MARK EITZEL
Profeta da Desgraça em Convalescença
A conversa com a força motriz dos defuntos American Music Club (AMC) revelou alguns traços da sua personalidade volátil. Senhor de um discurso descuidado mas incisivo, Mark Eitzel chega a referir-se a si na terceira pessoa, prática frequente nas crianças quando começam a dominar a linguagem falada. Uma entrevista que é um manual de primeiros socorros para os desacreditados de espírito.
MEMÓRIAS
O Mark foi líder dos American Music Club por uma década. Durante este período, houve vários rumores da iminente ruptura da banda. O que o fez pensar que era tempo de dissolver o projecto?
Isso aconteceu por diversas razões, mas foi sobretudo uma questão de dinheiro - não havia dinheiro. Também não concordávamos em nada, acho que foi esse o motivo principal. Não conseguíamos chegar a um acordo sobre se devíamos ou não continuar com o mesmo manager, entre outras coisas.
Uma vez disse que detestava ser “frontman”...
(risos) Sim, não gosto da ideia de ser líder. É óptimo durante algum tempo, mas depois tens que ser muito egotista ou, então, um idiota. E ambos os estatutos são bons. Quando tocas perante uma audiência, precisas de fazer com que as pessoas acreditem que és a melhor coisa que elas alguma vez viram. Eu não consigo fazer isso.
Os sete álbuns que os AMC lançaram combinam música folk com a aspereza do punk e um trabalho lírico profundo e escuro. Como conseguiram isso?
Não sei. Não sei mesmo. (risos) Apenas fizemos o que fizemos, limitámo-nos a tentar fazer aquilo que acabou por ser o resultado.
É legítimo assumir que apenas uma diversidade de influências pode resultar nessa combinação de paisagens sonoras...
Sim, é verdade. Nós sempre gostámos de todos os géneros de música. Nunca pensámos em explorar apenas uma orientação musical. O Danny sempre se debruçou mais sobre a música country, eu estava mais voltado para o punk. Por isso, sim, acabou por ser uma decisão tomada conscientemente trabalharmos diferentes tipos de abordagens.
Mas onde colhe a inspiração?
Não sei. (risos) O Eitzel é um idiota, está sempre a dizer que não sabe. Na realidade, não pensámos muito sobre isso, não havia planos. A maior parte das bandas trabalha um género e limita-se a repeti-lo vezes sem conta. Essas bandas têm apenas uma ideia. Nós tínhamos um turbilhão de ideias. Nunca dissemos “não” a uma ideia - sempre experimentámos tudo.
Foi o caos que esteve na génese da arte, da música?
Foram o caos, a desordem que estiveram na génese da arte e da música e foram também estes factores que nos levaram a separar.
Para os três primeiros álbuns a solo juntaram-se muitas pessoas, como o James McNew (Yo La Tengo), o Steve Shelley (Sonic Youth) e o Peter Buck (R.E.M.). Em “The Invisible Man” preferiu trabalhar sozinho. Qual é a principal diferença?
Há muitas diferenças, mas a principal é a liberdade - tens absoluta liberdade na composição. Quando trabalhei com os AMC para o álbum “Caught in a Trap and I Can’t Back Out ‘Cause I Love You Too Much, Baby”, compus oito canções com eles. E quando eu disse que queria trabalhá-las mais, eu perguntaram-me o que é que eu queria, que as canções estavam perfeitas e que não tínhamos tempo. E quando eu achava que as canções estavam perfeitas, eles entravam em contradição comigo. No fundo, são pessoas que gostam de ter horários, “deadlines”. Eu não me preocupo com isso. Portanto, acho que é, sobretudo, a liberdade. Mas estou novamente a trabalhar com uma banda e isso é óptimo.
A DEVOÇÃO E A EMBRIAGUEZ
Depois de se converter ao Cristianismo enquanto adolescente, rejeitou a religião em favor do álcool...
Sim, como a maior parte dos bons católicos faz... (risos)
Acredita que o álcool influiu no processo criativo de alguns dos seus álbuns?
(risos) Não propriamente. Mas faz-te conhecer certas pessoas em certos lugares... Não te faz sentir nada, mas leva-te a um determinado bar ou qualquer outro sítio e faz-te falar com pessoas estranhas que contam histórias maradas. Mas não acredito que tenha influído no que quer que seja.
Costuma escrever sobre os enjeitados, os rejeitados. Quanto dista a sua lírica da abordagem cristã de que se desviou há alguns anos?
Acho que a sua pergunta deveria ser qualquer coisa como “Fala nas suas letras de rejeitados. No que diferem as suas letras daquilo que é?”. (risos) As minhas letras são integralmente sobre mim. Mas eu não rejeito o Cristianismo. De forma alguma! Continuo a rezar e a acreditar. Mas é que, sobretudo na América, o Cristianismo é também uma forma de fascismo e isso eu rejeito na íntegra. Acho que a religião, de uma forma geral, leva ao World Trade Center, leva as pessoas a julgarem-se Deus. E isso está errado. Até porque Deus está do teu lado, portanto podes fazer aquilo que queres. “Fuck that shit!”…
Também escreve muito sobre a morte. Não será a morte aquilo a que a religião e arte tantas vezes apelam?
Posso explicar o meu afastamento da religião pelo facto de não me satisfazer e parecer-me hipócrita a maior parte das vezes. Especialmente na América. Em Portugal poderá ser diferente. Os cristãos na América constituem uma classe indiferente com muito fraca expressão. Não significam nada e eu não gosto disso. Quanto à morte, penso que se tu não invocas a morte, não estás a ser realista. A morte é a nossa experiência comum e é estúpido não abordares algo que vai acontecer.
PROCESSO CRIATIVO, CARÁCTER E RELAÇÕES
O local a partir do qual escreve muda a sua perspectiva?
Sim, muda de facto a minha perspectiva sobre as coisas. O sítio onde estou a escrever agora é San Francisco e isso altera bastante a minha visão. Pelo menos no meu caso, gosto de pensar que um artista deve manter-se sincero no que faz, deve manter a sua integridade. A primeira lei da comunicação advém do local onde te encontras - é isso que é importante para mim.
As opções que tomou ao longo da sua carreira na música mostram que não receia mudar de posição. Considera perigoso fixar-se a uma determinada ideia?
Bom, se te manténs ligado a um propósito bem determinado, tornas-te bastante bem sucedido porque as pessoas saberão sempre o que esperar de ti. E as pessoas gostam de saber aquilo com que podem contar. Em termos de carreira, é melhor que não mudes de ideias - a isso chama-se “capitalismo”.
Em diferentes ocasiões, foi considerado um dos melhores “songwriters” vivos. Que importância dá a isso?
Se, ao menos, fosse verdade, ia adorar a sensação. (risos) Mas sou muito inconstante, sou cego. Não consigo discernir se o meu material é bom ou mau. Por isso, às vezes, eu realmente não presto. E estou a falar a sério.
E é necessário também que as pessoas comprem os seus discos. Acredita existir uma audiência para a sua música?
Não, nem por isso. Eu gostava muito. Eu esforço-me todos os dias, eu escrevo diariamente. Há alguns dias atrás, estava a escrever uma canção sobre o declínio da América, um assunto muito popular neste país estúpido. (risos) Penso que não há uma audiência. Eu escrevo sobre coisas acerca das quais as pessoas não querem falar. Elas não entendem as minhas letras.
‘To the Sea’ do álbum “The Invisible Man” do ano passado é sobre Jeff Buckley e a sua morte prematura. Por que diz que “a maioria das pessoas rejeita a sua forma de pureza”?
Eu adorava o Jeff Buckley. Não cheguei a conhecê-lo bem, encontrámo-nos poucas vezes. Mas era uma pessoa muito simpática. Eu ouvi uma história sobre a sua morte, escrevi a canção e a família dele não me pareceu importar-se com isso, foi-lhes indiferente. Não posso contar essa história porque envolve pessoas que ainda estão vivas e não queria que elas viessem ter comigo a dizer que souberam que eu tinha falado delas. Não passa de um rumor e eu adoro um bom rumor, mas não neste caso. Talvez esteja errado mas penso que as pessoas não gostam de coisas que requerem uma busca da pureza. E ele não era propriamente puro, era um pedrado. A história era sobre as pessoas que não compreendiam o seu processo, a forma como ele funcionava. E depois o seu próprio conflito interior e o facto de seres tratado como merda porque as pessoas consideram que o teu ponto de vista está errado. Ele estava a ter problemas na composição de um disco e eu acho que sei porquê. E é uma pena porque não era suposto ele ter problemas para gravar um disco... E a história é minha e não dele.
Todas as canções que escreve são histórias verdadeiras. Algumas são, nas suas palavras, sobre as coisas que inspiram a arte, que são o homicídio e a traição...
Devia estar muito embriagado nessa altura. (risos) Mas o conflito é o que está na base da produção artística. Há algum tempo falava com um amigo da costa leste do quanto detestava todos os dispositivos de segurança e ele acusou-me de detestar a América. Disse-lhe que não detestava a América. E ele confessou que detestava San Francisco, que havia muitos sem-abrigo. Portanto, esse amigo disse-me que eu não era patriota e ele detesta os sem-abrigo... Acho que é preciso abraçar o conflito e olhá-lo como algo que não é incomodativo e chega mesmo a ser bonito. Todas as grandes manifestações de arte começam por algo horrível e, se isso não acontece, então é televisão americana. Como o Jerry Springer, aquilo é tão popular porque é sobre o conflito - é a nossa melhor exportação. É o conflito de uma nação de “voyeurs”, de pessoas que querem expor-se de uma forma tão triste, também é um conflito de estados. É tudo o que precisamos de ver.
NOVO ÁLBUM, NOVO PROJECTO
O novo álbum chama-se “Music for Courage and Confidence”. Como surgiu este título?
Por nenhuma razão em particular, retirei-o de uma revista. É um disco de auto-ajuda, achei que era um bom nome para um disco de auto-ajuda. (risos)
É uma colecção de covers que gravou em 1998. Por que é que só agora foi editado?
Porque ninguém o quis editar. E eu precisava de dinheiro para o concluir, precisava de fazer algumas alterações nas vocalizações do disco. Estou muito feliz por ter vindo a ser editado.
O álbum tem arranjos bonitos e a produção parece ter sido cuidada...
Certo, mas não foi premeditado. Acabou por ficar assim. Quando tu colhes a versão original das canções, por exemplo, a primeira (‘Snowbird’), notas todo um conjunto de arranjos e ideias de produção e se lhe retiras tudo isso, percebes que escolheste a canção errada. Talvez ‘Do You Really Want to Hurt Me’ tenha resultado demasiado polida, mas é o reflexo de uma tentativa desesperada de conseguir que as coisas funcionem. (risos) Mas estou orgulhoso, acho que é um bom disco. Há outras versões que gostaria de ter gravado...
Por que é que escolheu estes artistas?
Porque foi divertido. Porque queria fazer algo que as pessoas não esperavam que viesse a fazer. Há muitas canções que adorava ter versionado, como algumas canções de punk rock. Não gosto particularmente dos artistas que escolhi para fazer versões, à excepção do Kristofferson. Gosto do Boy George. Afinal gosto dos artistas. Não sou um grande admirador daquele tipo de música mas gosto dos artistas.
Foi uma forma de tributo a esses artistas?
Sim, acho que sim. Mas eu sou louco. Sento-me a ouvir tudo o que já foi gravado e penso “vamos manter viva a memória”. Não me preocupo com isso. A primeira vez que ouvi ‘More More More’ foi no auto-rádio enquanto conduzia e pensei que era como se Deus fosse realizador de filmes porno. Quando ele canta “more more more / how do you like?”, é como se Deus tivesse criado tudo e fizesse mais, mais e mais. Era esperma - peço desculpa, eu sei que isto é nojento - mas eu não consegui evitar uma gargalhada e foi por isso que gravei essa canção. Quanto a ‘Do You Really Want to Hurt Me’, eu pensei no vídeo dessa música antes de gravar a versão. Pensei no Boy George em cima de um palco com aqueles movimentos do corpo e só pensava em dizer-lhe “sim, claro que quero magoar-te, tenho uma arma apontada na tua direcção.” (risos)
O álbum tem alguns momentos singulares como ‘Snowbird’, ‘Ain’t No Sunshine’ e ‘Gentle on My Mind’, mas tudo o resto foi composto da mesma forma. Há algum sentido de diversidade neste conjunto homogéneo de canções?
Sim, por exemplo os temas ‘Help Me Make it Through the Night’ e ‘Gentle on My Mind’ - um deles é muito triste e o outro não. Acho que são diferentes. O que aconteceu foi que eu estava a trabalhar com músicos em Los Angeles e só tivemos um dia para gravar o disco. O baterista não compareceu aos ensaios, portanto não conhecia os arranjos e eu tive que trabalhar com o que tinha. É um pouco difícil pensar sobre estas coisas porque eu não penso no que faço. Preocupo-me mais com a escrita das canções. ‘Gentle on My Mind’ é uma canção estranha com uma letra muito cuidada, que tenta contar uma história sobre ser-se livre. É sobre o destino de alguém ser o de ficar sozinho e ele ainda ter a ideia absurda de liberdade. As três primeiras linhas da canção do Kristofferson são repulsivas e a quarta (“lay softly against my skin like the shadow against the wall”) é tão má que chega a ser esplêndida e, por isso, tive que gravá-la. Mas, no conjunto, não penso na forma como o álbum vai soar, não penso na sua imagem geral, penso é que quero cantar isto ou aquilo. Eu sou um idiota, devo avisar-vos.
A forma como canta é um modo de falar directamente à alma de quem escuta a música?
Pensei que sim naquela altura. Agora, bom, agora já não penso do mesmo modo. Agora, quero gritar.
Por isso, anunciou recentemente a formação de um colectivo de punk rock, os American Monobrow...
Entretanto, mudámos a designação. Ainda não é definitivo, ainda estamos a tentar arranjar um bom nome. Para já, é qualquer coisa como The Park Street Caverns.
Há planos para a gravação do material em que têm trabalhado?
Sim, assim que a porra do cheque chegar, gravamos. Com toda a certeza.
Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 12)
| | |