THE MAKERS
ROCK AND ROLL SUPERSTARS
Em 2000 os Makers regressam com “Rock Star God”, um disco conceptual sobre como ser uma estrela rock. De assumidos “Kings of Juvenile Delinquent Trash Rock” até “Rock And Roll Superstars” muito mudou na vida dos makers. Michael Shelley, vocalista e sério concorrente à categoria de músico mais bem vestido do rock, disserta sobre o extravagante mundo dos Makers.
Quando Michael Shelley entra num bar, todos os outros parecem desmazelados e pouco aprumados. Mas ele não faz de propósito. "As pessoas olham para mim e pensam que sou um elitista, mas sou apenas um parvo que gosta de se vestir bem", diz. "Não tenho uma atitude particular em relação à roupa. Faz parte da minha existência diária".
Converso a sós com Michael, pois ele é o único membro dos Makers que não detesta entrevistas. Estamos sentados no Charlie's, na Broadway, num Sábado à tarde. Ele veste um casaco comprido de couro guarnecido a pele, botas de pele de cobra, um cinto de pele de cobra com uma fivela com uma imagem de Jesus e uns enormes óculos escuros redondos. Quando ele entra furtivamente na sala, o velho cavalheiro sentado num banco do balcão quase cai e parte o pescoço. A empregada aproxima-se e, timidamente, pergunta se ele é alguém famoso: "parece-me familiar". Ele responde-lhe que faz parte de uma banda chamada The makers. Ela, obviamente, nunca ouviu falar deles. "Estavamos a discutir quem seria", diz ela. Talvez pensasse que ele era o Prince. De longe, é com quem ele mais se assemelha. Tal como O Artista é elegante e esbelto, ambos são sexual e racialmente ambiguos. É o género de tipo que os outros tipos odeiam, o tipo que "pensa que é incrivelmente cool."
Se não o odiavam, talvez agora, que os Makers assinaram pela SubPop, o odeiem. É um passo que garante às bandas a perda de amigos:"Voçês mudaram, Rock Star". Se isso não vos incomoda talvez a música o faça. Numa década de existência, os Makers passaram de um grupo de garagem directo e retumbante a um grupo de rock'n'soul sofisticado, até chegarem a .... Ziggy Stardust?
O novo álbum "Rock Star God", marca uma mudança monumental. Os membros da banda mudaram de nome para coincidirem com o lançamento. Costumavam chamar-se a eles próprios qualquer-coisa-Maker. Agora seus nomes são: Michael Shelley (voz), Don Virgo (baixo), Jamie Frost (guitara) e Jay Cassady (bateria). Michael, Don e o manager Vic Mostly são irmãos. Mas os pais não se chamam Mostly, Shelley ou Virgo. Vic nem sequer se chama Vic, mas fico-me por aí. O álbum é uma majestosa homenagem a tudo o que é arrogante e flamejante, invocando não só Bowie, mas também os Stones da década de 70, Mott The Hopple, Brit-pop dos anos 60, o funk anterior ao disco, e bandas sonoras de fitas de polícias e ladrões. Meses antes de o CD promocional ser enviado, comecei a ouvir rumores que diziam terem os Makers gravado o seu "Pet Sounds" - yipes! A verdade é ainda mais assustadora - é um disco conceptual. Do tipo mais aterrador: um album conceptual sobre ser uma rock star. É preciso uma enorme dose de coragem para tentar semelhante coisa, e é necessário carisma sobre-humano para levar a coisa avante sem fazer figura de parvo (não que Bowie alguma vez se tenha procupado com isso). "Vimos de um passado muito punk rock, e o punk rock é muito militante e tem que ser de determinada maneira.", diz Michael. "Por isso, quando fazemos qualquer coisa diferente, é muito libertador. O punk rock é, na verdade, sobre fazer-se o que se quer. Se formos fiéis às nossas próprias revoluções, nas nossas vidas, as pessoas que conhecem a nossa música e nos conhecem, entendem."
Revoluções? Ele diz isso mesmo a sério, gente; o universo expande-se. Os primeiros quatro álbuns eram tão ásperos e estridentes que só de pensar neles os meus ouvidos ficavam cheios de zumbidos (o que não quer dizer que não goste deles). O quinto longa duração dos Makers, "Psycopathia Sexualis", era mais calmo e tinha alguns temas muito soul, que até a vossa mãe aprovaria, mas os temas totalmente rock eram na mesma agressivos. Os críticos deliraram, mas perguntaram se os Makers não iriam perder a sua base de fãs de garage rock. Não perderam. Os concertos estavam mais cheios do que nunca e "Psycopathia" tornou-se o disco mais vendido dos Makers até à data.
"Se tivessemos mudado por mudar, se estivessemos a tentar ser o que não somos, então as pessoas tinham-nos abandonado", refere Michael. "Não passavamos no merdoso detector de mentiras".
E isso também é válido para as bandas que estagnam por estagnar. Aquelas que se apegam ao seu som rudimentar, low-fi, muito depois de se terem fartado dele. Nunca aguentei o falso primitivismo. Também não costumo engolir cordas em discos de rock, mas os Makers conseguem levar a coisa adiante, juntamente com teclados (piano e não sintetizador), coros femininos do género "ooo-ooo's", crescendos ruidosos, falar-cantar teatral e uma produção luxuriante, cortesia do guru da pop local, Johnny Sangster. A banda demorou duas semanas a gravar o disco. Uma eternidade na vida dos Makers. "O "Psychopathia Sexualis" foi gravado em quatro dias, e todos os outros discos foram feitos em dois dias". "A maioria das grandes bandas precisa de duas semanas só para se sentir confortável, mas para nós duas semanas é espantoso. Podemos gravar o "White Album" em duas semanas. Quando vamos para estúdio queremos trabalhar, não andamos a divertir-nos". Trabalhar com Johnny Sangster permitiu aos Makers misturarem-se com a velha mafia da pop de Seattle (Johnny tocou em várias bandas desde os anos 80, actualmente toca com os Congratulators; o irmão, Jim, é membro dos Young Fresh Fellows), "foi fantástico, tivemos a colecção de guitarras de Kurt Bloch à nossa disposição". Michael recorda com agrado os Fellows, quando, durante a sua juventude, o vocalista Scott McCaughey o fazia entrar às escondidas em bares para ver a banda tocar. "Ele dizia «carreguem o equipamente e façam de conta que são da banda.» Esses tipos eram os nossos heróis. Essas são as minhas primeiras memórias do rock'n'roll".
Querem os Makers lixados de volta? Michael afirma que a raiva ainda lá está. "Se pensam que a raiva se resume ao quanto mais se grita ou se toca guitarra, estão enganados", explica. "A raiva surge de muitas formas e sons diferentes. Pusemos muito mais sentimento neste disco. Há milhares de sentimentos a colidirem".
Mas se querem sangue, esperem até à próxima digressão. Desde o humilde começo, como Haymakers os elementos da banda sempre arranjaram confusões, ainda que Michael diga que só provoca aqueles que merecem a sua ira. Os Haymakers eram uma intratável banda punk numa cidade cheia de metaleiros de cabelo cortado à cão-de-água. Adoravam espicaçar esses cachoros de cima de um palco. "O problema de Spokane é ser tão perto do Idaho e o Idaho é o seu próprio planeta.", "Spokane apanha imensos pingos do Idaho. E não é um bom sitio para quem não é totalmente branco, não quer practicar desporto ou conduzir uma pick-up."
Rapidamente o grupo encurtou o nome para The Makers e começou a tocar pelo país a bordo da sua carreta Bonneville de 1965. Juntaram-se à Estrus e acabaram por editar cinco álbuns: "Howl", "All-Night Riot", "The Makers" (também conhecido como o disco do dedo), "Hunger" e, em 1998, "Psychopathia Sexualis". Fizeram digressões contínuas e onde quer que fossem o caos seguia-os. Pelo menos se se acreditar nas estórias que se contam. Em Austin, os Makers provocaram um motim por chamarem pequeno ao Texas. "Desde o princípio toda a gente nos avisou para não dizermos nada sobre o Texas, quando lá tocassemos, ou eramos mortos. Por isso, é claro que tivemos que o fazer. Eu diziam coisas tipo «Estamos surprendidos por o Texas ser tão pequeno, e quão moles e sensíveis são os texanos». Sempre a inventar. Precisavamos de lhes fazer explodir os traseiros. Eles não prestam. Detesto o Texas". Num dos festivais Garage Shock, organizados pela Estrus, os Makers atacaram o vocalista de uma banda, cujo nome não foi revelado, que não era capaz de ficar calado. "Um nosso amigo japonês esteve sentado a noite toda, a aturar as parvoices raciais desse tipo, e chegou-se ao ponto em que foi necessário fazer o tipo calar-se. Foi o que fizemos". Em Pittsburgh houve O Incidente da Mostarda. "Foi a primeira vez que fui atacado por mulheres. Foi num restaurante/bar, onde a arrecadação era o camarim, e tinha lá uns enormes tubos de mostarda. Estava a pensar que qualquer banda do planeta quereria atirar essa mostarda em cima da assistência. Surpreendentemente, nunca ninguém o tinha feito. Regressamos para o encore armados de tubos de mostarda de 4,5kg e encharcamos toda a gente com aquilo. A parte feminina da audiência não ficou nada divertida. Todas aquelas raparigas perseguiram-me e tive que me esconder debaixo do palco". Não te estavam a perseguir porque gostam de ti? "Não, dessa vez não! Segundo elas, as raparigas gostam de se vestir bem para assistir aos nossos concertos. Eu desrespeitei isso por completo ao estragar as roupas delas. Disse-lhes que as compensava". E compensas-te? "Bem, não tinha estamina suficiente para compensar todas. Mas fi-lo a cinco ou seis". Michael afirma que a maior parte desses incidentes eram, pelo menos parcialmente, motivados pelo álcool. "Agora está tudo sobre controlo".
As confrontações futuras parecem inevitáveis. Haverá sempre tipos que detestam os Makers por parecerem tão bem. "Não me importa. Provávelmente também me detestava. Ao mesmo tempo, é algo que têm que ultrapassar. Se te sentes ameaçado por mim, talvez devas ir para casa e vestir uma camisa decente.".
Dawn Anderson
Tradução e adaptação Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 3)
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