MEIRA ASHER
A CANTORA CARECA
Meira Asher e Guy Harries tocam dia 10 de Novembro em Lisboa, na Galeria Zé dos Bois, a 11 na Guarda, no Teatro Municipal e finalmente a 12, em Famalicão, na Casa das Artes.
Num mundo onde grassa a violência indiscriminada, a guerra e as atrocidades, quem mais poderia denunciar esses males senão a israelita Meira Asher? E fá-lo com uma entrega emocional rara. Num misto de diva vampírica e de profetiza pessimista, num misto de voz conspurcada e de intenções expiatórias, Asher é uma cantora e performer provocadora, insubmissa, politicamente incorrecta e frontal. Na música como na mensagem. Bastam dois dos seus álbuns para confirmar estas premissas: “Dissected” e “Spears Into Hooks”, poderosos e inquietantes testemunhos sonoros sobre os males do mundo (com o conflito israelo-árabe sempre como pano de fundo). Ao contrário da personalidade lúgubre de uma Diamanda Galás, Asher revelou, nesta entrevista, ser expansiva e simpática, falando tanto de música como de política. Coisa surpreendente para quem tem uma opinião cada vez mais negra e pessimista sobre o mundo e as pessoas que nele habitam.
O seu trabalho na música teve início há 20 anos atrás. Aprendeu a tocar diferentes tipos de instrumentos, sobretudo piano e percussão. Em poucas palavras, como descreveria o seu percurso musical nestes 20 anos?
Em poucas palavras é difícil (risos). Eu nasci em Israel, um país com uma grande combinação cultural. Foi neste país que eu aprendi música, que aprendi a tocar piano e a expressar as minhas emoções através da música. Em criança estudei piano e mais tarde percussão. Depois, em adolescente, a fotografia apaixonou-me. Mas foram processos paralelos e muito enriquecedores. O trabalho do dia-a-dia era o mais importante para mim, conseguir os objectivos a que me propunha como artista. Para isso, viajei muito, e foi com as viagens que aprendi a solidificar o meu percurso musical…
A propósito de viagens, porque é que deixou Israel e se mudou para a Holanda?
Mudei-me motivada por esse impulso de viajar e porque senti necessidade de estudar sonologia -estudo do som sob a perspectiva artística e científica – na Holanda. Fiz um curso de um ano mas decidi continuar por mais tempo. Acabei por ficar, ano após ano, e comecei a envolver-me em projectos cada vez mais ambiciosos e multidisciplinares, pelo que me encontro aqui desde 1999.
O seu trabalho no início era muito ligado à música para teatro, dança e instalações, certo?
Bem, no início da minha carreira estava apenas ligada à música, só mais tarde me envolvi em projectos como o teatro e as instalações de arte. Quando estudei percussão na Índia, nomeadamente tablas, dei-me conta da grande complexidade da arte indiana, a qual existe porque tudo tem ligação com tudo: não se pode separar a dança do teatro, ou a voz do instrumento. Isso provocou em mim a abertura de horizontes, porque para os indianos a música e a arte são uma verdadeira filosofia de vida. Esta percepção das coisas levou-me a começar a trabalhar com meios muitos distintos e a misturá-los em termos criativos, como o vídeo, o texto, elementos teatrais, e naturalmente, a música.
E quando é que aconteceu o exacto momento em que sentiu a necessidade de fazer música para expressar a sua visão do mundo?
Creio que essa necessidade estava já na minha personalidade, não foi propriamente o tipo de acordar um dia e dizer “bom, hoje vou começar a fazer música minha”. Sempre foi óbvio para mim que nunca iria tocar para sempre as tablas indianas segundo os trâmites da tradição indiana. Assimilei a filosofia e o saber indiano de forma a enriquecer a minha experiência musical, mas depressa senti o fervor individual de fazer coisas diferentes e originais. Foi aí que comecei a sentir essa necessidade de experimentar criar a minha própria música.
Nesse sentido, o seu primeiro álbum, “Dissected”, foi um forte testemunho dessa sua visão acerca dos problemas sociais e políticos aos quais tem prestado atenção desde essa altura até hoje. Pergunto: depois destes anos todos, alguma coisa mudou na sua percepção desses mesmos problemas?
Não, nem por isso. Acho até que fiquei ainda mais radical e clarividente na minha visão das coisas.
É que a sua música aborda conflitos, guerras, atrocidades, violações… ficamos com a sensação de que odeia o mundo.
Não se trata de ódio, mas sim de preocupação. É um instinto. Foi por isso que a arte me atraiu, pela possibilidade de me permitir falar dos problemas sociais que o mundo enfrenta a toda a hora. Tem-se tornado para mim cada vez mais evidente que não me interessa fazer arte pela arte, mas sim arte com preocupações ideológicas ou políticas. Nunca me interessou a música com fins comerciais, mas sim a música como reflexo das minhas preocupações. Interessam-me os problemas das crianças que são obrigadas a ir para a guerra na Serra Leoa, o estatuto humilhante e escravizante das mulheres em muitos países, as atrocidades e mutilações perpetradas em nome de um Deus, etc. Há que ter uma visão do mundo, ter uma mensagem forte para passar no sentido de tentar mudar alguma coisa, ou pelo menos, chamar a atenção para esses problemas.
Devido ao facto da sua música possuir essa forte componente politizada, significa que a música resulta sempre da sua análise da sociedade e do mundo?
Não. Prefiro caracterizar a minha música baseada em assuntos ou problemas sociais, e não políticos. Isto porque a política está conotada, hoje em dia, com um mundo demasiado vil, indigno, sujo... A minha abordagem é sobretudo social, a política vem por acréscimo mas não é o ponto de vista essencial para o meu trabalho.
Qual é o principal papel da sua música num mundo tão complicado como este? É o de tentar tornar o mundo menos violento ou, ao invés, colocar os holofotes no centro desse mundo violento para que todos o possam observar?
Não, de todo. O papel de um artista é o de servir de espelho do que vê e sente. E a inteligência de um artista reforça-se quando consegue aprofundar a um nível mais fundo, esse olhar sobre a realidade das coisas. É assim que eu interpreto o papel da música no mundo. Eventos como o Live 8 são interessantes mas não mudam definitivamente o curso das coisas, e há muitos interesses por detrás…
E como interpreta o momento actual do conflito político entre Israel e a Palestina e tudo que diga respeito às questões do Médio Oriente?
Estive este último Verão em Israel e fiquei realmente muito feliz ao constatar um desanuviamento político do conflito entre ambas as partes por via da evacuação da Faixa de Gaza. Todavia, o conflito não irá solucionar-se apenas com a evacuação dos territórios ocupados porque há muitos grupos extremistas infiltrados dos dois lados que não querem a paz, querem semear o ódio e a discordância. A maior parte dos israelitas e palestinianos querem a paz, mas esses grupos de radicais não permitem uma solução imediata para o problema. Ainda assim, quando estive em Israel, senti momentos muito emotivos pela melhoria das relações, dado que a população dos dois lados passou por muitos traumas e muitas situações de uma tensão insuportável, mas…
…Mas ainda ontem Israel voltou a bombardear Gaza!
É verdade. E o Hamas ripostou assassinando dois soldados israelitas. Para ser sincera, esta é uma situação muito complicada que não irá terminar nunca. As populações têm sido objecto de muitos e muitos anos de sofrimento e estão extremamente cansadas desta situação que não tem fim. Tem havido tal destruição de certos elementos da vida que nos dois lados há uma espécie de “doença nacional”. Isto é um longo processo que vem de há 40 ou 50 anos, faz parte da evolução dos dois povos e é necessário saber viver com isso.
Se pudesse encontrar-se pessoalmente com Ariel Sharon, o que lhe diria?
(risos) Acho que lhe diria exactamente o que lhe estou a dizer a si. Dar-lhe-ia coragem para continuar com este processo de evacuação dos territórios ocupados e que parasse com os estúpidos movimentos de fanáticos que apenas pretendem colocar eternos obstáculos à resolução do problema israelo-árabe. Sharon não é um santinho e também cometeu crimes de guerra, mas é o homem que actualmente está a liderar a situação e é ele que deve continuar a fazê-lo. Pior seria se Benjamim Netanyahu regressasse ao poder em Israel.
Voltemos à música. O seu segundo álbum, “Spears Into Hooks”, editado em 1999, continha peças musicais muito fortes, nas quais misturava ritmos electrónicos com samples de vozes agonizantes, instrumentos tradicionais com textos sobre o holocausto, o incesto, o sofrimento das crianças, a tortura… Apesar de toda esta rudeza e austeridade sonora, este foi o disco decisivo na sua carreira?
Sim. Foi uma espécie de ponto de viragem, um boom na minha carreira. No início apenas me interessava tocar ao vivo com músicos, não me importava muito em gravar discos por achar que o estúdio era um sítio artificial. Com a experiência adquirida com outros músicos acabei por aprender a gostar de manipular o equipamento de um estúdio, sobretudo electrónico. Foi pela primeira vez no “Spears Into Hooks” que surgiram os primeiros beats electrónicos, porque os músicos que nele participaram estavam fortemente ligados ao universo da electrónica. Por isso admito que foi um ponto forte na minha carreira, em termos estéticos e em termos de conteúdo.
Qual é exactamente o papel da electrónica no seu trabalho?
Para mim tem de haver sempre uma tensão entre a electrónica e a instrumentação acústica, entre a parte orgânica e a artificial, de modo a criar essa inquietante sensação à beira da tensão entre os vários elementos da música.
E como descreve o seu processo de criar música? Começa com uma ideia específica, com um sample, um beat, um texto, ou o seu trabalho é mais baseado na experimentação e na improvisação?
Depende muito de cada projecto em que estou envolvida, de cada peça específica. Não tenho propriamente regras sobre esta matéria, a música pode começar a partir de um som, de uma letra, de uma paisagem sonora e a partir daí libertar-se para múltiplas direcções criativas.
A sua forma de cantar é muito expressiva, muito própria. Usa spoken word, declamações serenas e poéticas, sons guturais… Como reage quando certos críticos referem que faz parte do triunvirato de cantoras “malditas” – juntamente com Lydia Lunch e Diamanda Galás – com abordagens vocais similares?
Muito sinceramente não sei bem o que dizer sobre isso. (risos) Talvez. As pessoas têm sempre a tendência de catalogar as coisas, mas para mim a catalogação tem mais a ver com produtos para vender e comercializar do que com arte (risos).
Vai voltar a Portugal em Novembro para uma mini-digressão, apresentado ao vivo o espectáculo “Open Cuts” com o músico Guy Harries. O que é que o público português pode esperar deste espectáculo?
Vai ser uma actuação muito simples sem recurso a meios audiovisuais e multimédia, que noutras apresentações utilizei. O centro das atenções vai ser apenas a música, o som, e não as imagens. Trabalhei durante quase dez anos com a fusão de meios e de linguagens, como o vídeo manipulado em tempo real. Agora tratar-se-á apenas de música e performance, o que nos dá um prazer muito especial. Tocaremos parte do álbum “Infantry” e algum novo material da minha parte e da do Guy Harries.
Para terminar, em jeito de provocação: acredita em Deus?
(risos sonoros) Não!
Victor Afonso
(Mondo Bizarre - Novembro 2005)
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