THE MARS VOLTA
Declinações Trémulas
Os At the Drive-In (ATDI) diluíram-se e o machado de guerra nem chegou a ser desenterrado. Ao invés de soterrarem as perspectivas de uma progressão na música em contendas estéticas com os restantes elementos, Omar Rodriguez (guitarra) e Cedric Bixler (voz) encabeçaram a força produtiva The Mars Volta. A conversa com Omar confirmou a sua abertura de espírito e os sulcos artísticos da sua personalidade.
Em Novembro de 2000, os ATDI emergiram do circuito indie, sendo descritos como a primeira banda a infiltrar-se desta forma desde os Nirvana. A dissolução foi uma consequência de se tornarem relevantes muito depressa?
Não, de modo nenhum. Não teve nada que ver com isso. A minha decisão de abandonar a banda ficou a dever-se ao facto de todas as relações (o casamento, o namoro ou qualquer outra) constituírem um fenómeno datado, influenciado pelo tempo. E o meu tempo com a banda tinha terminado. Não me sentia capaz de fazer algo de novo ou experimentar novas áreas da música - não me sentia desafiado para isso. Infelizmente, comecei a sentir-me deste modo na altura em que a minha banda estava finalmente a ser vista por muitas pessoas. Já tocávamos e andávamos em digressão há sete anos. A altura foi má, mas eu já não me sentia motivado e isso é que é importante para mim e não tornar-me popular. O que é, de facto, importante para mim é compor música que me faça sentir realizado e me faça perceber que estou a progredir na minha vida. E eu sentia que estava a estagnar.
Como surgiu a designação The Mars Volta?
Retirei a palavra “volta” de uma biografia do realizador de cinema Fellini. Era uma palavra que ele usava frequentemente para descrever os seus filmes. Pensámos que era uma palavra interessante. E, claro, também sentimos um enorme fascínio pelas noções de espaço, mitologia e do planeta Marte (“mars”).
O projecto The Mars Volta é um desvio da abordagem pesada dos ATDI. No EP “Tremulant” notam-se inscrições rítmicas, de groove e algum beat. Sentiam que as vossas potencialidades não estavam a ser correctamente utilizadas nos ATDI?
Definitivamente. E, em parte, foi isso que me levou a deixar a banda. Depois de sete anos, percebi que os temas que compúnhamos estavam a ser interpretados sempre da mesma forma. E eu sempre acreditei que poderíamos fazer ritmos dançantes, com groove e, ainda assim, ser rock’n’roll. Eu sou porto-riquenho e as minhas maiores influências, a minha cultura, relacionam-se muito com ritmos e dança, que é algo que sempre quis incorporar na minha música. Isso ocorria nos ATDI apenas subtilmente, enquanto que nos Mars Volta essas tendências são exploradas de uma forma mais abrangente em virtude dos elementos envolvidos.
Enquanto isso, os Sparta, a outra banda resultante dos ATDI, prosseguem numa abordagem rock. O que pensa do trabalho deles?
Para ser honesto, não sou grande admirador deles porque foi precisamente disso que eu quis desviar-me. Feito o balanço, o desmembramento da banda não foi uma decisão deles. A banda terminou porque nós deixámos a banda. Para mim, os Sparta soam a música datada, não encontro nada de excitante naquilo. Mas eu amo aquela gente, fizeram parte da minha família durante anos. Compreendo que eles não estivessem a precisar de algo mais e, portanto, a música que fazem agora é uma representação do que fazíamos.
Considera que uma aproximação mais experimental é o futuro do rock’n’roll?
Definitivamente. É a única forma do rock’n’roll e doutro tipo de música viver e respirar. E o que gostamos no rock’n’roll é a sua vertente subversiva, como na altura em que surgiu. E se impomos regras e limitações, esvaziamos o rock, retiramos-lhe tudo. No início, as pessoas consideravam ultrajante que o Elvis movesse as ancas daquela forma, depois a rebelião do punk - tudo foi uma contínua fracturação de regras.
De onde vem a inspiração para editar um disco espacial e etéreo?
Penso que vem do facto de escutarmos todas as formas de música. Não conheço muitas pessoas que, por estarem numa banda rock, só ouçam esse tipo de música ou garage dos 70s. É muito aborrecido e limitativo. Há muito mais vida para além disso e muitos outros eventos a ocorrer pelo mundo. Colhemos as nossas influências em Fellini, em revolucionários, na música salsa, dub, country ou vietnamita e amplificamos tudo isso. Os Sparta aproximam-se da música pop e compreendemos de onde vem essa abordagem. Ao ouvirmos The Mars Volta notamos uma série de paisagens e diferentes tonalidades do som. E era isso que os ATDI eram, a combinação de ambos os quadrantes que, agora, são dois projectos em separado.
Uma das faixas do EP “Tremulant” (‘Concertina’) tem algumas frases em castelhano. O mesmo acontecia com os títulos de alguns álbuns dos ATDI. Porquê?
A nossa cultura é o mais importante para mim, é parte da nossa experiência enquanto seres humanos neste planeta. Relaciona-se com a nossa proveniência, a forma como nos relacionamos com outras pessoas, a forma como a nossa mente trabalha. Seres hispânico, seres estrangeiro e mudares-te para este país é como se te tivessem tirado algo. Tens de aprender inglês, é suposto pensares de um certo modo e é suposto seres americanizado. Mas foi sempre importante para mim ter a minha cultura representada na minha arte porque é isso que eu efectivamente sou. Portanto, sempre foi crucial termos o nosso idioma reflectido na nossa música.
Alguma vez sentiu a responsabilidade social de usar a música como um veículo para passar uma mensagem?
Sim e não. Talvez a um nível abstracto. Não veiculamos uma mensagem directamente a partir do que dizemos. Não afirmamos “isto é bom e aquilo é mau”. Mas, ao mesmo tempo, veiculamos uma certa mensagem pela forma como nos comportamos, pelas opções que tomamos e pelo modo como decidimos tocar. Não é algo directo, são antes subtilezas, mensagens veladas. Não fazemos juízos, apresentamos apenas o resultado da nossa observação, a nossa interpretação do que acontece.
Tem planos para a edição do material audiovisual em que tem trabalhado?
Sim, estou muito interessado em editar as curtas-metragens que tenho produzido para a minha editora. Planeio lançar esse material quando for a altura devida e quando não me sentir tão envergonhado.
Para além dos Mars Volta, de alguns projectos paralelos, como os De Facto, e do interesse pelo cinema, que outras áreas artísticas explora?
Estou interessado em tudo, basicamente. Estou interessado em tudo que seja vida. Pinto bastante, também escrevo muito. Gosto de ver modelos antigos de carros e edifícios.
Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 12)
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