Entrevistas
MC5
ALERTA AOS "CIVIS"
Três décadas após um período de revolucionárias mudanças politicas e sociais, o “big bang” protagonizado pelos MC5 – lendária e influente formação do rock americano de finais dos anos 60 – ainda reverbera nos tímpanos de muitos, instigando uma nova geração de músicos fascinados com a sua potência sónica e ideais revolucionários. Wayne Kramer, um dos sobreviventes dos “cinco da Cidade dos Motores”, conta-nos porque é que a chama ainda continua acesa. E como é a primeira grande tentativa de aproximação a uma nova geração através do primeiro “best of “ oficial do grupo, agora editado pela Rhino.

Ele era o "rock'n'roll, droga e sexo nas ruas". Ele eram actuações explosivas perante audiências de hippies embasbacados. Ele era toda uma nova concepção musical que juntava rock'n'roll, free jazz, "avant garde" e política revolucionária. E um colectivo de "malucos que fumavam marijuana desde que acordavam" e que transformavam o aborrecimento do dia-a-dia numa metrópole da América profunda em música caótica e tendencialmente subversiva. Trinta anos depois o legado ainda sobrevive na mente de muitos.

Porquê recuperar uma selecção das melhores canções dos MC5 no ano 2000? É a comemoração de trinta anos de alguma coisa?
Acho que é o culminar do interesse que tem mantido o nome dos MC5 ao longo destes últimos trinta anos. É uma oportunidade de toda uma nova geração ouvir a nossa música.

Qual é a grande diferença entre esta compilação e outras que existiram antes, de edição geralmente limitada a clubes de admiradores, como é o caso da excelente "Babes In Arms" da Roir?
"Babes In Arms", e outras que surgiram, eram para os fans mais ferrenhos, incidindo essencialmente sobre material mais obscuro. Esta tem as gravações de melhor qualidade e, para quem não conheça a história dos MC5, dá um retrato mais completo da banda, daquilo que estávamos a tentar fazer. É um bom conjunto, tem boas fotos, um texto explicativo e soa bem. As outras muitas vezes não tinham grande som.

Acredita que têm sido essencialmente os músicos que têm mantido o nome dos MC5 ao longo dos tempos? Sobretudo através da inspiração que estes têm ido buscar ao pioneirismo da banda?
Os músicos tem sido, de facto, os que têm estado mais próximos dos MC5. É uma espécie de história oral que vai passando de banda para banda. Os "civis", as pessoas normais, não sabem bem a história. Mas a malta que toca em bandas parece que a sabe. Mas gostaria que essa história se espalhasse das bandas para as outras pessoas.

Como explica que uma banda que nem sequer era muito perfeccionista ou um bom exemplo de técnica musical continue a influenciar inúmeras formações de há trinta anos para cá, tenham sido nos anos setenta, com o punk, ou nos noventa, com o grunge? O que acha que esses músicos vêm na banda?
Acho que isso acontece porque os MC5 representam alguns princípios que eram maiores que a própria banda. A mensagem que nós transportávamos era de justiça e liberdade, de auto-elevação. Nós estávamos a tentar dizer algo de novo de um modo diferente, combinando influências que nunca tinham sido trazidas para o rock até então. A "avant-garde", o jazz, as políticas radicais combinadas com a música dos The Who e Chuck Berry. As posições que a banda tomou eram muito empenhadas. E isso ainda apela às pessoas. É um pouco como o James Dean: era novo, tinha imenso carisma e morreu logo a seguir.

Quando hoje vê bandas como os Monster Magnet ou os Hellacopters, que seguem de perto a inspiração dos MC5 e conseguem ter algum sucesso, sente-se de alguma forma "vingado" pela incompreensão da altura?
Eu chamo-lhes "os filhos dos 5" e tenho algum orgulho neles por eles continuarem o nosso som e ideias. Mas sentia-me mais "vingado" - essa é uma estranha palavra -, mais satisfeito, se a nossa música chegasse realmente a mais pessoas. A verdade é que se os Hellacopters ou os Rage Against The Machine são bem sucedidos com algumas das ideias dos MC5, nós não ganhamos nenhum dinheiro com isso. Só ganhamos se vendermos as nossas canções.

"In The Grooves"

Se os outros membros dos MC5 ainda estivéssem todos vivos (Rob Tyner e Fred "Sonic" Smith já faleceram) considerariam uma hipótese de reformulação da banda para, por exemplo, promover esta compilação agora lançada?
Isso dependeria de quão "crescidos" estivéssemos, de como nos conseguiríamos aceitar e aceitar as mudanças por que passámos. Nós tínhamos princípios na banda, razões pelas quais fazíamos as coisas. Nunca fizémos nada só pelo dinheiro.

Como vê a actividade de contemporâneos seus como Iggy Pop? Mesmo você continua a tocar rock. Considera-se um sobrevivente?
Fico contente de ver o Iggy continuar. Fico sempre feliz de ver um irmão desenrascar-se. Porque ter estado nos MC5 ou nos Stooges não fez de nós homens ricos. A música é o tipo de actividade que se pode continuar a fazer com grande paixão e melhorando É possível continuar a fazê-la com algum fogo e sentido aos 40 ou 50, e se calhar aos 60 anos. Sou agora um melhor guitarrista e um melhor compositor do que era há 20 ou 30 anos.

Mas o que as pessoas querem não é um bocado aquela imagem do jovem rebelde? Será que depois disso ainda faz algum sentido?
Ainda tem significado, ainda tem um papel de importância na vida das pessoas depois disso. Eu tenho 52 anos e toco regularmente. Toco todas as segundas feiras num clube em Los Angeles e temos sempre a casa cheia. As pessoas vêm, divertem-se com a música e ouvem a mensagem, e as coisas vão melhorando.

Porque é que um álbum um pouco "falhado" na carreira do grupo - e que nem é o mais representativo do som MC5 - como é "Back In The USA" (uma produção do jornalista Jon Landau) ocupa o maior número de faixas nesta retrospectiva?
Foi assim que as coisas aconteceram. Todos preparámos as nossas escolhas e o resultado foi esse. Estou bastante contente com o resultado, embora o meu disco favorito seja o "High Time".

Se "High Time", o "grande álbum perdido" dos MC5, tivésse sido melhor sucedido, acredita que o grupo se poderia ter tornado num dos mais importantes dos anos 70, a par de formações como os Led Zeppelin ou Black Sabbath?
Acho que o álbum era suficientemente bom e podia ter "salvo" os MC5. Um dos mais importantes produtores da Atlantic, dizia que as coisas tinham de estar "in the grooves" (nas espiras do vinil). O que ele queria dizer era que a qualidade de uma banda tinha de estar no próprio disco. No caso de "High Time", acredito que estava realmente. É um óptimo disco, mas por essa altura a Atlantic já tinha desistido dos MC5. Éramos demasiado problemáticos para eles. Mas esse disco podia ter mudado tudo, caso tivesse sido promovido decentemente.

Acredita que o preço a pagar pela longevidade da proposta de uma banda é a incompreensão no momento presente? Como aconteceu com os Velvet Underground ou os Stooges?
Tentámos fazer as coisas de um modo que tivesse um valor histórico. Nós tínhamos a noção de que quando se faz um álbum, ele fica para sempre. Nós perguntávamo-nos "será que ele se aguenta ao tempo"? E até agora tudo bem.

Problemas na era do "Peace & Love"

Como explicaria às gerações de hoje, em particular aos miúdos que estão habituados ao hardcore-rap da MTV e à etiqueta de "Parental Advisory", o escândalo que provocou o grito "Kick out the jams motherfuckers" incluído no vosso primeiro álbum?
Acho que não há maneira de eles, que cresceram a ouvir gangster-rap e hardcore e heavy metal entenderem a controvérsia que foi. A linguagem desenvolveu-se até um ponto em que toda a gente aceita esse tipo de expressão. Mas nos anos sessenta - que se seguiram aos cinquenta - os artistas não diziam essas coisas, não tinham posições controversas. Não usavas esse tipo de linguagem em público. Os MC5 surgiram com uma postura política muito forte o que associado a uma expressão incendiária como "Kick out the jams, motherfuckers", representou praticamente uma chamada de sublevação que aterrorizou o sistema. O que implicou que a banda tivesse sido banida da rádio e houvesse empregados de lojas a ser presos por venderem o disco. Nós próprios fomos presos por interpretarmos a canção ao vivo. Dá para imaginar isso hoje em dia?

O que era o "White Panther Party" e como se ligaram a eles?
Os "Panteras negras" - o partido radical que lutava pelos direitos dos negros - tinham lançado um apelo para que se fizésse um trabalho paralelo na comunidade branca. E nós dissémos que estávamos prontos. Que estávamos frustrados com a lentidão do ritmo de mudanças. Que sabíamos que o nosso país estava num estado terrível e que as coisas tinham de mudar. Nós achámos que a formação do Partido das Panteras Brancas era uma maneira de dar uma voz a esses sentimentos de frustração. De dizer que a guerra no Vietname tinha de mudar, de que a intolerância racial tinha de acabar, de que a opressão cultural e económica tinha de acabar. De que as coisas em que a América era suposto ser fundada - igualdade, justiça, tolerância - fossem realmente praticadas. Nós éramos patriotas.

Era por isso que usavam a bandeira tão frequentemente como símbolo visual?
De certo modo sim. Não sem um sentido de ironia. Mas sim, sou americano, usávamos os símbolos.

Ainda vê essa chama libertária nalgum lado hoje em dia? Em bandas em partidos ou na cena musical?
Vejo-a bastante. Vejo os MC5 como o "big bang" de uma consciência política nos músicos. Hoje o Bono vai a Sarajevo para chamar a atenção sobre o que se passa, o Sting tenta salvar as florestas, o Michael Stipe levanta-se pelo controle de armas e defende a possibilidade de escolha do aborto, os Rage Against The Machine defendem os trabalhadores explorados e políticos radicais. Vejo isso um pouco por todo o lado. E acho que isso não é mau.

Os MC5 não eram muito bem vistos pelos hippies da West Coast, que no entanto apregoavam a mudança. Vocês eram a facção mais radical de um tempo de cultura juvenil revolucionária?
Nós éramos a guarda avançada. O negócio da música já tinha descoberto como vender o "paz, amor e música", os arco-íris e as flores. A música folk, os Mamas & Papas e os Grateful Dead. E então aí vêm os MC5 de Detroit, que ficava a milhares de quilómetros e era uma cidade industrial, com estes grandes amplificadores, com uma música que parece uma combinação sacrílega de Ornette Coleman e Chuck Berry, com umas roupas espalhafatosas e a rodopiar no palco como o James Brown. E a gritar "Kick out the jams motherfuckers" e aquilo não funcionava com os hippies. Era demasiado forte para eles e tinha piada. De certa maneira tinham sido programados para gostar de umas certas coisas e depois aparece algo completamente diferente. Mas nós fizémos muitos amigos nesses dias, as pessoas vinham aos concertos. Não nos conseguíamos era dar bem com a indústria. Com os grandes figurões das companhias discográficas.

Considera então que, como banda, pagaram um alto preço pela vossa atitude?
Certamente.

E a nível pessoal? Teve muitos problemas a seguir aos MC5, e chegou inclusivamente a estar preso...
Sim, demorou bastante tempo até conseguir estabelecer-me como um trabalhador entre iguais. Até não ser considerado "menos que". E de certa maneira ao longo dos anos não ajudei muito a minha causa. Mas as coisas hoje estão ok.

O slogan que utilizavam na altura: "rock'n'roll, droga e sexo nas ruas" era já uma piada ou vocês levavam aquilo a sério?
De facto representava exactamente as coisas em que estávamos mais interessados, mas era feito com uma grande dose de humor. Uma das coisas que se perde mais na transposição da história dos MC5 e dos White Panthers é o lado do humor. Nós não éramos um grupo de desesperados num armazém de Detroit a polir as nossas espingardas de forma sinistra, éramos um colectivo de malucos irreverentes a fumar marijuana desde que acordávamos e a rirmo-nos de tudo o que víamos. Quer dizer, tinhas de te rir para não chorares.

Jorge Dias
Exclusivo Público/Mondo Bizarre
(Mondo Bizarre # 3)