Entrevistas
MATT ELLIOTT
MÚSICA PARA BEBER
Provavelmente Matt Elliott é um músico desconhecido para muitos. Principalmente para aqueles que não estão muito inclinados para a música electrónica, ou que nunca ouviram (falar de) Third Eye Foundation, o projecto atrás do qual Elliott se tem vindo a esconder desde 1996. Em 2003, o músico mudou de rumo musical e enveredou por uma vertente que tem dado frutos nos últimos anos: songwriting. Até à data já editou dois discos em nome próprio (e com um som muito próprio) e sente-se melhor do que nunca nesta pele renovada. Lisboa descobriu esta nova faceta no passado dia 5 de Maio.

Deixou a Domino por uma editora mais low profile. A Domino estava a ficar grande demais para si, ou já não se sentia criativamente livre?
Houve algumas razões para eu ter deixado a Domino, mas posso dizer que sempre tive total liberdade criativa em todas as editoras com que trabalhei. Aliás, para mim esse é o principal factor na escolha de uma editora. Quando me juntei à Domino eles eram mais pequenos que a Ici d’Ailleurs e a Acuarela, e eu dou-me melhor com editoras pequenas.

Agora trabalha para a editora francesa Ici d’Ailleurs e também vive em França. Esta mudança geográfica teve alguma coisa a ver com a sua mudança musical?
É difícil dizer se a geografia teve algum efeito sobre a minha música. Em França é-me mais fácil fazer muito barulho e cantar torna-se menos embaraçoso. Mas também acho que já antes da mudança geográfica eu estava a mudar musicalmente. Uma das coisas que me faz mudar é o tédio. E quando me sinto entediado tenho de experimentar coisas novas. Sinto-me muito bem na Europa continental e prefiro a atitude das pessoas aqui. Infelizmente sinto que a Inglaterra de hoje é apenas mais um Estado americano e tenho muita dificuldade em viver num país assim. Sinto-me mais livre em França.

Porquê esta mudança algo abrupta da música electrónica para um estilo mais songwriter? “The Mess We Made” e “Drinking Songs” fazem-nos acreditar que existe realmente um novo Matt Elliott. Ou será que afinal o Matt Ellott é uma pessoa melancólica?
Foram razões práticas que me fizeram mudar. Mudei muitas vezes de casa entre 1999 e 2002 e não tinha um estúdio permanente. Como tinha uma guitarra clássica que me ofereceram, aprender a tocar guitarra foi a minha única forma de me exprimir musicalmente durante esse período. Quando finalmente instalei o meu novo estúdio em França, comecei a trabalhar nas ideias que desenvolvi com a guitarra. Mas não me considero uma pessoa melancólica no dia-a-dia. Claro que tenho os meus momentos de tristeza e depressão. Devo confessar que estou preocupado com o evoluir do mundo, sobretudo porque devíamos estar a viver num mundo civilizado. À medida que vou envelhecendo, vou ficando cada vez mais frustrado pelo facto dos políticos acharem que nós devemos seguir as orientações morais deles (não às drogas, censura, etc.), enquanto eles mentem abertamente e fazem dinheiro com armas e exploração de pessoas. Estou completamente farto da corrupção que está a lixar o mundo inteiro e que nos força a viver num mundo lixado (ambientalmente), onde mais de 70 por cento da população (sobre)vive na miséria, para ajudar uma minoria podre de rica a ficar ainda mais podre. Desculpe, mas quando eu começo a falar destas coisas não consigo parar. Para responder directamente à questão, eu tenho tendência para preferir arranjos mais melancólicos.

Perdeu fãs com esta mudança, ou conquistou mais ainda? Devo confessar que sou mais adepto deste novo Matt Elliott.
É difícil dizer. Não vendi muitos “The Mess We Made” em Inglaterra, mas em França o disco vendeu mais do que Third Eye Foundation (TEF). A coisa está um bocado nos 50 por cento. Há quem prefira um género e há quem prefira o outro, Obviamente que fico mais contente quando as pessoas preferem o meu material mais recente, porque é aí que eu estou neste momento. Pessoalmente, acho que a música de Matt Elliott é muito mais “soulful” do que a dos TEF.

Onde é que encontrou a inspiração para esta vertente mais “songwriting”?
Depende. Às vezes em viagem e outras simplesmente enquanto vejo televisão. Mas a música aparece sempre primeiro. Para mim é muito difícil escrever letras, porque isso é uma arte só por si, e eu sou apenas um amador nesse aspecto.

Em “Drinking Songs”, deriva ainda mais da música pop convencional, para uma espécie de folk negro boémio, a que não é indiferente o facto do Matt Elliott ter remisturado “La Dispute” de Yann Tiersen em 1999. Pode-se dizer que nasceu aqui o Matt Elliott que se ouve em “The Mess We Made” e “Drinking Songs”?
Quando comecei a trabalhar na remistura de Tiersen fiquei espantado, porque ele é um músico de verdade (com formação clássica) e muito bom. Fez-me começar a pensar sobre música e em como eu gostaria de saber tocar um instrumento. Porque a forma mais pura de expressão é quando nos ligamos a um instrumento, ou até quando cantamos. Não há qualquer tipo de programação ou interferência na ligação, apesar de muitas bandas usarem computadores como instrumentos.

Chegou mesmo a beber durante as gravações de “Drinking Songs”? É que há um torpor que atravessa todo o disco, até no último tema, um épico inspirado nas sonoridades TEF.
Não tenho a certeza se esse torpor é uma coisa positiva ou negativa. Mas não bebemos muito. Algum whisky e rum, mas apenas para manter o espírito durante as gravações que fizemos em estúdio e pela noite dentro dos temas “CFBundy”, “The Kursk” e “Trying To Explain”. O resto do disco foi gravado em minha casa e aí eu prefiro fumar a beber. A única vez que gravei bêbado foi quando eu e o Chris Cole fizemos as vozes para o tema do barco que se afunda. Bebemos dois litros de Pastis (um licor francês) para tentar dar um toque alcoólico à canção.

Os 20 minutos de “The Maid We Messed” são um capítulo à parte no disco. É o anúncio de um regresso aos TEF, ou somente um aviso de que a sua música pode disparar em todos os sentidos? Isto para perguntar se os TEF estão mortos e enterrados, ou podem regressar, como aconteceu recentemente para uma série de concertos em França?
Para ser honesto, “The Maid We Messed” era para ser apenas uma espécie de freakalhada noisy, mas várias pessoas insistiram para que eu a colocasse num disco e acabei por fazer uma versão em casa. Não posso dizer se vou voltar a fazer um disco dos TEF ou não, porque não faço mesmo a mínima ideia. Neste momento não tenho prazer em tocar como TEF, porque tocar ao vivo num laptop aborrece-me. Mas talvez volte a fazer um disco no futuro.

Qual é a diferença entre tocar através de um computador e tocar com instrumentos verdadeiros? Qual é o seu instrumento de eleição?
A maioria das pessoas que toca ao vivo com computadores não estão a fazer nada por aí além, simplesmente porque não é necessário, apesar de Kid 606 e alguns outros marcarem a diferença. É muito menos satisfatório para um músico do que tocar um instrumento, porque só assim se consegue comunicar directamente com o público. Através de um computador isso não é possível.

Por falar nisso, como é que “Drinking Songs se comporta ao vivo?
Dois homens bêbados em palco, à volta de loops, vozes, guitarra e violoncelo. E com certeza “The maid we messed”.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre - Maio 2005)