Entrevistas
MILLENCOLIN
De Dentro Para Fora
Os Millencolin são a história verídica de uma formação oriunda da Suécia que extravasou as fronteiras daquele país e suplantou algumas das convenções mais rígidas do mercado de discos. Em ano de boa colheita rock, os Millencolin editam "Home From Home" e actuam em Portugal. O guitarrista Mathias Färm respondeu à chamada da Mondo Bizarre.

Os Millencolin parecem ser inspirados pela cena hardcore do Sul da Califórnia, designadamente por bandas como Operation Ivy, the Descendants e NOFX. Que outras influências pode juntar?
Nos dias de hoje há muito mais música, somos influenciados por diferentes estilos de música como os Foo Fighters e bandas punk, claro.

Começaram como uma formação que cantava em sueco mas cedo começaram a compor em inglês. Porquê a mudança?
Toda a gente tem algo a mostrar e nós queríamos mesmo tocar este tipo de música, ao estilo do punk rock californiano. Foi, por isso, bastante natural mudarmos para o inglês como forma de expressão porque a música que nós ouvíamos também era cantada em inglês.

'Millencolin' é uma variação fonética duma manobra de skate conhecida como 'Melancholy'. Praticam?
Eu costumava praticar skate, comecei em 1987. Mas, hoje em dia, há tanto para fazer que não tenho muito tempo para isso. De vez em quando, talvez. O mesmo acontece com os restantes membros da banda.

O vosso álbum de estreia, "Life On a Plate", foi lançado através da vossa editora local - a Burning Heart Records. Pode falar-nos da importância desta etiqueta para a música sueca em geral?
Quando nós assinámos pela Burning Heart em 1993, a editora era muito pequena e havia apenas um núcleo de pessoas a trabalhar e a promover as bandas. Crescemos com a Burning Heart e ela é, neste momento, provavelmente a maior editora independente da Europa. E isso é muito importante para nós. E nós para ela.

Mas os Millencolin viriam a tornar-se maiores que a Suécia e a assinar pela Epitaph, que reeditou o álbum para distribuição nos Estados Unidos. Têm muitos admiradores na América?
Sim. Vamos começar uma digressão nos Estados Unidos, é a décima vez que tocamos lá. Temos trabalhado muito e acho que a situação é muito positiva. Mas isso requer muito tempo e muito trabalho.

O vosso quarto longa-duração, "Pennybridge Pioneers", surgiu no início de 2000 e viria a atingir a marca de ouro na Austrália. "Home From Home", o vosso mais recente registo, entrou para o top australiano em terceiro lugar. Consideram este país a vossa segunda casa?
Sim, de alguma forma. Tal como fizemos na América, também na Austrália trabalhámos muito. E a Austrália está tão longe que é gratificante chegarmos a essa posição. Além disso, trabalhamos com pessoas excelentes e adoramos o público australiano.

Os Millencolin tocam em Portugal em Maio. O que podemos esperar do concerto?
Um bom espectáculo. É óptimo porque nunca tocámos em Portugal. Espero que seja uma boa prestação para muita gente e estamos ansiosos por tocar aí.

E quanto ao jogo incluído no vosso último trabalho, é suposto a música ser divertida? Considera um erro que as bandas se levem demasiado a sério?
Sim, por vezes. Nos dias de hoje, a nossa música lida com assuntos que podem ter um fundo de humor. O jogo surge nesse sentido e eu sei que muita gente gostou.

As canções do novo álbum parecem ajustar-se a uma atmosfera mais abrangente e o som parece mais preenchido. Concorda?
Bom, nós estamos nisto há dez anos. Nesta altura, sabemos o que queremos fazer. Estou muito contente com o resultado e considero este o nosso melhor álbum editado até agora.

De que trata o tema 'Punk Rock Rebel'? Pretende ser como que um tributo às inúmeras formações punk que vos inspiraram?
Sim. Na verdade, é um tributo a um velho amigo nosso que muito nos inspirou e nos fez avançar.

'Happiness For Dogs' reflecte, de algum modo, uma certa tensão e uma frustração difíceis de conter. Pode explicar?
Eu não escrevo as canções. Talvez fosse melhor perguntar ao nosso letrista.

E quanto ao politicamente envolvido tema 'Afghan'?
Essa canção tem uma óbvia relação com os recentes acontecimentos no (e a partir do) Afeganistão. Mas é também um ensaio sobre liderança e a consciência de que isso pode acontecer no nosso dia-a-dia, no trabalho. Não é apenas política, debruça-se antes sobre a liderança.

O vosso som tende a combinar um punk simplista, quase primitivo com arranjos mais melódicos. Como conseguem o equilíbrio?
Nós limitámo-nos a escrever as nossas canções. É claro que a melodia é muito importante no nosso trabalho. Tentamos ser originais de forma a moldar a nossa própria sonoridade. É preciso muito tempo até chegar a esse ponto.

Porquê "Home From Home" para título do álbum? Sentem saudades de casa quando estão em digressão fora da Suécia? Ou a música é o vosso lar?
Ambas as coisas. A banda é a nossa segunda casa. Nós passamos muito tempo na estrada, por isso a banda pode funcionar um pouco como o nosso habitat.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 11)