Entrevistas
MIGALA
EM VÁRIAS E BOAS DIRECÇÕES
Com a voz cada vez mais ausente na música dos Migala, a banda espanhola descola em direcção a paragens mais vastas e turbulentas. Quatro anos após o lançamento de “Arde”, com a colectânea “Restos De Un Incendio” e visitas a Portugal pelo meio, Nacho Piedra e Abel Hernandez dão a sua visão dos desafios correntes.

“La Increible Aventura” (CD + DVD) é o quinto álbum da carreira dos espanhóis Migala. Nele os tons áridos e a voz sussurrada dos lançamentos anteriores vêem-se, em grande parte, substituídos por guitarras atraídas pelas nuvens, e samples, quer de ruído ambiente, quer de origens mais fílmicas. Algo que o concerto da banda no Porto, em 2003, já deixava antever. O grupo alargou-se a sete membros e procedeu à troca de instrumentos entre alguns dos elementos já existentes. Com um percurso marcado por muitos concertos com nomes firmados e um culto que se vai alargando, Abel Hernandez (voz) e Nacho Piedra (filmes) falam da nova fase da sua carreira, e tentam afastar o mundo dos Migala da esfera de influência de outros ilustres.

Diriam que terem feito uma versão de “My Heart Will Go On” de Celine Dion é o maior desafio até agora na vossa carreira? Que tipo de reacções têm tido? Pensam tocá-la ao vivo?
Abel Hernandez – A canção original tem algo belo, cercado por um monte de coisas feias. A nossa versão é tão boa que agora é uma canção bonita.

Nacho Piedra – Não acho que “My Heart Will Go On” seja o maior desafio na carreira dos Migala. Queremos tocar a canção nos próximos concertos e ver que tal resulta ao vivo. Estamos muito felizes com a canção.

Nos vossos concertos, a projecção de imagens costuma ter um papel importante. É o DVD uma forma de trazer esse ambiente a casa dos vossos fãs? Qual foi o papel da banda na escolha das imagens a usar?
AH – O DVD é o melhor e mais fácil suporte técnico e o ideal para o nosso propósito actual que é fazer música mais imagens. Ou curtas-metragens musicadas, se preferir.

NP – Vemos a imagem como um instrumento, tal como o baixo ou as guitarras. O DVD é um trabalho da banda e cada vídeo tem a sua própria história por detrás. Por vezes alguns de nós davam ideias. Todos contribuíam, todos fizeram algo {para o DVD].

Como é que todas as alterações internas nos Migala aconteceram, em especial a troca de instrumentos entre membros da banda? Foi resultado dos espectáculos, do trabalho de estúdio ou de ambos?
AH – Acho que é um resultado de se estar vivo, fazer escolhas, procurar, ser humano.

NP – As portas estão sempre abertas nos Migala. Queremos ser livres nas nossas decisões e temos a sorte de o ser. O Coque queria tocar guitarra, e comprou uma para começar, e o Rodrigo queria deixar o baixo para trás, o Kieran ficou com ele, e agora toca teclados. Ninguém ficou chateado. O álbum soa diferente por não termos medo de mudanças destas.

A voz vai-se tornando cada vez mais ausente dos discos dos Migala. Consideram-na um elo mais fraco? Ou é apenas desnecessária no tipo de som que exploram actualmente?
AH – Quando recomeçámos, queríamos apenas fazer música sem um esquema prévio e deixávamos a voz entrar se fosse necessário. Por outro lado, queria tocar guitarra e estar independente das vozes para fazer música. Por isso, quando tínhamos a base de uma canção nova, tentávamos cantar. Às vezes funcionava, mas nem sempre. De qualquer modo, acho que a voz é um instrumento excelente, muito expressivo. Não é nem necessária nem desnecessária. Penso que não sabemos exactamente se estamos a explorar algum tipo de som...

As vossas letras costumavam focar-se muito em instantes de solidão, mesmo em lugares com muita gente. Dando maior ênfase à parte instrumental, continuam a tentar transmitir o mesmo tipo de sentimento?
AH – Nunca tinha pensado nisso. Talvez seja verdade. Não sei, mas tenho quase a certeza que transmitimos o mesmo tipo de emoção.

Houve um longo período entre “Arde” e “La Increible Aventura”. O processo criativo do novo álbum foi complicado? A diversidade deste contribuiu para tal?
AH – Não. Aconteceu que os Migala entraram em colapso durante quase um ano. Não sabíamos se íamos continuar. A banda, de certa forma, morreu. Depois, vários meses após termos recomeçado, queríamos tocar juntos e todos tinham ideias novas para a banda em todos os aspectos (criação, organização...). Por isso, metemos uma moeda e recomeçámos.

“La Increible Aventura” dá a ideia de querer atingir um progresso estilístico em diversas direcções. Como é que apareceu esta variedade? Acham que ajudará a afastar as comparações que costumam aparecer nos textos escritos sobre a banda?
AH – Sim! Estávamos talvez um bocadinho confusos. Nunca sabemos muito bem o que estamos a fazer. Não levamos em consideração o tipo de textos que menciona, a sério. Por isso acho que não. Tentamos apenas procurá-lo, tocar (e fazer imagens) com apetite, e viver a nossa própria aventura. E quando, às vezes, encontramos músicas ou imagens que achamos bonitas, e têm a sua origem em nós próprios, apanhamo-las.

NP – Fazemos as coisas que fazemos por nossa causa. Nunca por causa da imprensa, dos fãs ou de quem quer que seja. Tem que acreditar no que se faz, e isso é possível se tivermos as nossas próprias ideias. Neste álbum usámos o instinto para nos soltarmos, fomos em frente e trabalhámos em cada ideia que tivemos.

Certas partes do novo álbum aproximam-se do tipo de som de uns Explosions In The Sky (EITS). Como descreveriam o “Toque Migala” incluído nessas canções?
AH – Acho que os EITS são uma banda cool (e ainda mais simpáticos como pessoas) mas o som deles e dos Migala não têm muito em comum. Não posso descrever o toque, pois não sou jornalista. Esse é o seu trabalho.

NP – É muito difícil falares da tua própria música. Música é música, e para mim não há mais nada a explicar. Há um “Toque Migala”, concordo com isso, mas a única explicação que tenho para o descrever é os seres humanos que estão por detrás. Gosto muito dos EITS, mas não vejo muito em comum excepto a ausência de letras. Acho que “La Increible Aventura” é uma evolução lógica de “Restos De Un Incêndio”, onde os Migala também tocaram canções rock instrumentais.

Muitas canções no novo álbum têm títulos bastante cinemáticos. O disco até começa com um sample da “Guerra Das Estrelas”. Que tipo de filmes e bandas sonoras vos inspiram mais?
AH – Vi para aí cinco filmes por semana. Imagine…

NP – Aconteceu o mesmo comigo. Acho que até vi mais. Mas é sempre complicado falar de inspirações, porque costumam ser inconscientes.

De onde nasce “El Tigre Que Hay En Ti”?
AH – De uma mão cheia de improvisações desconexas.

NP – Como tantas coisas nos Migala, nasceu do nosso puzzle particular.

Vêm alguma equivalência entre os grandes espaços americanos e as zonas industriais que cercam muitas cidades espanholas? Sentem alguma mistura de liberdade e claustrofobia causada pela existência das mesmas? Qual é a diferença entre a areia do deserto, e o pó de tijolo industrial?
NP – Acho que as coisas são mais simples do que tudo isso. Vivemos em Madrid (excepto o Nacho Vegas, que vive em Gijon, no norte de Espanha, e o Jordi, que trabalha nos Estados Unidos), mas isso não tem nenhum significado especial para mim se falarmos em coisas universais como música ou filmes. Não penso sobre o espaço que nos rodeia. Há coisas mais importantes em que pensar.

Que passos futuros pensam dar para continuar a divulgar e promover o novo álbum? O que estão mais ansiosos por conseguir?
AH – Vamos fazer uma digressão para tocar “La Increible Aventura” e algumas músicas antigas e queremos começar a pensar em fazer música e filmes novos. Esperamos começar muito rapidamente.

O que significa para a banda ter um nome com projecção em tantos países para além de Espanha? Como tem o novo álbum ajudado? Que tipo de progresso têm notado desde o lançamento?
AH – Significa algo muito normal no mundo e época em que vivemos. O novo álbum está a sair-se muito bem. Os Migala são hoje alguém no mundo da música alternativa, do Canadá a Taiwan.

Os Mígala têm um vasto currículo de primeiras partes de artistas como Smog, Magnetic Fields, Mark Kozelek ou Will Oldham. Quem, de entre os artistas mais novos, gostariam que fizesse as vossas primeiras partes?
AH – Qualquer um. Excepto se artistas como Dylan, Waits... se puderem considerar “novos”.

NP – Não sei. Qualquer um, acho. Antes de uma actuação gosto de me concentrar... às vezes fico nervoso. Provavelmente perderia a primeira parte, por isso…

Nuno Proença
(Mondo Bizarre # 20)