MANIC STREET PREACHERS
WORKING CLASS HEROES
"Let Robeson Sing", o quarto single extraído de "Know Your Enemy", fala de um americano que se dedicou a causas sociais e cantava canções de protesto. James Dean Bradfield, o vocalista-guitarrista dos Manic Street Preachers, explicou à Mondo Bizarre porque a luta de classes ainda é válida.
Em "Let Robeson Thing ", o novo single, deve ser das primeiras vezes em que dizem bem da América...
Sim, é verdade. "Let Robeson Sing" é uma das nossas canções mais positivas. Neste momento estamos mais preocupados com a luta de classes na Grã-Bretanha, que se está a tornar uma coisa desfasada, do que com os E.U.A.
A luta de classes estar a esbater-se é bom ou mau?
Para a sociedade em geral é bom. Mas para os músicos, ou para nós, não é assim tão bom. Já não há nada concreto contra que lutar. Os Manics começaram durante um período terrível da História recente da Grã-Bretanha: a greve dos mineiros, nos anos 80. Isso era uma coisa concreta contra a qual podiamos lutar e que nos levou a reagir.
Agora tudo é mais diluído e genérico. Há manifestações de protesto contra a globalização, a favor da libertação do Tibete, mas ninguém se parece preocupar com os problemas que tem no quintal.
Tem razão. Actualmente tudo parece ser mais uma questão de moda do que de consciência genuína. A globalização é um assunto tão extenso e tão apelativo, que não há quem fique indiferente. É uma coisa demasiado abrangente e poucos realmente sabem do que se trata. O Tibete parece ser o sintoma mais vísivel do síndrome: "toda a gente encontra o seu lado filantropo a fugir do que se passa no seu próprio quintal e a ser muito humanitário com coisas distantes".
Na altura do lançamento de "Know Your Enemy", Neale Howells, autor da capa do disco, fez um mural para a ocasião, no centro de Cardiff. As autoridades da cidade fizeram com que o mesmo fosse removido por ser obsceno e atentar contar os bons costumes. Vi a pintura e não em pareceu nada obscena, é, em grande parte um trabalho abstracto... Talvez o problema tenha sido o facto de ele usar o seu próprio esperma como matéria prima...
A decisão de remossão do mural partiu da Câmara Municipal de Cardiff e foi uma atitude bastante antiquada. O Neale quando fala de censura, diz sempre que o pior que há a temer, em termos de censura, somos nós próprios. Ele tenta usar tudo aquilo que faz parte do seu dia-à-dia nas suas obras e não deixar nada de fora. Por isso, surgem palavras como "fuck", "shit", etc. E o esperma faz parte do corpo dele. Na verdade não há lá nada assim tão ultrajante. Nem sequer os desenhos de genitália masculina. Nós estavamos fora quando a polémica se instalou e o New Musical Express (NME) pegou no assunto. Ficamos espantados com toda aquela controvérsia.
Os "indie eighties" estão outra vez na moda? No vosso site há uma lista de escolhas feitas a partir da compilação "NME C86" editada, em 1986, pelo NME.
Esse tipo de música não voltou a estar na moda. Durante a promoção do disco anterior, "This Is My Truth Tell Me Yours", todos os dias os jornalistas nos diziam "Agora têm mais de 30 anos. Como se sentem?". Acabou por se tornar cómico, pois eram sempre jornalistas de 40 anos que nos diziam isso. Isso levou-nos a pensar que, sendo assim, mais valia marcarmos expressamente que vinhamos de outra época. Outra das razões porque fizemos isso foi termo-nos dado conta de que muitas dessas bandas dos anos 80, de que gostamos, já não dizem nada a ninguém. Ou seja, somos mesmo velhos.
Então não é por isso que a faixa escondida de "Know Your Enemy" é: "We Are All Bourgeois Now", dos McCarthy, uma quase esquecida banda dos anos 80...
Não. Para mim eles são uma das melhores bandas de sempre e a canção tem uma letra excelente.
E, de certo modo, agora somos todos burgueses. Temos cartões de crédito, empréstimos do banco, carros, casas e nada realmente concreto contra que lutar.
Exactamente. As classes sociais estão esbatidas, pelo menos a nosso ver. Andamos todos a pensar que se chegarmos aos padrões sociais e monetários americanos vamos puder fazer o que quisermos. Não creio que isso seja verdade. É bom encontrar uma banda como eles cujas letras, sem serem estúpidas, fazem sentido e versam sobre valores socias relevantes. Os McCarthy nunca venderam discos. Sempre foram uma banda de culto para meia dúzia de admiradores.
Isso acontece. Há bandas que nunca vendem discos, passam, durante a sua existência quase despercebidas, e anos mais tarde, são redescobertas e tornam-se essenciais.
Sim. Felizmente. É cada vez mais difícil ser-se uma banda de culto. O NME está cada vez está mais afastado desse universo independe-alternativo. Durante longos anos, a par com grupos conhecidos, surgiam muitos outros cujas vendas eram irrisórias. Agora estão essencialmente vocacionados para projectos comerciais.
Mas se assim não fosse, com a dimensão que os Manics atingiram na Grã-Bretanha, já não teriam lugar no NME...
Pois, não. De facto, se o jornal continuasse a ser como nos anos oitenta, início de 90 nós, hoje em dia, não podiamos aparecer na capa. Mas eles deviam ter a preocupação de dosear as coisas. A palavra "seminal" já quase não aparece. Seminal costumava ser sinónimo de "bandeca independende, que vende meia-dúzia de discos mas torna-se uma influência absoluta". Um modelo a seguir. Agora quer dizer: "banda que vende muitos discos" e temos que esperar 20 anos para ver se teve alguma relevância.
Por ora, os Manics são relevantes. Na Grã-Bretanha, até são a banda do povo...
Nunca dissemos isso. A imprensa a partir das tragédias que nos aconteceram, como a morte do nosso manager e o desaparecimento do Richey, fez uma telenovela e começou a dizer que éramos a banda do povo. A justificação era que, toda a gente era capaz de nos compreender, de saber o que sentíamos.
Depois vieram os Brit Awards...
Sim. A banda que venceu na adversidade. (risos) Tretas.
Então, acabaram por se tornar parte da sociedade espectacular, de que o Richey, como grande admirador do Guy Debord que é, tanto falava.
Infelizmente foi o que aconteceu. E não houve nada que pudessemos fazer. Se te tornas, ou te tornam, na banda do povo, vai chegar a uma altura em que te querem enforcar.
Mas não se pode culpar uma banda por atrair mais admiradores.
Não, mas eu entendo isso. Fiz o mesmo às bandas de que gostava e se tornaram populares. É aquela coisa de haver uma pessoas na escola que tem o disco, de repende há dez que também o tem e, depois, já toda a gente conhece a banda. Deixa de ser "o meu grupo favorito" para ser o de toda a gente.
Diz-se que no fim do ano vai haver um disco de "Greatest Hits". Não havia um slogan vosso que dizia: "No Adverts, No Greatest Hits, No Fan Clubs"?
"No Love Songs, No Adverts, No Fan Clubs". Acho que era assim. Não me lembro de "No Greatest-Hits" fazer parte do slogan. Não, não me parece que tenhamos dito que nunca faríamos um Greatest Hits. (risos)
Como queriam vender 16 milhões milhões de discos, é provável que até lá, nada de Greatest Hits...
Ah! Ah! Ah! Nunca venderemos isso. Nunca...
Se tivessem vendido os 16 milhões e acabado, o mais certo era estarem mortos, terem-se tornados totalmente ociosos, drogados...
Pois era. De certeza! Por esta altura andava à procura da inalcançável, ou da perfeita garrafa de whiskey e a deambular por Katmandu ou qualquer coisa absurda do género.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 8)
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