MERCURY REV
NA SENDA DOS SONHOS
Falar com Jonathan Donahue o calmo e delicado vocalista e guitarrista dos Mercury Rev é meio caminho andado para a nossa percepção da música desta tão peculiar banda norte-americana se expandir.
Se é um habitué da navegação no hiper-espaço, se a República dos Sonhos é um dos destinos preferidos, se não desistiu ainda de buscar a canção perfeita... então não hesite, "All is Dream" é o disco ideal para si! Aviões, camas, palcos, zangas e drogas povoaram a ascensão e queda dos Mercury Rev.
A sonoridade caótica, a postura que desencadeou as páginas de rock-marketing, tão querida aos meios de comunicação, os egos corroídos num loop de distorções da alma enquanto espelho e janela, tudo isso pertence à Fábula Mercury Rev. E foram venerados assim: "Desert's Songs", foi o regresso e reflectia a travessia homónima - aclamado por críticos, antecipado pelos fãs, trouxe consigo as incursões num pop-folk-psicadélico.
"All Is Dream" traz um mundo de extravaganza e luz, onde o lirismo psicadélico de "Desert Songs" se prolonga e enriquece em canções melancólicas que se entrosam numa verdadeira banda-sonora para o novo milénio. A voz assexuada, quase castrati, fragmenta a atmosfera sonora, permitindo lapsos de consciente sem recurso aos habituais canais de entrada no organismo.
Dedicado à memória de Jack Nitzsche, produtor com quem tencionavam partilhar as horas de estúdio, mas que viria a falecer uma semana antes do inicio da gravação, "All is Dream" (produzido por Tony Visconti, no seu estúdio tão pequenino que eles nem queriam acreditar), não esconde a presença inequívoca do "fantasma da música do passado", forma eufemista como Jonathan Donahue se refere habitualmente a este homem que colaborou com Neil Young, Buffalo Springfield e, até mesmo Rolling Stones. Mas a Morte não gorou apenas a participação de Jack Nietzsche, Rick Danko também fora convidado a participar na gravação: "falámos com Rick pouco antes de ele morrer. Queríamos que ele fizesse algumas vozes, mas a sua morte prematura não o permitiu. Depois da morte de Jack, não voltámos a convidar niguém."
"All is Dream" é pop, com um negrume eclético de jazz experimental e os Mercury Rev sentem-se orgulhosos em proclamar: "o nosso disco tem canções pop", o que para alguns pode parecer estranho, mas não é. Os sonhos de Jack Donahue, Jeff ou Grasshopper não são diferentes do comum dos mortais e embora as canções de "All Is Dream" nos falem de lobos, serpentes e dragões, a realidade é muito mais prosaica: "Eu chego com uma letra que me saiu de um sonho e o Jeff ou o Grasshopper dizem "tenho aqui uma frase de piano arrepiante que calha aí mesmo bem."
Ao quinto álbum, os Mercury Rev ainda não escreveram um manual do sucesso, nem patentearam a fórmula da inspiração, no entanto, para o mundo exterior, permanecem encerrados numa armadilha Catch 22 - num momento são os iluminados que quebram todas as regras, amanhã são a policópia mainstream. "All is Dream" - é aproveitar o momento!
Há a tendência para se dizer que a música dos Mercury Rev tem traços de prog-rock e/ou de música clássica. Concorda?
Não sei. Normalmente deixo essa tarefa para o ouvinte, para os jornalistas. Alguns já nos descreveram como rock progressivo, rock clássico, outros dizem que somos "space cosmic rock" ou "orchestra rock". Não penso na nossa música como sendo só uma coisa. Como compositor e musico faço o que posso para tocar aquilo que tenho dentro da minha cabeça.
Os vossos primeiros discos costumavam ser mais noisy mas os últimos são mais espaciais e sonhadores...
Sim, eu percebo isso, mas não me considero um tipo do space rock. Mas essa qualidade, que não sei de onde me vem está nos nossos discos. É uma coisa que me atravessa, que capto, absorvo e cantando sobre ela. Depois desaparece e espero pela mensagem seguinte. É como um rádio, em que sintonizamos uma estação que ouvimos durante uns momentos e depois desligamos.
As mudanças que têm ocorrido nas vossas vidas influenciaram as canções e o vosso modo de composição?
Sim. Na altura de "Deserter's Songs" a minha vida pessoal não estava nada bem. Inconscientemente passou para a música mais do que o que devia daquilo que eu, na altura, sentia.
Quem é o desertor de "Deserter's Songs"?
Provavelmente sou eu porque na altura em eu estava a escrever esse disco, muita gente me desiludiu e eu comecei a afastar-me de algumas relações e amigos que achava que me tinham feito mal. Olhando para trás penso que não terei feito a coisa mais acertada, mas naquela altura tudo o que podia fazer era afastar-me. Não acreditava no rumo que a música e a indústria estavam a tomar. Por isso "abandonei o exército" sem dizer nada a ninguém.
E como é que tudo se tornou num sonho?
Não sei se é tudo um sonho. A ideia que tenho de um sonho não é só o que sentimos quando nos deitamos e adormecemos, Para mim é o subconsciente a trabalhar juntamente com o consciência do dia-a-dia. Tento estabelecer um equilibrio entre as duas partes dois. É aí, nessa parte do meu cérebro que normalmente não se mostra durante o dia, que encontro muita da inspiração para o que crio.
As aranhas, as serpentes e as sombras vêm, então, desse mundo?
Claro. Acho que são coisas muito simbólicas. Mas nem sempre sonho com cobras físicas. Mas as serpentes são uma parte fundamental desse estado. Aquilo que Jung designaria por arquétipos dentro desse estado de sonho, dessa mente inconsciente e que representa algo com o qual eu provavelmente tenho que lidar, ultrapassar e depois seguir em frente.
Como uma mémoria de algo que vai acontecer e tem que ser resolvido?
Exactamente. É como um pequeno puzzle.
E consegue resolver a charada?
Nem sempre. Às vezes as pessoas que escutam o disco descobrem a solução por mim. Conseguem isso muito melhor do que eu. É normal virem falar comigo depois dos concertos e dizerem-me as coisas mais estranhas. Por vezes essas coisas fazem muito sentido. São um espelho maior do que faço do que eu próprio.
Dizem sempre que os discos dos Mercury Rev são muitos mentais e vos fazem dispender grande esforço. O caso mais extremo aconteceu durante a gravação de "See You on the Other Side" após a qual alguns de vocês tiveram mesmo que ser internados...
Os nossos discos são todos muito mentais e exigem muito de nós. São mentalmente tão estafantes que quando acabamos um disco a única coisa que conseguimos fazer é sair da cama porque gastamos tudo o que tinhamos no disco e quase não sobra nada dentro de ti. Por isso é necessário reconstruir tudo de novo.
Continuam a usar o estúdio para a composição dos vossos temas como qualquer outro instrumento?
Nos primeiros tempos, há dez anos atrás, era muito mais importante. Quando estávamos em estúdio esperimentávamos muito mais com vários efeitos e arranjos sónicos do que hoje em dia. Agora o que interessa mais são as ideias.
Se para "All Is Dream" o estúdio não foi usado como instrumento teve, pelo menos, e uma vez que devido às condições climatéricas extremas ficaram aí retidos, alguma influêcio no disco?
De facto, o tempo estava muito mau. Havia tempestades de neve quase todos os dias e parecia que estávamos dentro do "Shinning" pois não podiamos sair. Houve uma certa loucura que se embrenhou em partes de "All Is Dream". Ficamos com "cabin fever" e houve uma enorme dose de insanidade com que tivessos que lidar. Claro que parte disso passou para o disco.
Mas conseguiram sobreviver a essa opressiva atmosfera...
Por vezes não tenho a certeza que tenhamos sobrevivido. Esses sentimentos ainda estão dentro de nós e vão levar tempo a desaparecer. Foi uma experiência traumática.
Talvez possa usar isso como inspiração para o próximo álbum...
Sim. Tenho a certeza que é o que vai acontecer. O próximo disco deve ser o nosso modo de ultrapassar o que aconteceu durante a gravação de "All Is Dream". Mas julgo que toda a gente passa por experiências muito fortes e avassaladoras. Não é preciso ser-se músico para que tal aconteça.
Porque escolheram trabalhar com o Jack Nietzchze?
Porque não sabia o que podia acontecer. O Jack era uma pessoa estranha. Eu sempre gostei da sua música mas vinha de um mundo envelhecido. Eu não sabia como é que ele iria lidar com a nossa música e no que esta se tornaria. Acho que foi esse perigo de não saber o que poderia acontecer que me entusiasmou a trabalhar com ele.
Agora que ele morreu acha que retiveram algo do que ele fazia na música dos Mercury Rev?
Ainda antes de termos começado a falar com o Jack já tinhamos muito com que começar a trabalhar. Tinhamos, como base de partida, muita imaginação. Não sou o amigo mais próximo que o Jack teve e nunca o conheci tão bem como muita gente. Mas ele teve uma grande influência em mim mais a nível pessoal do que a nível musical porque era um ser humano muito estranho. Nunca conheci ninguém como ele.
Há alguma razão para Dave Fridmann já não tocar convosco em concerto?
O Dave tocou connosco nalguns concertos recentes mas ele passa a maior parte do tempo em casa com a família. Ele já tem alguns filhos o que o impede de andar em digressão tanto como nós.
As primeiras gravações dos Mercury Rev foram feitas como bandas-sonoras de filmes experimentais. Ainda fazem esse tipo de coisas?
Às vezes. Actualmente não temos tido muitas hipóteses de fazer bandas-sonoras porque os Mercury Rev nos ocupam muito tempo. Mas estamos a pensar voltar a escrever para cinema durante o próximo ano.
No vosso site oficial existe uma mensagem em que autorizam os vossos fans a gravarem os vossos concertos. Porque permitem que se gravem os concertos?
Os nossos concertos são diferentes dos nossos discos. A maneira como tocamos os temas em noites seguidas é diferente de um disco gravado. Por um lado é uma experiência diferente. De qualquer maneira há tanta gente que o faz, que achamos que ao menos deviam ter a hipótese de gravar o concerto da melhor maneira para conseguirem o melhor som possível. Às vezes vemos pessoas com grandes microfones em frente do palco e preferimos que consigam um bom som em vez de esconderem o gravador debaixo do casaco.
Ana Cristina Ferrão, Nuno Castêdo e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 9)
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