Entrevistas
MATMOS
MICROGRAFIAS SÓNICAS
Meticulosos, cirúrgicos, complexos, historiadores, fantasistas, cerebrais, brincalhões, sombrios, rigorosos, desviantes, académicos, repentistas e tudo menos puristas. No confronto destes adjectivos e designações podem surgir contradições lógicas, mas quando falamos de (An)Drew Daniel e Martin C. Schmidt, o casal de californianos que no campo artístico e musical se tornou conhecido pelo nome de Matmos, essas mesmas contradições revelam-se proveitosas, conforme se pode ouvir em “The Civil War”, o novo álbum.

Com tantos alt-rockers a usarem e abusarem da electrónica, é justo que os Matmos possam também pisar os terrenos da folk e da música popular americana e europeia, como acontece em “The Civil War”, onde a dupla agrega noções e ideias soltas no tempo sem qualquer espécie de pudor. Se em “A Chance To Cut Is A Chance to Cure” tinham surpreendido com o aproveitamento de sons captados em salas de cirurgia hospitalar, voltam agora a pintar a manta com esta aproximação, em termos de fontes sonoras, a instrumentos acústicos, da sanfona à guitarra acústica, mantendo o habitual jogo de minuciosas disparidades, uma imagem de marca que vem desde os primeiros discos. Estiveram por cá há pouco tempo, integrados na “entourage” da islandesa Björk, por altura do Festival do Meco, e ficaram apaixonados pela Quinta da Regaleira, em Sintra, prometendo por isso voltar em breve, quem sabe se adicionando Lisboa à lista de cidades por onde vão passar na próxima digressão europeia.

Relativamente às palavras que se seguem, os Matmos são o tipo de pessoas que um entrevistador pouco preparado (falta de tempo, não falta de interesse) gosta de encontrar, mesmo quando estes brincam com ele, como no caso da primeira pergunta. Falam como se fosse a única entrevista em toda a sua carreira. O hábito de falarem sempre os dois nas entrevistas, mesmo quando estas se realizam via telefone, leva a que se complementem um ao outro nas respostas, numa conversa que se prolonga e quase deixa o entrevistador no lugar de moderador.

Qual o contexto por trás de “The Civil War”?
Martin C. Schmidt – Em primeiro lugar, “The Civil War” não é na verdade um álbum conceptual. Honestamente, o conceito para o nosso novo disco que devia sair por estas alturas, era todo relacionado com pianos. Fizemos grandes planos para um disco assim. Comprámos um grande piano, livrámo-nos da cama e dormimos agora no chão. (risos) Levámos o piano para o deserto e fizemos uma espécie de performance com ele. Fizemos uma série de canções só com pianos e outras sem pianos. Fizemos tantas canções que dava para dois ou três discos, de tal forma que chegámos a um ponto em que achámos que não iríamos conseguir acabar um disco sobre pianos. Decidimos então reunir todas as canções que não tinham a ver com piano e, depois de andar com elas para trás e para a frente, olhámos e dissemos: a guerra civil!

Drew Daniel – Bom, eu não disse nada. A ideia foi dele. Ele é que deu o nome a “The West” [álbum de 1999].

MS – Eu gosto destes nomes longos, grandes, gigantescos: “Theee West”, “Theee Civil War”, “Theee World”. (risos)

DD – Isto é o que gostamos de dizer nas entrevistas, para confundir as pessoas. (risos) Mas temos de dizer a verdade.

MS – Foi mais uma visão do que um conceito, na verdade. Existe uma linha coerente. Queríamos criar algo de histórico mas também desconcertante. Que fosse histórico mas não autêntico. Como se fosse o manifesto acerca de um período – seja a Idade Média ou o séc. XIX – sem pretender ser um épico.

É por isso que se podem ouvir tanto os sons de instrumentos do século XVIII como os de teclados analógicos de há trinta anos?
DD – Exacto. Nós adoramos esses sons, como sons que são, mas eles também têm significados interessantes que se multiplicam quando são colocados ao lado uns dos outros. A nós soa-nos mais apelativo termos mais do que uma referência. Acabam por ser muitos planos históricos, colocados uns em cima dos outros. Quando estivemos em digressão com a Björk, fomos a uma casa de ópera em Verona. Tínhamos então este edifício romano, cheio de cenários evocativos do Antigo Egipto – estava lá “Aida” –, e nós no meio de uma ‘piazza’ de estilo oitocentista. Era cómico pensar que estávamos no meio de três épocas diferentes. Acho experiências como estas muito inspiradoras. A História para nós, americanos, é como se fosse um parque de diversões, como a Disneyland.

MS – Existe esta tendência para procurarmos rodear-nos de História, porque não a temos. A Califórnia foi quase construída por inteiro nos anos 60.

E por não terem esse background histórico, não conseguem tão facilmente relativizar a História nas suas mais diversas etapas?
MS – Sim. Enquanto em Lisboa tens um castelo mouro, uma praça do século XVIII e uma área olímpica super-moderna [N.R. é um exemplo pouco rigoroso, mas aceitemo-lo, a bem do raciocínio], nós não temos esses modelos de referência. Apenas temos os anos 70, os anos 70, os anos 70. (risos) A Califórnia estava praticamente vazia até que as pessoas começaram a imigrar para cá aos milhões, a partir dos anos 50. Detesto a ideia de poder conduzir alguém a equívocos quando falamos da Disneyland a propósito do nosso disco (risos), mas existe essa ideia de criar história artificial. Bom, talvez não seja um comentário muito bom em relação ao disco... (risos)

Frequentemente, quando alguém na área da electrónica procura enquadrar no seu trabalho elementos de músicas do passado ou da folk, o resultado acaba por ser um tanto ou quanto bacoco. Tinham esse receio?
MS – O importante para nós é que, mesmo que estivéssemos a usar instrumentos do passado, abordámo-los como se de objectos se tratassem. Procurámos fazê-los soar de uma forma que não tivesse necessariamente que ver com a forma tradicional de os tocar. E quando quisemos que alguém tocasse algo de uma forma mais correcta, não fomos nós que o fizemos. Convidámos, por exemplo, o Mark Lightcap, que toca muito bem guitarra. Tivemos duas maneiras, portanto, de abordar a música. Uma pela via da inocência e da ignorância e outra pela do conhecimento. Acho que as duas camadas combinam bem. Muitos artistas da electrónica que usam instrumentos tradicionais, colocam-nos apenas como cobertura açucarada, que pode ser uma melodia. Não gosto tanto disso. No nosso caso, assumimos um risco, já que há um sentimento muito mais melódico no disco, e eu receio que estejamos a deslizar para o tipo de prazeres naïf que eu não gosto na música de outras pessoas.

Gravaram a partir de instrumentos reais?
DD – O Martin tocou a sanfona e foi assim que compusemos o tema “ZOCK.”. Sentou-se a tocá-la e saiu aquele riff. Somos quase como uma banda rock na maneira de compor temas. O Martin não sabe tocar sanfona mas limitou-se a carregar em alguns botões e a partir daí fizemos o ritmo. Isto vai soar demasiado pretensioso, mas houve quem comparasse esta abordagem com a dos cubistas, por causa de estarmos a ver um objecto a partir de vários ângulos ao mesmo tempo. Tem-se a sanfona a tocar, com os seus drones, e esta caixa de madeira que pode também ser tocada, tamborilada, etc. É um estudo do que esse objecto permite quer enquanto instrumento, quer enquanto matéria.

Os Matmos acabam por pisar outros territórios musicais. Houve uma revista que negou fazer uma crítica ao disco por causa de um solo de guitarra. Por outro lado, quando tocam os instrumentos tradicionais fazem-no de uma forma que não agradará aos puristas da folk...
MS – Eu reservo-me o direito de fazer o que bem entender. As pessoas são livres para não gostar.

DD – São livres de não comprar os nossos discos. (risos)

MS – Não me sinto preso a estruturas. Não temos um manifesto em relação ao qual prestemos juramento.

DD – Não somos puristas.

MS – Eu tenho muito interesse pela música electrónica e tenciono fazer mais música electrónica, sem incluir guitarras acústicas. (risos) Mas gostaria que as pessoas que pensam que só gostam de electrónica dessem alguma hipótese a outras músicas.

DD – No disco anterior, por causa das fontes sonoras usadas – havia cirurgias, havia cortes, havia sangue – era importante que tivéssemos um contrapeso. E nesse disco, o contrapeso foi a house. Música de dança. Era importante fazer esse contrapeso, mas penso que enganou muita gente, que ficou a pensar que os Matmos se tinham virado para a música de dança. A indústria musical gosta de nos colocar numa caixa. Perguntam-nos se somos electrónica, se somos indie rock, se somos uma noise band. Nós não somos nada disso.

MS – Li uma crítica negativa a este disco em que o argumento era: “Eu não sei o que se supõe que eu pense sobre o que é este disco.” Ele estava zangado porque não conseguia saber em que secção da revista colocar o disco. É hilariante. (risos)

Colocaram no vosso website uma espécie de manual de instruções para este disco. Têm receio de serem mal interpretados?
MS – As pessoas são livres de retirarem o significado que entenderem. Há uma razão para que tenhamos colocado isso on-line apenas algum tempo depois do álbum estar já disponível. Quero que as pessoas tenham a experiência de ouvir aquilo de acordo com os seus próprios termos. Mas se elas são curiosas o suficiente para irem ao nosso website, isso provavelmente significa que elas estão também interessadas em saber o que nós pensamos. E é também uma forma de darmos crédito a coisas como os nomes das canções.

Quando compõem para a Björk, que diferenças existem desse processo para o dos Matmos?
DD – De certa forma, isso não aconteceu. Eu não nos vejo numa situação em que estejamos todos envolvidos a escrever uma canção. A Björk é uma compositora por excelência. Ela pensa de forma melódica.

Numa entrevista anterior, vocês falavam-me de “pistas emocionais” que ela transmitia até pela sua forma de falar muito própria.
DD – Sim, isso não mudou. Nós acabamos por estar lá mais para reforçar algo que já existe e que é muito forte. Somos mais uma ferramenta no equipamento da Björk. Somos um casal de ferramentas. (risos) A Björk não precisa de nós, mas há coisas interessantes que podem acontecer quando estamos lá e reflectimos acerca de algo em que ela já está a tentar fazer. Nós estivemos durante três semanas em estúdio a trabalhar no novo disco [ o novo álbum de Björk, sucessor de “Vespertine”, com saída possível para inícios de 2004] e aí passou-se um pouco o inverso do que se tinha acontecido em “Vespertine”. No “Vespertine” já surgimos numa fase avançada do processo e as canções já estavam bastante desenvolvidas. Neste, já nos envolvemos desde cedo e ainda não está muito clara para nós a forma que o disco vai tomar e as partes feitas por nós que vão aparecer. Ela gosta de reunir muito material para depois, numa espécie de relâmpago, decidir o que vai querer. Sai sempre uma coisa estranha. Ela tem uma abordagem muito oblíqua à pop e dotes melódicos muito fortes.

O Martin dizia, numa resposta anterior, que sentia os Matmos muito mais melódicos em “The Civil War”. Será resultado do tempo que têm passado com a Björk?
MS – Antes do “The Civil War” estivemos literalmente durante um ano trabalhando, ouvindo e tocando insistentemente estas canções super-melódicas. E nós acabámos por absorver isso, para o bem ou para o mal. (risos) Nós estamos actualmente instalados num museu de arte (bom, hoje não, porque é o nosso dia de folga) e estamos à espera que esta instalação acabe por servir de antídoto às influências melódicas. (risos) Estamos a improvisar através de barulho, com muito pouca melodia. Sinto-me livre e feliz. (risos)

Está a falar-me do que está a acontecer no Yerba Buena Center For The Arts, sediado aí, em São Francisco, para onde deslocaram o vosso estúdio, numa espécie de instalação que os manterá aí ao longo de quase vinte dias. Como tem sido a experiência? DD – Todas as manhãs, pelas onze horas, abre o museu e eu entrevisto logo a primeira pessoa que atravessa a porta. E tento-a convencer a fazer uma canção comigo. E eu tenho que fazer uma canção em duas horas. À uma da tarde, já tenho gravado um CD para entregar a essa pessoa. Depois de almoço, e durante todos os dias, improvisamos com convidados nossos amigos.

MS – Já tocámos com o Dick Slessig Combo, grupo do guitarrista que costuma trabalhar connosco, Mark Lightcap; com o Thomas Dimuzio; com os Coelacanth; com a Vicki (People Like Us); etc. Ainda vamos ter aqui uma reunião dos Disc, isto é, nós, o J Lesser e o Kid 606.

Os Matmos tiveram também residência há pouco tempo na Universidade de Harvard. Como foi?
MS – Estranha. (risos) Na minha opinião, demos um espectáculo muito bom, no Centro de Ciência. Além disso participámos num seminário. Aí fizemos uma abordagem num espírito mais académico, no sentido de dar uma espécie de lição de história de “música concreta” aos miúdos. Mas eu acho que eles estavam à espera de algo mais aplicado, isto é, que lhes ensinássemos a fazer música electrónica. Muitos deles queriam era falar de questões técnicas e de como é que podiam começar.

Harvard possui uma imagem muito conservadora. Não é estranho estarem lá projectos como o dos Matmos a participarem em seminários?
MS – É um pouco estranho, sim. Nós não somos músicos treinados, nem somos propriamente individualidades com autoridade na matéria. Nós sentimo-nos felizes por eles se terem interessado no que fazemos.

DD – Todos os dias, fico surpreso pelo interesse que é depositado em nós. (risos) Sempre me senti feliz com a ideia de que ninguém jamais teria algum interesse por nós. Se te habituares à ideia de que ninguém vai querer saber do que fazes, serás feliz sempre. (risos) Se pensas numa carreira, então é melhor esqueceres.

Li algures, a propósito da vossa digressão com a Björk, que adoraram visitar um certo “castelo de um milionário maçon português”...
DD – É a Quinta da Regaleira.

MS – Oh, nós adorámos a Regaleira. Acho que vamos lá voltar. Há lá um hotel perto... Seria uma antiga embaixada dinamarquesa ou holandesa que está agora transformada num magnífico hotel?

O Palácio de Seteais, construído no século XVIII pelo cônsul da Holanda.
MS: Exacto. E eu vou celebrar o meu 40º aniversário no ano que vem e acho que vamos até aí. Talvez toquemos em Lisboa, pois vamos estar em digressão.

Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 17)