendary Tiger Man... tango, por exemplo....

Mas afinal, o que leva um tipo de Coimbra a fazer Blues? E, uma vez decidido a fazer blues, porque optaste por uma "one man band"?
Julgo que no meu caso teve a ver com a exposição que tive aos blues desde a adolescência, tanto por audição quanto por contacto pessoal com músicos. A opção por one man band foi um acaso feliz , nada de premeditado. Era apenas um exercício...

Na verdade, pareces preferir a expressão "one man show" a "one man band". O que há de diferente entre um e outro conceito?
É? Nunca tinha pensado nisso...Até me parece mais correcto one man band... Hummm.... One man show parece-me implicar algo mais que a música, um complemento ao espectáculo. Identifico-me mais com o one man band, definitivamente.

Porque escolheste para a tua "one man band" um nome que tanto lembra os velhos blues-men do delta, como um boneco de banda-desenhada? Há um certo ar de cartoon no nome, de alguém que não se leva excessivamente a sério...
O nome surgiu por várias razões... Homenagens a Rufus Thomas Junior e Legendary Stardust Cowboy, por um lado e, por outro (correndo o risco de me passear no fio da navalha), acho que este projecto necessitava de um nome algo grandioso para se abrigar, estou demasiado exposto nele... Levo-me muito a sério neste projecto, invisto muito nele...

Sendo o Legendary Tiger Man a ideia que, mais tarde, levou à criação dos Wray Gunn, que razão existiu para a passagem de um projecto tão singelo, e digamos, contido, a uma banda tão endiabrada e esfuziante como os Wray Gunn?
São dois universos completamente diferentes e necessito muito de ambos. De qualquer modo, ambos são projectos que dividem águas, geram amor e ódio, mexem com as pessoas. Gosto disso em tudo o que faço, não gosto de deixar as pessoas indiferentes. E procuro fórmulas que me satisfaçam para o alcançar. No caso dos Wray Gunn muitas pessoas não conseguiram "apanhar" o salto que aconteceu desde os Tédio Boys, não compreenderam de onde tudo aquilo vinha, e isso agrada-me. Não tenho medo de experimentar e aprofundar conceitos, e a última coisa que para mim um músico deve fazer é baixar os braços e dizer "ok, este é o meu tipo de som, este é o som que o meu público espera que eu faça, é isto que vou fazer durante os próximos tempos". Infelizmente é o que a maior parte das pessoas faz, ou quer ver ser feito. Pela minha parte acredito em fios condutores nas carreiras e nos discos, mas nunca editarei um disco em que não veja claras evoluções e crescimento em relação aos anteriores. Seja Legendary Tiger, Wray Gunn ou qualquer outro projecto.

Dado que Legendary Tiger Man é banda de um homem só, podemos vê-la, de entre todas aquelas em que estiveste envolvido, como a mais intimamente tua? Por outras palavras, o Legendary Tiger Man de "Naked women all around me / Upstairs and down in hell" é o Paulo Furtado ou uma personagem construída para encarnação em disco?
Visto que sou basicamente a única pessoa com uma palavra a dizer sobre o que vou ou não tocar, talvez sim... Por outro lado sinto que sou muitas pessoas diferentes e sempre me revi bastante em todos os meus projectos. Quanto à última parte da pergunta, julgo até que agora sou menos personagem do que era há meia dúzia de anos...

"Sauselito 1 Pm" é uma canção dos Tédio Boys, "Lust", uma canção dos Wray Gunn. Agrada-te revisitar canções que escreveste para outras (das tuas) bandas?
Sempre. Adoro reformular o passado, ao contrário da maior parte das pessoas ligadas ao rock...

Para além da ausência de, chamemo-lhe assim, uma banda completa, que diferenças existem nessas canções e as versões que surgem nos Tédio Boys e Wray Gunn?
As maiores diferenças são no tipo de abordagem e nas tensões criadas. O novo "Sauselito" tem todo um ambiente mexicano que sempre tive vontade de lhe dar, e o novo "Lust" vive de sussurros em cima de um ritmo minimal. Tenho planos de gravar ainda outra versão de "Sauselito", e os Wray Gunn chegaram a gravar o ano passado uma nova versão de "Lust" (nunca editada) com um travo disco sound bastante acentuado...

É bastante comum, no blues, tal como no jazz, que um músico tenha como parte do seu repertório, músicas escritas por outros músicos. Foi esse "apego à tradição" que te levou a incluir as versões de "Mannish Boy", de Bo Diddley, e "She Said" de Hasyl Adkins?
Não... simplesmente soaram-me bem, e gravei-as. A do Hasyl Adkins porque foi a primeira música que tentei tocar como one man band. E nunca a ensaio, gosto dela assim mesmo, torta e mal tocada. Imagino que daqui a uns meses deixe de a tocar por soar demasiado bem...

A imagem de amaldiçoado à nascença, de homem de paixões exacerbadas e masculinidade acentuada de "Mannish Boy" parece cristalizar na perfeição aquilo que imaginamos ser o Legendary Tiger Man. Concordas? É curioso que acabemos por encontrá-lo na versão de uma canção tão popular...
Não me parece que tenha havido grandes transformações no modo de sentir, viver e partilhar a paixão ao longo dos séculos... Provavelmente a popularidade da canção provém daí mesmo, de ser uma manifestação crua do desejo de viver paixões. De qualquer modo não me considero um homem amaldiçoado à nascença, acho que tenho tido uma razoável dose de sorte...

"Sometimes I Miss You" e "She Said" (a primeira pelos ares, no verso, de electrónica roufenha; a segunda pelo delírio sónico das guitarras) podem ser vistas como o Legendary Tiger Man olhando em volta e reconhecendo-se no século XXI? Ou são apenas reflexo de alguém que não quer ou não consegue ser hermeticamente clássico?
Curiosamente acho a versão do "She Said" bastante clássica (não de blues, claro).... e o efeito que ouves em "Sometimes I Miss You" é um metrómeno a passar por um phazer. Qualquer das duas abordagens parece-me bem entranhada no século passado.... Não sinto uma constante necessidade de "inovar" os estilos, pelo menos não o senti neste disco. Contudo acho que este não é definitivamente "o disco de blues banal", no sentido em que não é pensado ou executado como blues comuns. Tem um toque muito pessoal na composição, no background que me rodeia, na minha localização geográfica, que não lhe permitem ser um disco comum.

Consideras correcto afirmar que a intemporalidade do blues deve muito ao facto de lidar com pulsões tão intrinsecamente naturais ao ser humano que a sentem da mesma forma o Robert Johnson dos anos 30 e o Legendary Tiger Man no século XXI. Afinal, não há progresso ou revolução social que acabem com impulsos tão primários como os suscitados pela luxúria, pela tentação, a boémia, a ideia de pecado ou paixão.
Sem dúvida alguma. As pessoas sofrem e sempre sofreram com o abafar de paixões, com o jogo do amor... E com o ritmo deste novo milénio parece que ainda se agrava mais. Vês como as pessoas se comportam ao fim de semana, em procura da libertação de sentimentos que passam toda a semana a esconder debaixo da cama...

Achas que o pecado (no teu caso, espalhado pelo livrete de "Naked Blues" sob várias formas) é apelativo pela lógica do "fruto proibido" ou que o sexo, o álcool ou o jogo são realmente prazeres fantásticos que Deus receia que apreciemos demasiado?
Não tenho qualquer dúvida que são prazeres fantásticos, tão aliciantes que foi necessário criar um conceito de Céu/Inferno para os controlar!! As pessoas que por religião se abstêm de gozar os prazeres da vida, fazem-no na esperança de um dia virem a gozar as delícias do céu... De qualquer modo, têm a importância que têm e nada mais. Há muitas outras coisas que não são um fruto proibido e são tão ou mais satisfatórias... Não estou propriamente a apelar para que as pessoas vivam a vida em boémia, nem tão pouco eu vivo assim a minha. Há que encontrar um certo equilíbrio, neste momento não vivo a vida como se fosse acabar amanhã, como muitas vezes fiz no passado. Usufruo da experiência...

O disco foi gravado "ao vivo" em estúdio. Porque optaste por esse formato?
Era o único lógico para este tipo de projecto, o único fiel e fiável para transmitir o som de uma one man band. E cada vez mais acho que havendo as condições ideais para o fazer, é o melhor modo de gravar determinadas partes de um disco. Mesmo para uma banda com mais elementos.

Podes explicar um pouco melhor o que é isso de gravar "ao vivo" em estúdio?
No fundo gravas exactamente como se de um concerto se tratasse, mas sem público e em estúdio. Quer isto dizer que não existiram overdubs de guitarra ou partes rítmicas. Apenas a voz foi feita em separado em algumas músicas, por razões técnicas.

"Naked Blues" parece estar, a nível de crítica, a provocar algumas divisões. O teu amigo Rui Miguel Abreu escreveu uma pequena e cativante estória na qual o narrador conhece Legendary Tiger Man, num bar de Nova Orleães. Por outro lado, no Diário de Notícias, "Naked Blues" foi bastante mal recebido. Acha que "Naked Blues" é um desse discos que se ama ou se odeia? Porquê tanta disparidade de opiniões sobre o disco?
Os Wray Gunn, quando apareceram, causaram o mesmo resultado, dividiram as pessoas. Muitas pessoas não nos compreenderam (e muitas não nos compreendem). No fundo também me estou um pouco a cagar... Faço sempre aquilo que quero, sinto, e gosto de fazer (a nível criativo). Enquanto houver polémica em relação aos meus projectos, é sinal que estão vivos e de boa saúde.. Quanto à questão do disco ser amado ou odiado, julgo que se põe mais em relação ao seu autor. Parece-me que consigo pôr muita gente enervada em Portugal... O que também é bastante bom.

Diz-se que em Portugal é muito difícil conseguir impor um disco que esteja fora dos padrões mais comuns. Que a edição de trabalhos nacionais é muito complicada e que raramente funciona. No entanto, "Naked Blues", a primeira edição de "Naked Blues", já esgotou, estando uma segunda a caminho. Como ultrapassaste o crónico problema da distribuição?
Trabalhando. Portugal tem sem dúvida muitos problemas de base, mas tudo se ultrapassa com trabalho e uma dose de sorte. Mais bandas em Portugal estão a fazê-lo, e isso é óptimo para todos os músicos portugueses. Mas há um pormenor que é conveniente não esquecer... leva tempo... Todos os anos que os Tédio-Boys lutaram por um lugar ao sol não foram perdidos, bem pelo contrário. Contam, e muito, para todos os envolvidos no projecto. Disto não tenho a mínima dúvida.

"Naked Blues" foi licenciado pela editora espanhola Munster Records, que distribuirá o álbum em Espanha, França, Itália, Bélgica e Alemanha. Mais uma vez, foi contornada a questão da distribuição de discos nacionais, neste caso no estrangeiro. Julgas que a facilidade e rapidez com asseguras-te a distribuição do álbum no estrangeiro tem que ver com o facto de a música do Legendary Tiger Man ser tão sentida e agradável a quem ouve, esteja o ouvinte em Portugal, na Alemanha ou nos Estados Unidos? Que tem que ver com o facto da linguagem musical do disco ser entendida por gente de diferentes países e hábitos?
O contrato pela Munster acabou por abranger todos os países europeus (para o CD) e os Estados Unidos, Europa e Japão, para o vinil. Se as pessoas de outros países e hábitos compreendem o projecto, só o futuro dirá. Distribuição não implica vendas... Mas estou muito contente por haver pessoas que acreditam na qualidade do meu trabalho a nível internacional. É para mim mais um passo na concretização da ideia que é possível ser músico em Portugal (fora do circuito do fado e tradicional) e ter carreira internacional sem ser emigrante. De qualquer modo creio que o interesse das pessoas por este disco é baseado na sua simplicidade.

Sempre vais avançar com a ideia de regravar "Naked Blues" em Tijuana, com uma orquestra Mariachi? Como é que te lembraste de fazer uma versão "chicana" do disco?
É apenas uma questão de timings. Se conseguir acabar o novo álbum de Wray Gunn até Fevereiro de 2003, julgo que será possível. Quanto à ideia, julgo que tem a ver com a minha necessidade de dar várias abordagens ás músicas que componho, dar-lhes novas perspectivas. Existem muitas coisas que quero fazer, e para algumas acho que já alcancei a maturidade necessária, para outras, estou a trabalhar ainda para um dia as poder fazer... Essa é uma que há muito anseio por concretizar.

Em tempos nos quais cada vez mais as pessoas parecem pedir o máximo de estímulos no mínimo de tempo (basta ver os espectáculos "multimédia" de gente tão diferente como os Sofa Surfers, os U2 ou os Rammstein), como tens visto, do palco, a reacção do público ao "minimalismo" dos teus concertos?
Uma pessoa sozinha em palco, mesmo se à guitarra junta o bombo e o kazoo (instrumento de sopro), é algo a que poucos estão, hoje em dia, habituados. Sempre achei que o mais importante, num concerto, é a música; se a criaste e executaste bem, se a sentiste, se te sentes verdadeiro a fazê-la. É a base do teu trabalho, tudo o resto só pode vir depois. E o resto, neste momento, pode ser tudo, o que por mim está muito bem. Mas tudo isso serve para transmitir emoções à plateia, que depois tu devolves, e é desta empatia que vive um espectáculo ao vivo. Agora, as emoções que tu queres transmitir e o próprio modo como as transmites têm mil e uma variáveis... Com o Legendary Tiger Man é um pouco o estilo do encantador de serpentes. Gosto muito quando consigo ter as pessoas agarradas ao espectáculo, há tão poucas variáveis para ver e ouvir, que tudo o que faço, por mais ínfimo que seja, ganha uma importância desmesurada... Para o bem e para o mal! Mas até agora acho que tenho sido bastante feliz com o público, acho que estou a conseguir criar algo que nos une durante o tempo que dura um concerto. E claro que acho óptimo bandas com atitude, êxtases, loucura e músicos a dar mortais no palco, desde que nunca se esqueçam que o que uma banda faz é música. Com quanto mais emoção e fervor, melhor, mas música.

E tu, que em palco estás habituado a partilhar êxtase e energias com os restantes membros de uma banda (assim era com os Tédio Boys, assim é com os Wray Gunn), como te sentes neste formato despojado? A solidão em palco tem sido opressiva ou estimulante?
Ambas. Mas, principalmente, têm-me feito crescer como músico e como pessoa. Aqui pouco mais há que música, e as pessoas vão aos concertos para ouvi-la. Eu pessoalmente estava a precisar de um projecto assim, é decididamente completamente diferente do que fiz no passado. Cada concerto tira mais de mim do que qualquer outro tipo de espectáculo, exige-me um grau de concentração muito maior. Mas quando tudo funciona bem é um óptimo pontapé no cu dos mais cépticos.

No fim da tua actuação no Cabaret da Coxa fizeste um manguito, gesto muito fora de moda e esquecido, ao público. O que te levou a utilizar um gesto tão fora de moda? Estavas a mandar o público àquela parte ou foi um repescar de um gesto tipicamente português caído em desuso?
Digamos que se queres fiado, toma. E é um gesto bem bonito, com um significado bastante preciso.

Mário Lopes e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 13)