Entrevistas
LIARS
De Brooklyn Para o Mundo
Os Liars estão na linha frente como representantes do ressurgimento do pós-punk, enquanto o álbum “They Threw Us All in a Trench And Stuck a Monument on Top” é a grande aposta da mítica Blast First em 2002. Vêm de Nova Iorque e são constantemente comparados aos Gang Of Four pela maneira como exploram o ritmo. Angus Andrew, o gigante vocalista de origem australiana falou à Mondo Bizarre.

Nos últimos anos a editora Blast First parecia estar adormecida. Depois de ter mostrado ao mundo, durante a década de oitenta nomes tão importantes como Sonic Youth, Big Black ou Butthole Surfers, a Blast First regressa de uma longa letargia. Os culpados dão pelo nome de Liars e são o mais recente fenómeno nova-iorquino. O seu álbum “They Threw Us All in a Trench And Stuck a Monument on Top”, colocou toda a máquina promocional da Blast First em estado de sítio. Editado originalmente em 2001 por uma pequena editora independente, “They Threw Us All in a Trench And Stuck a Monument on Top” foi agora reeditado à escala mundial depois de em Janeiro deste ano Paul Smith, patrão da Blast First, ter ficado completamente arrebatado ao assistir a um dos concertos que os Liars deram em Nova Iorque. Paul Smith foi mais longe ao comparar a maneira de estar na música dos Liars a algumas das bandas que construíram o catálogo da sua editora. Praticantes de uma sonoridade próxima do pós-punk onde a batida funk controla a maioria dos ritmos, os Liars foram já considerados novos Gang of Four, já que os pontos comuns entre as duas bandas são evidentes. No entanto, tal comparação é de certa maneira redutora, uma vez que, a partir do pós-punk , os Liars disparam em direcção do rock, do dub, do hip hop, com o único objectivo de fazer música que estimule à dança.

“They Threw Us All in a Trench And Stuck a Monument on Top” foi gravado em apenas dois dias mas tem uma grande som. Remisturaram ou remasterizaram o álbum para a reedição da Blast Birst?
Não mexemos na estrutura do disco original. Não queríamos fazer alterações para evitar que as pessoas que já o tinham comprado o álbum o fossem comprar outra vez. O disco tem o mesmo conteúdo. Apenas remasterizamos o som.

O álbum contou com a ajuda de Steve Revitte como produtor. Foi ideia dele gravar tudo em dois dias?
De certo modo sim. O Steve é um grande amigo nosso e já trabalhou com uma série de bandas de que gostamos. Ele mostrou disponível para produzir o nosso disco por um preço muito inferior ao normal. Não tínhamos muito dinheiro, e tivemos que gravar rapidamente. Gastámos cerca de mil e quinhentos dólares na gravação. Já conhecíamos os temas muito o que nos permitiu gravar em pouco tempo. Sentimo-nos muito confortáveis a trabalhar com o Steve. Ele é uma pessoa simpática e o resultado final de um disco, na minha opinião, depende muito do facto de te sentires confortável a gravar, e com ele nós sentimo-nos confortáveis. Obviamente que se tivéssemos mais dinheiro teríamos estado mais tempo em estúdio.

Como foi o processo de gravação?
Foi muito divertido. É uma maneira diferente de nos exprimirmos musicalmente, conseguimos fazer coisas e acrescentar sons que não conseguimos nos concertos. É uma forma diferente de exprimir a música, num meio completamente diferente, porque ouvir um disco é muito diferente de se ver uma banda ao vivo. Tentamos fazer uma abordagem um pouco diferente, e à medida que nos tornamos mais experientes em estúdio tentamos aperfeiçoar essa técnica.

Os Liars têm alguns títulos de canções muito estranhos. De que falam as vossas letras?
As nossas canções abordam essencialmente situações diversas com que nos deparados no dia à dia. Mas em vez de usarmos as palavras de um modo narrativo optamos por as utilizar de uma forma rítmica. Escolhemos palavras que façam lembrar a situação que queremos descrever em vez de recorrermos a frases que transmitem os nossos sentimentos face a essa mesma situação.

O tema “This Dust Makes That Mud” é um longo exercício rítmico hipnótico, sendo de alguma maneira contraditório em relação as outros temas. Concorda?
Sim, concordo. Essa é uma canção que tocamos sempre ao vivo. Gostamos de a tocar no fim porque deixa em aberto todas as possibilidades. As pessoas saem a pensar no que seremos de capazes de fazer a seguir. É também a nossa maneira de mostrar que somos capazes de não nos repetir.

Diz-se que a par do disco iram editar também um EP. Irão incluir já temas novos?
Serão dois temas novos e uma nova versão de um tema do álbum. Os temas novos são um pouco diferentes dos temas do álbum. Reflectem o que temos vindo a ouvir e o modo como absorvemos essas influências.

A zona de Brooklin é bastante conhecida pela sua forte cena hardcore. Nos vossos primeiros tempos tocavam com esse tipo de bandas ou tentaram sempre demarcar-se?
Nós sempre tocamos com uma série de bandas diferentes. Como gostamos sempre de tantas coisas diferentes nunca nos afastamos de nenhum estilo em particular. É interessante quando o cartaz de um concerto oferece uma série de bandas diferentes. Assim não passamos a noite toda a ouvir a mesma música.

Na revista Magnet, fizeram um dossier sobre as nossas bandas pós-punk onde os Liars foram incluídos. Acha que se pode dizer que esse movimento está a ressurgir, ou tudo não passa de uma invenção da imprensa?
Neste momento existem muitas bandas que são influenciadas por aquilo que é considerado pós-punk, mas ao mesmo tempo, se se ouvir todas essas bandas ditas de pós-punk, nota-se que são todas diferentes. Dessa maneira torna-se difícil inclui-las todas dentro de uma só categoria. A ideia, ao reunir-se uma série de bandas dentro de uma categoria, como neste caso do pós-punk, é uma tentativa de mostrar que soam todas ao mesmo, o que me parece ser falso. No entanto esse artigo foi interessante para que a atenção se virasse para uma série de bandas novas que merecem alguma exposição. Por exemplo, as Erase Errata são fantásticas. Nós organizamos um concertos com elas e foram excelentes. Também considero as outras bandas que surgiam no artigo bastante boas. todas boas. Chegámos a tocar com algumas delas como os Seconds ou os Ex-Models...

Nesse artigo mencionam os Gang of Four como referência em relação ao tipo de música que fazem. Serão eles uma das bandas esquecidas dos anos 80?
Nós já não os ouvimos tanto como isso. E não acho que os Gang of Four sejam assim tão esquecidos como isso. Principalmente agora, porque parece que sempre que uma banda dá mais importância ao ritmo é comparada a eles. Os Gang of Four foram uma banda muito importante e se agora as pessoas os estão a redescobrir isso é bom. Diria que se estão a tornar-se populares outra vez.

Depois dos Strokes terem chamado as atenções para Nova Iorque, bandas como Yeah Yeah Yeahs, Mooney Suzuki ou Les Savy Fav começaram a receber uma grande atenção por parte dos media. Como vê toda essa tentativa desesperada de descobrir a “next big thing”?
A realidade é um pouco diferente. As bandas que nos inspiraram, com que somos relacionados, são todas muito diferentes. A ideia do hype é um pouco confusa porque tende a colocar dentro da mesma alçada uma série de bandas diferentes o que acho ser difícil porque todos soamos diferentes uns dos outros. A cena musical de Nova Iorque é formada por tantas bandas e por diferentes estilos que bandas como os ARE Weapons são completamente diferentes de nós e dos nossos amigos. É muito mais difícil de descrever e de explicar do que aparentemente possa parecer.

Mas no meio dessa cena tão grande identificam-se com alguma banda da vossa geração?
Identifico-me com uma série de bandas de Brooklin. Acho que todos sentimos a música da mesma maneira. Ela afecta-nos da mesma maneira, mas não quer dizer que soemos da mesma maneira, o que é óptimo. Por isso bandas como nós, os Oneida ou os Yeah Yeah Yeahs, todos sentimos uma grande paixão em fazer música apesar das nossas estéticas serem diferentes.

Apesar do vosso disco ter acabado de ser reeditado, conseguiram uma certa notoriedade nos media assim que assinaram pela Blast First. Como lidam com toda essa atenção?
É interessante, mas acho que nenhum de nós dá muita importância a esse facto. Continuamos a fazer o que sempre fizemos até termos esta atenção: fazemos música e continuamos a ir aos concertos dos nossos amigos. Não é algo que possamos ter em grande atenção porque acaba por mudar as coisas.

Assinaram pela Blast First por ser uma editora de culto ou pelo facto do Paul Smith ter ficado muito entusiasmado depois de vos ver ao vivo?
Por ambas as razões. Alguns dos discos editados pela Blast First como os de Sun Ra, Sonic Youth, Glenn Branca, estão entre os nossos favoritos. O Paul ficou muito entusiasmado com os Liars e muito empenhado, por isso achamos que seria uma editora que nos permitiria ser livres para mudar e não esperasse que soássemos assim para sempre, e isso é muito importante.

As críticas aos vossos concertos falam sempre de uma performance caótica. De onde vem toda essa energia?
Em geral ficamos muito nervosos antes de tocarmos, e os concertos são uma reacção ao que sentimos. Não é intencional. Não planeamos nada. Podemos ter um concerto absolutamente caótico num dia e no dia seguinte outro muito mais calmo. Depende no nosso estado de espírito no momento.

Nos vossos concertos as pessoas costumam dançar ou limitam-se a fazer pogo?
(risos) Depende de onde tocamos. Nós não queremos forçar as pessoas a dançar ou a mexerem-se. Deve ser uma opção delas. Às vezes quando vejo uma banda de que realmente gosto estou demasiado concentrado no que estou a ver para ter uma reacção mais expansiva.

Também vos consideraram uma das bandas mais trabalhadoras do momento. Acha que todo o esforço que estão fazer é compensatório?
Nós fazemos o que gostamos. Gostamos de tocar ao vivo, gravar discos, e nesse aspecto estamos a ser compensados porque realmente gostamos do que estamos a fazer. O nosso objectivo é continuar a fazer música que achemos entusiasmante. Felizmente estão a acontecer-nos uma série de coisas boas. Tocar com os Sonic Youth é algo fantástico que será muito difícil de ultrapassar. Durante a digressão eles foram sempre muito atenciosos, educados e compreensivos. Foi uma experiência fantástica e é óptimo perceber que continuam a ser pessoas sensíveis ao que se está a passar com bandas pequenas como nós. Isso significa muito para nós.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 12)