Entrevistas
LUNA
Contadores de Histórias
Dean Wearham é uma das figuras mais interessantes do rock independente americano. Na segunda metade da década de 80 fez parte dos Galaxie 500, banda que continua a gerar paixões na comunidade indie, graças aos três álbuns marcantes que editaram. Já nos anos 90, Dean formou os Luna, mestres incontestáveis do “dream pop”, responsáveis por alguma da mais bela música de guitarras alguma vez feita. A propósito de “Romantica”, o óptimo novo álbum dos Luna, falámos com este “histórico” do planeta indie.

"Penthouse" é visto por muitos críticos como a vossa obra prima. Pensa que "Romantica" pode "competir" com esse álbum? Acha que é o vosso melhor disco até à data?
É uma pergunta interessante. O "Penthouse" é um dos meus álbuns favoritos mas o "Bewitched" foi o que atingiu mais popularidade aqui na América. Não sei, estou muito contente com o novo álbum, as canções são boas. Quando editamos um disco novo estamos sempre a competir contra os nossos próprios álbuns, no sentido de fazer cada vez melhor. Quando o "Penthouse" foi editado as críticas não foram muito entusiásticas, por isso é engraçado constatar que alguns anos depois as pessoas o considerem como o nosso melhor álbum.

Olhando para o título do vosso novo álbum, "Romantica", pode dizer-se que o amor é um dos seus assuntos favoritos para escrever canções? Pensa que o que o mundo precisa neste momento é de ouvir um disco sobre o amor?
Isso passa-se na maior parte da pop. É como os álbuns dos Beatles. Não é necessariamente tudo sobre amor, é apenas a maneira como essas canções são escritas, em que abordo as relações entre o homem e a mulher.

Considera-se um romântico?
Nem sei muito bem o que isso significa, mas prefiro dizer que sou um romântico cínico. Acredito no amor da mesma maneira que acredito na música.

As suas letras são muito interessantes. São como polaroids de pequenas coisas do dia-a-dia. Às vezes são um pouco cómicas. Por exemplo, em "Romantica" há curiosas referências a coisas como comida asiática, peixe da Suécia, e mistura esses elementos com o amor. Vai buscar inspiração passeando pelas ruas, observando ou falando com pessoas comuns?
Sim, e ler poesia também. Gosto muito de ler escritores o que é interessante quando se escreve uma canção. Gosto de descrever pequenos detalhes, reais ou não. Por exemplo, a história do "Black Champange" não é uma coisa real, é uma perversão.

A nova baixista, Britta Philips, trouxe uma nova abordagem musical aos Luna?
Não é muito diferente da forma como o Justin tocava ou contribuía para a banda. Tem o mesmo talento musical e também canta muito bem. Ela toca muito bem e ajuda-me bastante nas partes vocais.

Uma das melhores canções de “Romantica”, “Mermaid Eyes”, em que canta em dueto com a Britta lembra-me a pop francesa dos anos 60. Também gravou “Bonnie & Clyde” com a Laetitia Sadier, dos Stereolab. Gosta de música francesa? É uma influência?
Sim. Tenho muitos CD’s interessantes dessa época. Penso que esse período da música francesa é mais interessante do que a música francesa actual. Gosto também de artistas brasileiros ligados ao tropicalismo como Gal Costa, Mutantes e Caetano Veloso.

É engraçado porque, por razões óbvias, a música brasileira é muito popular em Portugal. Agora há muita gente de outros países que está fascinada com artistas brasileiros há muito familiares por aqui...
Eu comecei a descobrir música brasileira em lojas de discos no Japão. Penso que artistas como o Beck ajudaram a popularizar a música brasileira nos Estados Unidos. O que me interessa é ouvir música de todo o mundo: rock, electrónica, embora não conheça muito. Antigamente estávamos limitados a ouvir música anglo-saxónica vinda da América, Canadá ou Austrália. Agora é diferente e de certeza que a música actual mais interessante do mundo não vem das “american indie guitar bands”.

Porque decidiram trabalhar com o Dave Fridmann?
Há algum tempo que queríamos trabalhar com ele. Numa banda é preciso tomar decisões, e neste caso tive de convencer todo o grupo a trabalhar com ele. Durante algum tempo o Sean não queria trabalhar com o Dave, mas como entretanto saiu o "Soft Bulletin" dos Flaming Lips, produzido pelo Dave Fridmann, e todos adorámos o disco, o Sean mudou de opinião. Eu já tinha trabalhado com o Dave em 92 nas demos do "Lunapark". Não o vejo muito porque ele vive em Buffalo e tem medo de Nova Iorque, não gosta muito de cá vir. Normalmente gostamos de trabalhar com pessoas diferentes durante a concepção do disco. Gostamos que a pessoa que grava os temas não seja a mesma que os mistura porque na mistura podem ser acrescentadas outras ideias que beneficiam o resultado final dos temas. Neste disco o Dave fez os arranjos da secção de cordas e acrescentou algumas teclas

O novo álbum tem a produção de Gene Holder dos DB's, que são uma das grandes bandas esquecidas dos anos 80. Era fã deles?
Sim, gosto muito dos DB's. O "Repercussion" é o meu álbum favorito deles. Comprei-o recentemente em Cd, mas ainda tenho a versão original em vinil. Na altura não foram muito populares mas gosto mais deles do que dos R.E.M.

Gostou de trabalhar com ele?
O Gene Holder é excelente. Cada produtor é diferente do outro, tem a sua maneira de trabalhar. Alguns mudam o som porque pensam que o seu trabalho é mudar o som à sua maneira. No caso do Gene, ele gosta da banda, do som, gosta da forma como estruturamos os temas e ele grava tal e qual como as canções nasceram. Deu-nos espaço e permitiu-nos ser nós próprios, o que apreciamos.

O som dos Luna é muito Nova Iorque. A voz, a maneira como as guitarras dialogam. Pensa que os Luna preservam a herança “rough” nova-iorquina de bandas como Velvet Underground ou Television e mantém a tradição viva da mesma maneira que por exemplo o Steve Wynn ou mais recentemente os Strokes fazem?
Estamos todos no mesmo comprimento de onda. Os Dream Syndicate apesar de serem da costa oeste tinham um som semelhante. Eu gosto de todos esses grupos. Gosto do disco dos Strokes, é um exemplo interessante de como algo pode ser original e fresco ao mesmo tempo. Há todo o tipo de bandas em Nova Iorque. Jon Spencer Blues Explosion, Sonic Youth também são muito Nova Iorque, ou os Feelies de New Jersey.

Pensa que as guitarras irão ser sempre cool?
Já não serão uma força dominante como já foram no passado. Já não se devem fabricar tantas guitarras como nos anos 60, agora existem os samplers, os laptops, etc. Nos Estados Unidos a música rock continua a ser maior do que na Europa, bandas como os Wallflowers ou Hootie and The Blowfish que continuam a vender imensos discos. Na Europa os Prodigy ou Moby são grandes mas a América ainda não está preparada para esse tipo de artistas.

Mas pensa que está em curso uma reacção contra o rock mais corporativo, ou ao nu-metal, graças ao sucesso dos White Stripes ou dos Strokes?
Essas bandas fazem o que gostam, não me parece que sejam uma reacção consciente ao nu-metal ou ao que quer que seja. É bom que as pessoas estejam a responder positivamente. Os White Stripes soam a rock clássico, os Strokes nem tanto... Não sei se esta tendência se vai manter ou se irá a algum lado, mas é bom ouvir algumas boas bandas de rock a safarem-se. Talvez seja uma reacção de certo modo. Há um ano atrás, ninguém queria assinar bandas deste género, só havia a Britney Spears e coisas do género, e muita gente queixava-se que era tudo boys bands para adolescentes que dominavam o mainstream. O que se aprende é que as coisas mudam rapidamente.

Os Luna são muito pop, as melodias são polidas e charmosas e há algum psicadelismo, mas na essência, as canções são muito simples. Numa altura em que existe tanta música complicada pensa que a simplicidade é a melhor forma de escrever boas canções?
Para mim é a única maneira de compor, porque eu não tenho/estudei pratica de teoria musical. Podia aprender uma série de acordes bonitos, mas isso não me interessa. As minhas canções limitam-se ao que eu sei fazer. Não estou a dizer que é a única maneira de compor, mas é como me interessa compor. Às vezes as limitações podem tornar as coisas mais interessantes.

Ainda se dá com Damon e Naomi? Conhece os discos deles?
Só falo com eles para discutir negócios. Trocamos e-mails para tratar dessas coisas, mas não somos amigos. Eles não gostam de mim e continuam zangados comigo. Não ouço os discos deles tal como eles não ouvem os meus. Ouvi alguns temas e acho que soam bem, só que não os consigo ouvir objectivamente, porque existem muitas emoções pelo meio. Não ouço um disco cantado por uma pessoa que eu sei que não gosta de mim.

Para tantas bandas indie, os Galaxie 500 foram uma banda muito influente... O que pensa de todo esse culto à volta da banda?
Às vezes conheço pessoas, como o vocalista dos Gorky's Zygotic Mynci, que olharam para nossa música e disseram: se eles conseguem eu também consigo. Na altura não havia muitas bandas a fazer o nosso tipo de som, por isso tivemos oportunidade de nos evidenciar.

Continua a ouvir os discos dos Galaxie 500?
Estou muito orgulhoso desse material. Não os ouço muitas vezes, da mesma maneira que não ouço muito os discos dos Luna. Para mim o melhor disco dos Galaxie 500 é o “Today”, que é o primeiro, e é engraçado porque o gravamos em apenas três dias. Mas essa pode ser uma ideia comum das bandas que acham que o primeiro disco é sempre o melhor, ainda que não sinta o mesmo em relação aos Luna.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 12)