Entrevistas
MOFO
MOFONAUTAS
Nascidos das cinzas dos Thormenthor, os Mofo são uma das boas surpresas deste ano. "Project Mofo" é o registo de estreia desta banda de Almada, apostada em casar o rock com a tecnologia. A Mondo Bizarre conversou com o guitarrista /vocalista D.J Mofo e com o baixista J.P Mofo.

Os Mofo representam um corte radical com o tipo de música que o núcleo do grupo fazia anteriormente sobre o nome de Thormenthor. Quais as diferenças entre as duas bandas e porquê esta mudança de som radical?
D.J Mofo- Pelo facto de o som ser tão diferente, pensámos que seria melhor mudar o nome. As pessoas que entretanto entraram para o colectivo, também tiveram influência nessa mudança. Estamos a usar instrumentos diferentes e novas tecnologias para compor, por isso, todo o conceito mudou.

Como descrevem a vossa sonoridade?
J.P.M.- Precisamente por termos tantas influências, já que ouvimos um pouco de tudo, o produto final é o resultado disso, ou seja, uma mistura de estilos. Temos elementos punk-rock, pop, techno... Há canções mais lentas que entram no campo da música electrónica.

Bandas como os Prodigy, Ministry, Skinny Puppy ou Nine Inch Nails foram influências na elaboração deste disco?
J.P.M.- Não podemos dizer que somos parecidos com este ou aquele grupo. Desde os Beatles que pouca coisa foi inventada. Hoje em dia, há uma grande mistura de estilos e a tecnologia é mais acessível para quem quer fazer música. A evolução natural passa por ir buscar coisas aos anos setenta, e misturá-los com elementos do anos noventa.

Têm um visual bastante cuidado, o que não é habitual de ver por cá. A vossa intenção é demarcarem-se das outras bandas, e atraírem as atenções com trunfos que vão para lá da música?
J.P.M.- Queremos acima de tudo demarcar o que é e o que não é um espectáculo. Ninguém gosta de ir ver um concerto com gajos que ainda há bocado estavam a saír do escritório e que se apresentam em palco como estavam a trabalhar. Um espectáculo é luz, imagem e som. A nossa intenção é criar uma imagem que as pessoas reconheçam como única. Já vi centenas de bandas em que não me lembro dos nomes porque não há nenhuma particularidade que as distinga das outras. Até podem ter um som diferente, mas olho para esses grupos e parecem-me todos iguais.

Não há muitos antecedentes neste tipo de música em Portugal. Há alguns casos como os Bizarra Locomotiva ou Haus En Factor. Consideram que existe espaço para esse tipo de música no mercado Português?
J.P.M.- Em termos de mercado, quase nada é viável em Portugal. Há umas quantas bandas pop, artistas pimba, e quando digo pop, já estou a meter os grupos rock ao barulho, porque não passam de bandas pop com guitarras. Os músicos não vivem dos discos, vivem dos concertos. A tradição já não é o que era, existem cada vez mais grupinhos de pessoas que só gostam disto ou daquilo. Depois há um grupo que ouve um pouco de tudo. São os que não são aceites nesses grupinhos, porque gostam de ouvir tudo. As bandas estão a evoluir mais do que a indústria musical. O mercado evolui conforme a situação económica do país.
D.J.M.- Estamos a marcar a diferença, e isso pode chamar a atenção das pessoas. Muitas bandas portuguesas estão a alterar o som para soarem a nu-metal, ou algo parecido com o que se faz recentemente e que esteja na moda.

As vossas letras denotam uma certa atracção por um universo negro, obsessivo, quase perverso. Há ambientes muito tensos ao longo do álbum. Têm esse tipo de vivência, procuram situações limite ou é tudo ficção?
D.J.M.- A maior parte das letras são pequenas situações ou histórias que relatam momentos vividos por nós ou por outras pessoas, mas os textos são tratados de uma maneira muito surreal.
J.P.M.- O caminho do excesso leva à sabedoria. Eu penso que toda a gente tem uma atracção pela queda. Embora sejam escritas na primeira pessoa, por assim serem muito intensas, não quer dizer que a pessoa que a escreveu esteja a contar a história da vida dela. Retratamos o mundo em que vivemos, estamos todos no mesmo barco.

O tema "Suck Beat" é muito techno e orientado para as pistas de dança. Interessam-se pela "club culture", ouvem esse tipo de música?
J.P.M.- Esse tema tem uma esrutura de canção rock. Gostamos mais desse tipo de música de dança. Mas o nosso baterista, por exemplo, adora trance. Bandas como os Underworld ou Chemical Brothers são bem mais interessantes do que o disco que foi misturado pelo DJ não sei quantos.
D.J.M.- O problema com a música de dança é que sai um disco que as pessoas ouvem durante dois meses, e depois passa à história, é posto na gaveta. É tudo muito efémero.
J.P.M.- Os própios DJ´s fazem a reconversão do material que passam. Há DJs que passavam techno há uns anos atrás, já estiveram no trance mas andavam lixados por causa das pastilhas, e passaram para o house, que é mais cocaína. (risos)

O último tema do álbum, "Test- beautiful ship", é mais calmo, expérimental e com vários andamentos, e funciona como uma espécie de apaziguamento depois de toda a agressividade que caracteriza a maior parte destas canções. São pistas para o futuro dos Mofo?
J.P.M.- Esse tema é tão subversivo ou mais que os outros, só que tem uma roupagem diferente. Acaba por não ser assim tão diferente do resto, só faltam as guitarras e a bateria.
D.J.M.- É um tema que já teve várias versões, inclusivamente, fez parte duma peça de teatro. Para este disco, escolhemos a versão mais simples que consideramos ser a melhor de todas. Soa muito bem com o piano e a guitarra acústica. A letra é para mim, uma das melhores do disco. Se de futuro, é por aí que vamos, não sei. Fizemos algumas experiências em estúdio que acabaram por aparecer no resultado final.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 9)