Entrevistas
LES SAVY FAV
ROCK COM ATITUDE
Os Les Savy Fav, mentores de um rock dinâmico e descompassado, com laivos hardcore, acabam de ver editado o seu novo álbum, "Go Forth". A Mondo Bizarre conversou com o vocalista Tim Harrington sobre a música e as motivações da banda, sobre o novo álbum, e sobre o atentado terrorista de 11 de Setembro.

Quais são as vossas origens?
Nós vimos de Providence, onde no Inverno neva quatro em cada cinco dias, e quando não neva chove que se farta. Mas vivemos em Brooklyn, Nova York, há cerca de quatro anos.

Antes dos Les Savy Fav já tocavam em alguma banda?
O Syd Butler (baixo) estava nos Desideratta, uma banda de Washington DC. O Harrison Haynes (bateria) tocava na banda de emo-core Hellbender. O Seth Jabour (guitarra) e eu, ainda na escola, tocámos nos The Dirty Girlz, uma banda travesti com temas sobre sexo que nunca editou nada. A verdade é que tive muitos problemas familiares, particularmente com a minha mãe, quando ela descobriu a letra de uma música que escrevi, em que a Barbie sodomizava o Ken com um chicote.

Ouvi dizer que vocês têm uma forte relação com o mundo das artes. Que tipo de relação é essa?
Nós juntámo-nos enquanto estudávamos numa escola de arte em Providence. E nunca abandonámos esta vertente, apesar da música. O Harrison pinta, o Seth faz ilustração, o Syd é realizador e eu faço arte electrónica com máquinas.

Qual é a diferença entre o som que os Les Savy Fav fazem agora e aquele que faziam quando a banda tinha cinco músicos?
Com um membro a menos conseguimos abrir mais a nossa música. O que possibilitou que cada um dos quatro que ficaram pudesse aprofundar o sentido que queriam dar aos respectivos instrumentos. Com cinco pessoas a escrever músicas parecia que estávamos a jogar Tetris e a tentar encaixar todas as perspectivas.

No EP "Rome" e no novo álbum "Go Forth" parece que simplificaram o vosso som, quase como que num regresso às origens...
Com o formato quarteto tem sido mais fácil atingir aquilo que pretendemos fazer, que é música mais dinâmica e mais física. Não sei se é um regresso às origens, porque as nossas origens estão na atitude "vale tudo menos o lava-loiças".

Porquê o título "Rome (written upside down)"?
Tem a ver com o livro "Eu Cláudio", onde uma feiticeira é contratada para enfeitiçar Germanicus. Estes feitiços não são aquele tipo de magia em que se transformam pessoas em sapos, mas uma coisa mais psicológica. Um dos feitiços, que aparece nas paredes do quarto da casa de Germanicus, e que ninguém consegue descobrir o culpado, é o nome de Germanicus escrito de pernas para o ar. Todos os dias, ao acordar, há uma letra a menos no seu nome. Um feitiço idêntico é a palavra Roma escrita também de pernas para o ar, o que representava o pior feitiço que se podia lançar sobre a Roma Imperial. Significa "eu inverto e desafio tudo e o vosso mundo em particular". Este conceito agradou-me, porque acho que muitas bandas punk são politizadas, mas a maior parte das vezes a política delas não faz eco comigo. Eu acredito que os problemas políticos e sociais são muito mais profundos do que os temas da modernidade. Roma inventou a burocracia, a traição e a ciência. E por isso eu culpo Roma. Há uma estátua romana famosa chamada "O Gaulês Moribundo", que supostamente representa a morte do último francês pré-Roma. É um símbolo da vitória romana sobre a Europa indomável e não-civilizada. Sendo os Les Savy Fav uma banda com um nome francês falsificado, sentimo-nos ofendidos com este símbolo. Nós somos os últimos gauleses indomados!

Como é que os Les Savy Fav funcionam ao vivo?
Muitas pessoas dizem que somos diferentes ao vivo e em disco. O que é verdade e até é bom. Ao vivo tentamos ser espontâneos. Queremos que as pessoas na audiência sintam que foram despejadas num turbilhão de música crua, e que percebam que às vezes é bom não ter expectativas, porque a coisa pode correr bem ou mal. A música ao vivo é como ver um equilibrista: uma parte de nós deseja que ele consiga e outra deseja que ele falhe.

Quais são as vossas referências musicais?
As nossas referências musicais vêm de todos os lados. E quanto mais diferentes melhor, porque acaba tudo por se transformar no som dos Les Savy Fav. Ontem à noite vi um documentário sobre o Bob Dylan, chamado "Don't Look Back". O Dylan estava a ser entrevistado por um daqueles típicos jornalistas ingleses que lhe pede para se auto-definir em dois minutos. O Dylan respondeu que não era capaz. O entrevistador insistiu: "Você é um artista e, como tal, deveria ser capaz de fazê-lo. Não é isso que distingue os artistas?". Ao que Dylan respondeu que é precisamente por ser artista que não consegue. Isto significa que o mundo está sobre-influenciado pelos media, que nos impingiram a ideia de que todos nós pensamos em nós próprios através de meras descrições de dois minutos. E os artistas modernos sabem que, pelo contrário, devem defender a complexidade e as nuances como expressões dessa complexidade. Musicalmente temos toda a consideração por bandas que adoptam este princípio.

Então vocês sentem-se mais ligados a um certo tipo de bandas pop-rock eclécticas, como por exemplo uns Talking Heads?
Os Talking Heads são um excelente exemplo de uma banda que trabalhou com sucesso em prol da arte moderna, sem se isolarem da cultura de massas, o que é um grande feito. Não acredito que as editoras mainstream ainda aceitem bandas com esta atitude hoje em dia.

Acredita na ideia de que o rock está morto?
O rock não está morto, mas esteve doente durante algum tempo. Quando começámos em 1996, o panorama musical atravessava um mau período. Entre 1992 e 1995, a música mainstream subjugou a música independente e quase que a aniquilou. Chamou-lhe música alternativa e matou o sentimento de posse que as pessoas tinham face ao rock. Notámos esta quebra quando fizemos nesta época uma digressão nos EUA de seis semanas. Entre 100 bandas só ouvimos duas ou três que valiam alguma coisa ou que não faziam parte da rebelião "pós-rock" contra a popularidade que o rock tinha atingido. Durante esse tempo pensámos sempre que haveríamos de encontrar boas bandas. E tal como os pequenos ratos que começaram a aparecer após a extinção dos dinossauros, essas bandas começaram a emergir desde então. Hoje em dia as coisas estão de facto melhores.

Isto significa que não aprecia a chamada "cena pós-rock" de Chicago?
Prefiro não comentar.

Qual é o objectivo da editora Frenchkiss que vocês criaram?
Queríamos todos fazer uma editora que pudesse albergar bandas de quem nós gostássemos e que tivessem dificuldades em ser aceites naquilo que se tornou a norma punk-rock independente. Existem muito poucas editoras novas empenhadas. Todas as bandas que me inspiraram e fizeram gostar de música vieram de editoras como a velha Sub Pop e a Touch and Go, entre outras. Mas agora, essas editoras já são avózinhas e nós queríamos começar algo dentro do mesmo espírito, mas novo.

Politicamente falando, como uma banda nova-iorquina, qual é a vossa opinião sobre o recente atentado terrorista contra Nova York?
Esta é uma questão complexa. O que aconteceu aqui é irreal e afectou toda a gente. E.B.White, no livro "Here Is New York", explica o fenómeno de como esta cidade consegue absorver tudo. Se aparecerem 50.000 marinheiros para passar um fim-de-semana, como acontece durante a "Fleet Week" (um feriado naval anual), em qualquer outra cidade isso representaria um problema. Em Nova York, a maioria dos habitantes nem sequer notaria a diferença. Acontecem paradas massivas e a maior parte das pessoas não são minimamente afectadas. A capacidade desta cidade é enorme. Muitos acreditavam que nada a podia atordoar. No dia 11 de Setembro, Nova York parecia uma pequena cidade. Todos os habitantes tinham uma única preocupação. O choque, o horror, a raiva, a confusão e a empatia eram palpáveis. Nós gostamos muito de Nova York e consideramo-nos mais uma banda nova-iorquina do que propriamente uma banda americana. Foi em Nova York que nos tornámos aquilo que somos agora. Nova York é a nossa mãe. Testemunhar este acontecimento foi, e é, um pesadelo. Mas três semanas depois, sinto-me orgulhoso em constatar que a cidade está a trabalhar afincadamente para fazer aquilo que melhor sabe: absorver o problema e seguir em frente.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 9)