THE MARS VOLTA
INICIAÇÃO POST-MORTEM
Em 1996, Julio Venegas, um artista de El Paso, interrompe a linha da vida ao mergulhar num coma profundo. Quando acorda, suicida-se. “De-Loused In The Comatorium” é a sua biografia em registo de ficção. A 4 de Dezembro próximo, no Paradise Garage, em Lisboa, Omar Rodriguez e Cedric Bixler atestam que há vida depois dos At The Drive-In. O segundo em entrevista.
Depois dos At The Drive-In terem mostrado El Paso ao mundo, implodiram em estado de graça. “Relationship Of Command” de 2000 foi o canto do cisne. Pouco tempo depois, a metade afro do colectivo junta-se para formar os Mars Volta. O painel de sensibilidades abordadas alarga-se para incluir elementos psicadélicos, resíduos de hardcore e pequenas anotações jazzísticas. A lógica é fugir às tendências mercantilistas e privilegiar o produto final, deixar de lado a facção emo, estética que vinha a assumir proporções comercialóides. Em última análise, trata-se de resgatar a arte. Ikey Owens, dos Long Beach Dub All-Stars, e o saudoso Jeremy Ward cumpriam esses propósitos e integravam o projecto paralelo De Facto. Sai o EP “Tremulant” no ano passado. Contendo apenas três amostras, os Mars Volta são acariciados pela crítica que saliva por material novo. Segue-se um período difícil para a banda, em que um membro é deposto. Ainda este ano é editado “De-Loused In The Comatorium”, primeiro trabalho de longa duração.
Depois da edição de “Tremulant”, os Mars Volta receberam muita notoriedade com muito pouco material editado. Por que acha que isso aconteceu?
Provavelmente por causa da nossa banda anterior. As pessoas estavam curiosas quanto ao que iria acontecer. Talvez tenha sido esse o motivo de toda a atenção que estávamos a ter.
Sempre que penso em El Paso, imagino uma cultura hispânica muito arreigada dentro de um western, onde se pode sentir o cheiro do medo e da pólvora nas ruas. Como é ser natural de El Paso?
(risos) Sim, essa descrição é apropriada. É um spaghetti western dos tempos modernos com automóveis, indústrias e casebres na cidade. Nascer e viver em El Paso dá-nos uma perspectiva diferente de qualquer outra cidade Costa Ocidental. Há muita loucura a acontecer por lá. Acho que posso dizer que é, ao mesmo tempo, um subúrbio e uma zona central.
“De-Loused In The Comatorium” presta homenagem a um amigo de infância. Como surgiu a ideia deste tributo?
A ideia veio do tema ‘Concertina’ do EP “Tremulant”, que é sobre ele. Pensámos que, uma vez que muita da sua arte e da sua música se encontram dispersas, era bom termos todo um álbum sobre ele. É um presente para esse amigo.
Quando se está em coma, faz-se uma viagem psicadélica e, normalmente, acorda-se mais agarrado à vida, mas esse vosso amigo escolheu morrer…
Sim. Mas isso é também parte da história ficcionada, de eu ficcionar o que realmente se passou. Na vida real, não foi bem assim. Na vida real, as coisas agravaram-se de tal forma que se tornou duro suportar a situação. Acho que ele teve muito azar. Muitos artistas profícuos, como Edgar Allan Poe, Van Gogh ou mesmo Dali, clamaram por misericórdia. Tal como estes artistas, ele passou por situações muito complicadas, tendo que lidar com uma imensa dor, mas também criou muita arte bela a partir disso. Eu ficcionei que ele tinha acordado do coma e tinha passado alguns anos a desejar morrer. Não acredito que ele quisesse morrer, mas, a dada altura, penso que ele não tinha outra opção, não parecia que ele tivesse algo a que se agarrar.
Nas semanas que antecederam a edição deste álbum, um outro amigo, Jeremy Ward, perdeu a vida. De que forma ele contribuiu para o disco?
Ele escreveu muitas das passagens da história. A história ainda não saiu porque demorou algum tempo para que se imprimisse o livrete que continha a história, por isso só agora é que está pronta. Era para sair com a edição do disco em vinil. A verdade é que ele criou muitas das personagens e dos locais. O local onde se passa a canção ‘Eriatarka’ foi ele que o concebeu. Isso e nomes de personagens, de algumas passagens e expressões da história. O seu toque na música compara-se ao de Brian Eno, que faz tratamentos no produto acabado. O que ele deu foi um toque subtil mas que se revelou de grande importância.
Quem irá substitui-lo nas funções que desempenhava dentro e fora dos Mars Volta?
Não sei, ainda estamos a tentar descobrir isso. Não acho que alguém vá necessariamente substitui-lo, mas temos de encontrar alguém que consiga fazer algo dentro desses parâmetros. O que é importante no estádio em que nos encontramos é que recorremos a muitos efeitos. Para nós, muitas vezes, a música é um pouco aborrecida quando é demasiado vazia. Por exemplo, o “Let It Be” acabou de ser editado sem o toque do Phil Spector, numa versão despida. Acho que isso é bom, mas gosto de ouvir música que me possa transportar para outro lugar na minha mente. É por isso que gosto de música dub e de muita música psicadélica. É o que a tecnologia pode fazer por ti. É usar drogas sem usar drogas – a tecnologia é uma droga. Gosto quando há muito reverb e muito delay e coisas desse tipo. Não acredito que alguém possa verdadeiramente ocupar o lugar dele, o Jeremy estava no nosso comprimento de onda. Se encontrarmos alguém que esteja inclinado para formas de saturação sonora e paredes de som, talvez essa seja a pessoa certa.
O que é que ele fazia enquanto membro secreto?
O instrumento que ele usava era um pedal muito largo com uma superfície que se pode tocar, um dispositivo capaz de criar momentos de caos. Tem uma série de botões programáveis que permitem regular se o delay segue com maior ou menor velocidade ou se se vai extinguindo. Consegue-se produzir muitos sons estranhos ao tocar a tal superfície e a fazer deslizar os dedos ao longo da mesma. É como pintar, em que também se utiliza os dedos, somente o resultado não é uma pintura mas som. Ele usava dois “chaos pads”, toneladas de diferentes delays, vocoders, analisadores de frequência, e manipulava o som que saía do PA. Nós não conseguíamos ouvir o que ele estava a fazer do local onde nos encontrávamos. É como música dub ou música de DJ. É como se ele estivesse a remisturar-nos ao vivo. O que fazíamos em palco era orgânico, e ele fazia o que o Brian Eno costumava fazer com os Roxy Music ou o que se pode ouvir em certos álbuns dos Genesis. Ele afectava o som depois deste estar captado. E também costumava escrever muitas ideias e muitas letras.
Como estão as coisas com os De Facto, onde o Jeremy também entrava?
Decidimos deixar de tocar ao vivo e vamos fazer apenas trabalho de estúdio. Precisávamos de um novo vocalista e não acho que alguém possa ocupar o lugar do Jeremy. Só raramente tocávamos em Los Angeles, tocámos muito na Europa enquanto De Facto. Parece que os europeus, ou qualquer outra parte do mundo que não os Estados Unidos, estão mais abertos a música dub tocada ao vivo. Porque duas das pessoas da formação vinham dos At The Drive-In, muita gente nos Estados Unidos esperava uma actuação de rock pesado. Então vão ver-te, não percebem o que se passa e não gostam de ti. Os Estados Unidos são muito fechados no que diz respeito à expressão artística. Não entendem certas linguagens e, quando entendem, já se passaram cinco anos desde que o álbum saiu.
Os Mars Volta iniciaram as gravações do disco no que o Omar descreveu como uma casa assombrada com uma forte presença. Pode descrever o local?
Há três locais em Laurel Canyon, incluindo essa casa, no cruzamento entre a Look Out Mountain e Laurel Canyon St. Dessa casa vê-se a casa de Houdini e, ao lado, encontra-se a antiga casa de Frank Zappa. Há a casa da mulher de Houdini, que foi um presente para ela, e foi nessa que nós gravámos. Paredes-meias com a casa de Frank Zappa há um túnel que liga à casa de Houdini. Quando ele morreu, criou-se uma tradição relacionada com o Halloween. Nós estávamos lá por essa altura e foi um bocado sinistro. É uma casa muito ampla e branca, contando uns oito quartos, no total, para não falar da cave. Há muito espaço de floresta lá fora e veados a caminhar. Fica muito próxima da estrada mas é uma mansão gigante que te afasta de tudo. Tem muita história: os Beatles, os Zeppelin, penso que qualquer pessoa envolvida na história da música rock dos anos 70 esteve lá.
Como conheceram o John Frusciante, que toca em “Cicatriz ESP’?
Acho que o conhecemos quando abrimos para ele enquanto De Facto. Ele saiu do avião, o Omar e ele estavam a falar até que o Omar sugeriu que ouvissem uma canção e tocassem para ver no que dava. Foi o que aconteceu.
Há uma conotação cinemática no grafismo do álbum (e na música) com aquele crânio dourado a emitir um feixe de luz a partir da boca. Quem o concebeu?
Storm Thorgerson, que também desenhou “Houses Of The Holy” [dos Led Zeppelin] e “Dark Side Of The Moon” [dos Pink Floyd]. Ele fazia parte de uma equipa [de design] chamada Hipgnosis, penso eu. O cinema é, provavelmente, a nossa influência mais forte, é a forma como olhamos para a nossa música. Olhamo-la como se estivesse integrada num filme, do ponto de vista das personagens e do guião. É uma presença mais forte do que a música moderna. Muita da música que se ouve é extremamente datada, mas há ainda alguma música moderna que ouvimos: dos Locust aos Lightning Bolt, da Cat Power às Le Tigre e Björk, e há também muita música antiga dos 70s. Mas, visualmente, as nossas maiores influências são Luis Buñuel, Stanley Kubrick, Alexandro Jodorowsky, pessoas como o Lenny Bruce e o Andy Kauffman também. Pessoas que, de alguma forma, reinventaram a linguagem como uma arma ou a comédia.
O vídeo de “Inertiatic ESP” está disponível em www.themarsvolta.com. O que significa a sigla?
Significa “Ectopic Shapeshifting Penance”. Faz parte da história, é o processo através do qual a personagem principal se transforma numa outra, diferente em cada tema. Cada tema é uma pequena história que se liga a uma história principal. Então, a personagem viaja de um local para outro por metamorfose do ectoplasma, envolvendo coisas sobrenaturais, capacidades, fantasmas… O processo de transformação é uma forma de penitência (penance) porque ele se mata, depois de ter sido tentado por um grupo de leprosos que o supervisionam e tentam mostrar-lhe como seria a vida se ele morresse. A sua arte tenta seduzi-lo e fazer com que se mate a si próprio, porque o grupo precisa de um líder.
Há alguma intenção política ao apresentarem um pedaço de escrita islâmica no vídeo?
Não, nem por isso. Somos contra o Bush e o seu regime, mas o vídeo é como um álbum de recordações do último ano, dos locais por que passámos, das coisas que vimos. Acho a escrita islâmica bonita. Por vezes, há reacções na América de que pode tratar-se de uma coisa má. Penso que a América é muito ingénua e demasiado jovem, sem vontade de aprender sobre novas culturas e nações.
Até onde iriam para não comprometer a vossa arte (desde os At The Drive-In)?
Penso que já comprometemos muita coisa: trabalhar com o Rick Rubin foi uma cedência. Cedemos para ver o que iria resultar daí. Aprendemos com os At The Drive-In que, quando cedes muito e em muitas áreas, a tua arte sai prejudicada. Cedemos na duração deste álbum e até ao gravarmos um vídeo. Jogar a partida das multinacionais, com a Universal é também uma cedência, mas deixa de o ser ao conseguirmos ter canções neste álbum com doze minutos de duração. No futuro, acho que as cedências não serão a melhor forma de ilustrar o que fazemos, penso tratar-se mais de colaborações.
Como conseguem manter uma dieta vegetariana quando estão em digressão?
(risos) Às vezes, é difícil, porque também somos “vegan”, o que torna tudo ainda mais restrito. Temos que pedir às pessoas ou confiar em certos locais onde servem comida vegetariana, pedir para não porem queijo na comida... E isso é difícil, sobretudo em países como a França.
Ainda se sentem desconfortáveis com o “moshing” e o “crowd-surfing” do público enquanto tocam?
Sim, por vezes. Há situações de disforia na nossa música mas outras que crescem até ao clímax. Quando as pessoas fecham os olhos para sentir a música, não é divertido quando alguém cai sobre elas. A maior parte das vezes, eu não digo nada porque é uma luta inútil e ficas a parecer um pai. Noutras, peço para não o fazerem, mas acaba sempre por acontecer. Talvez no futuro a nossa música evoque mais dança e menos comportamentos desses.
Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 17)
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