THE MELVINS
OS TRÊS ESTAROLAS
2001 começou bem para os Melvins, com várias razões para lhes darem a merecida atenção deste lado do oceano. A saber: a edição do álbum "Electroretard" através da Man's Ruin; a disponibilização pela primeira vez na europa (Portugal incluído), da trilogia que inclui os álbuns "The Crybaby", "The Bootlicker" e "The Maggot", editados originalmente na Ipecac, a editora de Mike Patton; finalmente, a próxima digressão. Depois de alguns anos afastados dos palcos europeus, os Melvins prometem causar alguns estragos. Do outro lado da linha, o baterista Dale Crover, provou ser melhor a tocar bateria do que a dar grandes respostas...
Há quem diga que os Melvins foram os verdadeiros inventores do grunge. Isso é verdade?
Tudo é possível. Nós mudamo-nos para a Califórnia antes de Seattle se tornar famosa. Há quem pense que ainda vivemos em Seatlle. Mas nós nunca lá vivemos.
Os Melvins são conhecidos por terem canções muito lentas. Não gostam de tocar depressa? Mas voçês chegaram a tocar com Napalm Death, em Londres. Um verdadeiro contraste...
Não sei porque é que dizem que só temos canções lentas. Se calhar é porque quando tocamos devagar é mesmo muito devagar. Tocámos duas vezes com os Napalm Death e acho que era difícil haver uma melhor combinação de bandas.
A passagem dos Melvins para uma multinacional teve que ver com o sucesso dos Nirvana?
Quase de certeza. Eles falavam de nós em quase todas as entrevistas. Foi a popularidade deles que fez com que bandas como os Melvins assinassem por multinacionais.
Foi fácil terem liberdade artística na Atlantic Records?
O nosso contrato com a Atlantic Records dizia: “100 por cento de controlo artístico”. Tínhamos o direito de fazer os discos que queríamos.
Se tinham toda essa liberdade porque deixaram a Atlantic? Ou foram eles que vos despediram?
Tínhamos tomado uma decisão e eles queriam que esperássemos seis meses para decidirem se queriam, ou não, que editássemos outro disco. É que eles estavam muito ocupados a despedir pessoas. Nós dissemo-lhes: “Não! Queremos fazer já outro disco. Dêem-nos o dinheiro”. Eles responderam: ”Desculpem!”. E nós dissemos: ”Adeus!”. Bem vistas as coisas foi um óptima experiência. Tão fácil como roubar velhinhas.
É verdade que o Kurt Cobain foi vosso roadie e que os Nirvana foram banda de suporte dos Melvins? Afinal, vocês apareceram primeiro...
O Kurt era nosso amigo e, às vezes, ia connosco para os concertos. Tenho a certeza de que, algumas vezes, o fizemos carregar algum do nosso material. O Chris Novoselic levou-nos e conduziu o seu autocarro hippie várias vezes quando os Melvins andavam em digressão. Os Nirvana foram a nossa banda suporte várias vezes e vice-versa.
E quanto aos Kiss? Ouvi dizer que o Gene Simmons é um grande fã vosso. Isso aconteceu antes ou depois de terem feito uma versão de “Going Blind”?
Um dia, o Gene telefonou e pediu para tocar o “Going Blind” connosco no concerto que íamos dar em Los Angeles. Como é que podíamos resistir? Depois disso abrimos para os Kiss quando eles se voltaram a reunir. A primeira vez que eu e o Buzz fomos a um concerto foi para ver os Kiss. Foi por causa deles que me tornei músico. Mas nunca adivinharia que iríamos chegar tão longe.
Porque editaram, tal como os Kiss, três discos a “solo”?
Porque era divertido e estimulante.
Depois de saírem da Atlantic Records voltaram para a Amphetamine Reptile. Porquê essa editora e não outra qualquer?
Porque já tínhamos trabalhado com eles e porque gostamos de Tom Hazelmeyer, o dono.
Também regressaram as vossas experiências sonoras mais estranhas. O que prefere, experimentalismo ou canções rock “normais”?
“Honky” foi um disco de transição. Ainda assim, não andava muito longe do anterior, “Stag”. Gosto tanto de experimentalismos como de fazer canções rock “normais”. Ainda que não faça ideia o que é uma canção rock “normal”...
Quais são as vossas principais influências musicais? Parece-me que a vossa inspiração não vem só da música. A Segunda Guerra Mundial também é uma das vossas fontes de pesquisa...
Temos muitas influências musicais. Sim, usamos outras coisas para além da música. Acima de tudo a imaginação e o fingimento. O Buzz é que é fanático pela Segunda Guerra Mundial. Eu prefiro a Primeira.
E quanto ao clube de singles mensais? Porquê é que os lados B eram sempre versões?
Achamos divertido fazer o single do mês durante um ano. Usamos versões porque nos pareceu que era uma coisa que ficava bem...
A Ipecac é a editora perfeita para os Melvins? O Mike Patton é suficientemente doido para editar os vossos discos?
Sim. A Ipecac é a editora perfeita. E o Mike é realmente doido.
Editam três álbuns de estúdio num ano. Estão a tentar entrar para o Guiness ou era uma coisa que tinham mesmo que fazer?
Fizemos isso apenas porque o podíamos fazer.
Esses discos estão agora a ser editados na Europa. Há muito tempo que não vem cá tocar. Estão preparados para nos arrasar?
Já não era sem tempo! Estamos preparados e desejosos de vos deixar de quatro.
O que se pode esperar da vossa digressão?
Os mortos não falam!!!!
E quanto ao álbum que vai sair em Março?
Março? Temos um disco a sair em Março? Tenho a certeza que é um óptimo disco!
Era mesmo necessário recuperarem canções antigas e algumas versões e juntar tudo neste “Electroretard”? Porque não versões de Black Sabbath?
Achamos que era boa ideia juntar esse material. As versões são boas versões. Já há muitas bandas a fazer versões de Black Sabbath. Ninguém precisa que os Melvins façam versões deles.
Como é a vossa relação com o Frank Kozik? Acham que ele consegue representar graficamente a vossa música? Todas as capas e posters que ele fez para os Melvins encarnam o espírito da banda...
O Frank é fantástico. Deixamos que ele assuma completamente o controlo gráfico. Ele faz sempre a coisa certa. Em contrapartida, ele deixa-nos gravar os discos que queremos. É uma maneira brilhante de se trabalhar.
E quanto aos vossos projectos paralelos como Altamont, Fantomas, etc.
Os Altamont, a banda onde toco guitarra, vão ter um novo disco na Primavera. Os Fantomas de Buzz, Patton, Lomardo e Dunn estão a preparar-se para gravar um novo álbum. O Kevin está a começar um projecto com Mike Patton, Duane Dennnison dos Jesus Lizard e John Stanier dos Helmet. Como se vê, estamos muito ocupados.
Há alguma maldição em relação aos baixistas dos Melvins? Não há nenhum que se aguente muito tempo na banda...
Não sei... Não podemos viver com eles, não podemos viver sem eles.
Houve um artigo sobre os Melvins que saiu na Hustler...
É verdade temos uma ligação porno. Fizemos um vídeo com o conhecido realizador de filmes porno Greg Dark. Também somos amigos do editor da Hustler. É o que se chama ter “friends in high places”.
Ao fim destes anos todos porque é que ainda continuam a tocar?
Porque, pura e simplesmente, não temos nada melhor para fazer.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 6)
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