LISA GERMANO
SEDE DE CHEGAR A ALGUÉM
É um dos regressos mais esperados. Lisa Germano atirou para trás das costas os tempos difíceis que a obrigaram a abandonar os discos a solo e assina, aos quarenta e cinco anos, uma nova página do seu diário. Chama-se “Lullaby For Liquid Pig”.
Não foi tarefa fácil dar início a esta conversa. Por quatro ou cinco vezes telefonámos para a casa de Lisa Germano e a única coisa que ouvíamos do lado de lá era um assustador diálogo entre duas crianças, próprio de um filme de terror adaptado de Stephen King. Quando, finalmente, o atendedor de chamadas não surgiu, para dar lugar à voz de Lisa, percebeu-se o que era a azáfama da artista em vésperas do início da primeira digressão de apresentação deste seu novo álbum. Uma rotina a que a própria já não estaria talvez habituada desde que, há quatro anos, após o fracasso de vendas de “Slide”, se viu na condição de colocar na prateleira a sua carreira a solo. “Lullaby For Liquid Pig”, o disco que marca este regresso, não é provavelmente um disco para qualquer ouvido, para qualquer disposição, para qualquer altura do dia; no entanto, a inesgotável beleza que o mesmo comporta promete voltar a reacender sentimentos de empatia e paixão junto dos seus fiéis admiradores que já outros trabalhos como “Happiness” ou “Geek The Girl” haviam trazido no passado. Afinal, a autora admite que serão muitos os que não compreenderão o disco, porque “não precisam”. De facto, o que poderá haver assim de tão belo em escutar o pranto de alguém, quando não se sentem como igualmente nossas as histórias que nos são contadas?
Há quatro anos atrás, quando deixou a 4AD, prometeu nunca voltar a gravar um álbum. O que a fez mudar de ideias?
Talvez estivesse de mau humor quando disse isso. (risos) Acontece que comecei a gravar umas coisas em casa e, passados dois anos, achei que estas canções tinham algum valor enquanto conjunto e pareceu-me que isto podia vir a ser um disco. Nem sequer sabia se alguma vez poderia vir a pô-las cá para fora. O que eu tinha feito era a minha parte. E tive sorte, pois veio a sair.
Seria diferente se ainda estivesse dentro do contrato com a 4AD?
Julgo que teria sido um disco diferente, mas não penso que tivesse necessariamente saído mais cedo. Demorei dois anos e meio a escrevê-lo e quando decidi que queria fazer disto um disco, demorou quase um ano para isso vir a acontecer. No meu último disco pela 4AD, ele já estava feito oito meses antes de sair. Por isso não julgo que aí houvesse grande diferença.
Como surge o interesse desta nova editora, a Ineffable?
Quando eu estava a trabalhar na livraria, o Tony Berg [NR: antigo guitarrista de estúdio, produtor e ex-A&R da Virgin e da Geffen], o género de pessoa que toda a gente do meio conhece, costumava lá aparecer, e um dia perguntou-me se eu estava a escrever alguma coisa nova. Eu disse-lhe que sim, mas que não sabia exactamente o quê. E ele mostrou-se interessado em ouvir as minhas coisas. Então, quando decidi fazer disto um disco, quando a composição já estava na fase final, ele foi uma das poucas pessoas a quem mostrei o que tinha feito e adorou. Tive muita sorte, pois eu estava para o colocar na Internet, mas antes lembrei-me de pedir algumas opiniões a pessoas amigas e ele foi uma delas. Compreendeu perfeitamente aquilo de que fala o disco.
Para o seu primeiro álbum criou especialmente para o efeito, a editora Major Bill. Não colocou a hipótese de fazer reviver a Major Bill para este “Lullaby...”?
Isso é o que eu teria feito, se o Tony não pegasse nele. Eu editaria o disco através da Major Bill e este seria enviado através do correio ou da Internet.
O que significa “Lullaby For Liquid Pig”?
Para mim tem a ver com alguém que está muito necessitado de algo. Alguém que está sedento de um líquido qualquer, de água ou também de coisas que estejam para além de si, como precisar-se de uma pessoa em termos excessivos ou precisar-se de álcool em demasia ou estar-se viciado em qualquer coisa. Foi também uma forma de brincar com o meu comportamento para que o pudesse ver à distância.
Tal como o álbum não fala apenas do vício do álcool, mas também de outros vícios.
Sim, é como precisar-se de alguma coisa exageradamente e não se ter suficiente amor-próprio para que se deixe que estas coisas tomem conta de nós próprios. E isto inclui pessoas, inclui amor, inclui os hábitos a que nos entregamos. Não os queremos abandonar. Este disco olha para eles.
“Lullaby For Liquid Pig” abre com as palavras “These are your secrets, hidden inside...” e fecha com “You don’t have to run away”. O problema e provavelmente a sua cura residem no íntimo de cada um de nós?
Sim, é isso mesmo que procuro dizer. Está cá tudo em nós, nas nossas mentes, para que possamos levar uma boa vida e nos possamos sentir bem connosco mesmo. Mas isso dá muito trabalho e nós estamos sempre a fugir à nossa vida e ao que há de especial em nós. Nem toda a gente, mas as pessoas que melhor se identifiquem com este disco perceberão esse tipo de comportamento.
Há uma espécie de terapia de grupo, como a dos Alcoólicos Anónimos, nos seus discos. Por um lado, a Lisa liberta o seu íntimo mais sombrio na esperança de que isso a faça sentir melhor. Por outro, há o público que a ouve e sente, com reconforto, a empatia. Concorda?
Sim, acho que essa é a razão porque faço isto, porque torno públicas estas canções. Muita gente acha que a minha música é demasiado pessoal, mas eu tenho vindo a achar que o ouvinte acaba por a tornar “pessoalmente sua” e é por isso que algumas pessoas sentem uma grande empatia. Quando as pessoas não gostam e não se identificam é porque se calhar não precisam de ser reconfortadas desta forma.
Sendo os seus discos tão pessoais, consegue ouvir os mais antigos e sentir as coisas da mesma forma como na altura em que os escreveu?
Nunca o fiz com muita frequência, mas se fosse ouvir os meus discos mais antigos seria por estar a precisar de alguma ajuda ou precisar de ir ouvir uma canção sobre um determinado assunto. Não há grandes diferenças desde lá para cá. Bom, eu mudei, mas as canções mantêm-se fiéis hoje em relação ao que falavam então.
Nas gravações de “Lullaby...” trabalhou com Neill Finn (ex-Crowded House), Johnny Marr (ex-Smiths), Butch (ex-Eels), Joey Waronker (baterista de Beck) e Sebastian Steinberg (ex-Soul Coughing). Como foi trabalhar com estes nomes?
Parece que eles estão em toda a parte do disco, quando não se tem os “créditos” do disco, mas esta gente fez partes muito pequenas que acrescentaram muito. Mas foram apenas pequenas partes. Quando pus tudo o que fiz no Pró Tools, então comecei a acrescentar os amigos. Não é como se todos tivéssemos trabalhado juntos. O Johnny Marr tem a guitarra dele em duas canções, o Neill Finn numa... São todos amigos meus e todos sabem que a ideia não era tocar em demasia e em toda a parte, porque isso não resultaria e o disco perderia o seu intimismo.
“On The Way Down From Moon Palace”, o primeiro álbum, foi gravado em casa, tal como este “Lullaby…”. Que diferenças houve, a nível de produção, entre ambos?
Eu acho que finalmente aprendi a cantar um pouco... Não gosto da minha voz no primeiro disco. Nunca tinha cantado antes. Acho que percebi o que funciona melhor na minha voz. Mas de resto é muito semelhante. Gosto de experimentar muitas coisas e experimentar as atmosferas que daí nascem. Este foi diferente essencialmente no que diz respeito ao Pro Tools. Permite mudar muita coisa no final.
Começou a tocar violino em criança. Que memórias guarda que acha poderão ter influenciado a sua escrita de canções actual?
Eu costumava escrever canções ao piano quando tinha sete anos. Histórias de príncipes e princesas sentindo saudades uns dos outros, morrendo e ressuscitando depois. (risos) Coisas muito estranhas para uma criança. Já o violino não o relaciono muito com isso.
Teve na adolescência uma banda com os seus cinco irmãos. Algum deles se tornou músico, como a Lisa?
Era uma banda com os meus três irmãos e as minhas duas irmãs. Nenhum deles se tornou músico. Eu fui a única. Por vezes, é bom, mas há alturas em que é mau. Todos eles têm vidas, têm empregos, têm famílias, todas essas coisas. Eu não faço ideia do que vou fazer.
Em 1985, quando John Cougar Mellencamp a convidou para ir tocar com ele, já pensava em ter os seus próprios discos?
Não, eu tinha desistido dessa ideia por completo. Nunca pensei vir a fazê-lo.
Quando começou a pensar que podia ter o seu disco a solo?
Foi quando trabalhei com os Simple Minds, em 1989 ou em 1990, quando voltei daquela digressão, que foi fantástica, mas que me deixou sem saber o que fazer. É tão difícil voltar de digressões e não ter nada para fazer. Não estar a fazer dinheiro, não receber chamadas... Então achei que era tempo de eu própria abanar as coisas. Tinha gostado sempre de fazer a minha música, tinha algum dinheiro nessa altura, e então gastei-o todo a fazer o meu primeiro disco. Demorou bastante tempo, porque eu estava a aprender, mas eu tive que tentar. Se as pessoas não gostassem, se nada funcionasse como se pretendia, pelo menos sabia que tinha tentado.
Sente alguma nostalgia pelas grandes digressões que fazia com o J.C. Mellencamp ou com os Simple Minds?
Eu adoro estas digressões. É muito divertido. Eu acabei agora de fazer uma com o Neil Finn...
Mas o Neil Finn não toca perante plateias de tão grande dimensão.
Ah, mas isso tem pouca relevância para mim. Entre tocar nos sítios que eu toquei sozinha e tocar com os Simple Minds, aí sim, há uma diferença abismal, mas o Neil toca em grandes espaços, na Austrália e na Nova Zelândia.
Foi amigável a saída da 4AD?
Inteiramente amigável. Ainda há coisa de um mês falei ao telefone com o Ivo [Watts-Russell]. Somos grandes amigos.
É público que a saída da 4AD teve a ver com o baixo nível de vendas dos seus discos. Mas, seguramente, a 4AD tem lá artistas a vender ainda menos que a Lisa...
Não há, não. Se haviam, já lá não estão. A Heidi Berry foi despedida, quem mais? Além da Kristin Hersh, quem é que ainda lá está? O mais interessante da editora é que o seu objectivo não era fazer muito dinheiro e, por isso, nos deixavam ser bastante criativos. Mas a partir do momento em que já não havia Pixies, em que os Belly acabaram... A machadada final foi com o fim dos Dead Can Dance. Estas bandas foram aquelas que permitiram trazer à 4AD o dinheiro suficiente para pessoas como eu. E se eles já não fazem discos, a 4AD já não tem o dinheiro que tinha e é tudo muito simples.
O que a levou a tocar com os Eels?
São coisas que acontecem quando vamos conhecendo pessoas ao longo do caminho. Há anos atrás, o E, que ainda nem sequer tinha qualquer contrato assinado, escreveu-me uma carta enquanto fã, onde dizia que gostava do que eu fazia com o John Cougar Mellencamp. E, talvez uns dois ou três anos depois, conheci-o numa festa, tinha ele feito o seu primeiro disco. Veio ter comigo a perguntar se eu me lembrava dele. (risos). Passados mais dois ou três anos, ele telefonou-me a dizer que se eu ia para L.A., ele gostaria de ter a minha participação no seu novo disco. Isso acabou comigo a fazer as primeiras partes dos concertos deles e, mais tarde, a tocar na própria banda.
A única vez que veio tocar a Portugal foi com os Eels...
Sim, eu lembro-me disso. Foi muito divertido. Lembro-me que nos levaram para um restaurante muito bom, com alguém a cantar o... como é que se chama? Fade? Ah, sim, fado. Muito romântico, muito bonito. O concerto também foi divertido.
Participou no próximo álbum dos Eels. Como é que ele está?
Acho que vai ter que ver por si próprio. Eu não acho que o E goste de ter as pessoas a falarem antecipadamente dos seus discos, mas eu adorei, como aliás adoro todos os discos do E.
Em que circunstância conheceu o Howe Gelb e como é que acabou a participar naquele belo disco que é “Slush”, pelos OP8 [Giant Sand + Lisa Germano]?
Eu conheci-os quando vivi em Nova Orleães. O meu namorado, Malcom Burn, estava a produzir um disco para os Giant Sand [N.R.: “Glum” (1994) – Lisa toca violino numa das faixas]. Dois anos mais tarde, o Ivo teve a ideia de juntar pessoas da 4AD com outras e fazer uma série de EPs com isso, e eu telefonei ao Howe a sugerir-lhe que os Giant Sand fossem a minha banda. Começámos a fazê-lo, só que a ideia foi posta de parte pela editora. Mas como tínhamos gostado tanto de termos trabalhado juntos, decidimos ir para a frente e fazermos nós próprios o disco.
Desde lá para cá, já alguma vez falaram entre vós numa segunda experiência com o nome OP8?
Sim, falamos disso provavelmente uma vez por ano. É apenas uma questão de nos juntarmos. Mas agora o Howe está a fazer a sua digressão, os Calexico estão a fazer a deles, eu estou a começar a minha... É muito difícil juntarmo-nos de novo.
E Yann Tiersen, como conheceu o músico bretão?
Ele era meu admirador e pediu ao seu manager para me conhecer num espectáculo dos Eels em que participei. Foi muito engraçado, porque ele não fala muito inglês e eu também muito pouco falo de francês. Então passámos o tempo todo a sorrir um para o outro. (risos) Ele deu-me a entender que gostaria muito de fazer alguma coisa comigo e isso veio a acontecer. Adorei trabalhar com ele. Adoro os discos dele.
Tem tocado ao vivo, para lá das colaborações, isto é, sozinha?
Ocasionalmente dou um concerto ou outro. É uma ajuda quando estou a escrever um disco. Por exemplo, estava a escrever estas canções e não tinha a certeza ainda que gostasse delas. É uma coisa que demora tempo, decidir se é uma boa canção, se não é demasiado pessoal. Por isso vou a um clube aqui e toco algumas destas canções para ver como funcionam.
Sente-se sozinha em palco?
Não, eu gosto de ambas as formas, sozinha ou com banda. O meu problema com a banda é que eu nunca tive muito dinheiro e não posso suportar uma. (risos).
Há pouco tempo atrás, o Howe Gelb dizia-me que ter muitas entrevistas não era problema, pois funcionavam como consultas gratuitas no psicanalista. Passa-se o mesmo consigo?
Por vezes, é! Ter entrevistas ajuda-nos a conhecermo-nos a nós e aos nossos discos melhor, porque temos que explicar as coisas. Foi como quando comecei a fazer entrevistas para este disco, em Dezembro. Acho que pensava que todo o disco era sobre álcool, mas à medida que íamos falando, fui-me apercebendo que aquilo não fazia muito sentido. “Espera lá! Esta canção não é sobre álcool, é sobre comportamentos.” Isso ajudou-me muito a perceber sobre o que falava afinal o meu próprio disco. (risos)
Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 15)
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