MOGWAI
HAPPYNESS FOR THE PEOPLE
Com “Happy Songs for Happy People”, os escoceses Mogwai dão mais um passo importante num percurso marcado por alguns dos momentos mais significativos do rock contemporâneo. As gargalhadas contagiosas de Barry Burns são uma amostra do bem-estar que atravessa a banda, mesmo quando produz álbuns tão profundamente tristes quanto este.
Sete anos depois de terem nascido nessa bendita cidade de Glasgow, que serviu de berço a alguns dos mais entusiasmantes grupos de rock dos últimos anos, os Mogwai estão cada vez mais próximos da perfeição, como se pode perceber na audição do novo trabalho, “Happy Songs For Happy People”. Cuidado que o título pode ser tão enganador quanto um anúncio a refrigerantes “diet” ou a combustíveis “amigos do ambiente”. Os Mogwai não se mascararam de Beach Boys e passaram a fazer música para levar para a praia. Pelo contrário, este é talvez o mais profundo e mais belo disco que o grupo gravou até hoje. É triste, mas sublime. É melancólico, mas nada aborrecido. Faltam-lhe as grandes explosões dos concertos ao vivo, mas não deixa de comandar atentados silenciosos ao âmago do ouvinte. Há, segundo relatos, quem chore ao ouvi-lo. Por outro lado, o ambiente que estes rapazes escoceses partilham, enquanto banda, continua a ser, esse sim, bastante animado. O humor, que ganha tons de negro quando brincam com os problemas de saúde do baterista Martin Bulloch, é essencial na relação entre os músicos, ou melhor, entre os amigos. A começar pelo multi-instrumentista Barry Burns, do qual se diz ter entrado para a banda porque fazia os outros rirem-se. E percebe-se porquê, nesta entrevista.
“Happy Songs for Happy People” traz algumas das canções mais melancólicas que os Mogwai já gravaram até hoje, em títulos como “Kids Will Be Skeletons” ou “Killing All The Flies”. Já “Rock Action” era um disco muito calmo, com mais de paixão do que propriamente de acção. Como é que os Mogwai dão títulos aos seus álbuns e faixas? Buscam a ironia?
Estamos apenas a ser sarcásticos. Um dia estávamos a falar com alguém e ela disse-nos que este era o disco mais miserável que ela tinha ouvido. Não são certamente canções felizes (“happy songs”). Não tínhamos um título para o álbum e estávamos quase a terminar as gravações. Então, o Stuart [Braithwaite, o frontman dos Mogwai] perguntou-me se eu estava feliz com o álbum. Eu disse-lhe o que achava do disco e que, sim, me sentia mesmo feliz com o resultado. Então porque não lhe chamamos “Happy Songs For Happy People”, perguntou-me ele e rimo-nos os dois. Sendo um disco tão miserável (risos), o título acabaria por ser engraçado. O mesmo acontece com os nomes das canções. Fazemos primeiro as canções e só depois arranjamos os nomes.
Onde vão buscá-los?
Geralmente, há alguém, numa conversa qualquer, que diz uma coisa engraçada. Logo a seguir alguém se lembra de usar isso para nome de uma canção. Ou então pegamos nas manchetes dos jornais, frases pouco claras que nunca têm princípio e fim e que por isso nos fazem rir. Basicamente, é sempre algo que nos faça rir e que soe bem.
Como é que foi no caso deste álbum?
“Hunted By A Freak” veio de algo que o Stuart disse num ensaio. Não me lembro do contexto, mas creio que me meti com ele e a resposta foi esta: “tu fazes sentir-me como se estivesse a ser perseguido por um estranho”. E todos nos desmanchámos a rir. Costuma ser assim. “Kids Will Be Skeletons” foi boa também. Sabe quem é o Dave Fridmann, que nos produziu “Rock Action”? Os filhos dele iam vestir-se de esqueletos na Noite das Bruxas e mandou-nos um email em que apenas dizia: “os putos vão ser esqueletos”. E nós logo pensámos que era interessante usar isso. O que há mais?
“Killing All The Flies”, por exemplo.
Ah, essa. No ano passado, em casa, eu e a minha namorada notámos que havia muitas moscas. Não conseguíamos perceber porquê. Por acaso, fomos ver por baixo do lava-louças e estava lá uma saca de batatas completamente podres. Por causa disso, a casa estava cheia de milhares e milhares de moscas. Demorei três meses a matá-las [risos]... A história pior e, simultaneamente, mais engraçada, acho eu, é a do “Golden Porsche”. Nós não tínhamos nome para o álbum e pedimos no nosso site para nos enviarem sugestões. “Golden Porsche” foi a pior que mandaram. Não conseguíamos perceber por que é que alguém quereria chamar “Golden Porsche” a um álbum e daí acabámos por escolher o nome para uma canção.
Sei que o Barry não faz parte dos Mogwai desde o início, mas posso perguntar-lhe se o próprio nome da banda é fruto do mesmo tipo de espontaneidade e de humor.
Creio que, na altura, eles não conseguiram arranjar outra coisa melhor. O Stuart achou que Mogwai era um nome porreiro para a banda e ninguém disse mais nada. E é isso que normalmente acontece. Quando ninguém diz nada, os nomes acabam por ficar.
Pondo de parte os vocoders, vocês desistiram, neste disco, das vozes naturais, tal como vinham a experimentar em “Rock Action”. Fartaram-se da voz do Stuart?
[Gargalhada longa] Não, é mais o Stuart que não quer. Acho que ele não gosta muito de cantar. Fica nervoso e não gosta. E a maior parte das pessoas que eu conheço não gostam de cantar em frente ao público.
Mas podiam repetir a experiência com Gruff Rhys [vocalista dos galeses Super Furry Animals, que fez algumas das vozes de “Rock Action”].
Para este disco quisemos ser só nós a fazê-lo. No “Rock Action” havia o trabalho de muitas pessoas. Não era apenas Mogwai. Neste quisemos ser só nós. O John [Cummings] e eu pusemos algumas vozes ao de leve, com muito vocoder. Isso humaniza as coisas, mas ao mesmo tempo não soa humano. É bom ter uma melodia que soe quase humana, mas que não o é exactamente. Gostei muito de usar o vocoder. E a voz é apenas mais um instrumento, não é?
Apesar de não servir letras, a música dos Mogwai consegue ser emotiva e até, de certa forma, espiritual. De onde vem a expressão de emoção? É um de vós que a traz para os ensaios ou é a banda que em conjunto a cria?
Habitualmente, há uma pessoa que tem uma ideia e começa-a tocar num instrumento qualquer, piano, baixo ou guitarra. E continua a tocar, até que os outros se vão juntando. Acabamos por estar a trabalhar numa canção ao longo de semanas ou meses, até que estejamos felizes com ela. Não falamos muito nessas alturas. Apenas tocamos, tocamos e tocamos até que todos estejamos felizes com o resultado. E depois é muito importante que cada um de nós tenha a sua própria alavanca emotiva, como lhe costumamos chamar. Pessoalmente, acho que o Martin [Bulloch], o baterista, acrescenta tanto à banda porque tem esta força toda... [o baterista dos Mogwai sofre de um problema no coração que o obriga a usar pacemaker]. Ele não é rápido e não quer tocar músicas rápidas mas ele acrescenta qualquer coisa que outro baterista não acrescentaria. É único.
Há uma tendência nos vossos discos mais recentes para uma abordagem mais calma, mais suave, por oposição aos vossos concertos, que mantém um grande nível de volume sonoro e ruído. É-vos mais difícil conseguir libertar aquela atmosfera ruidosa e pujante em estúdio?
Neste disco, gravámos canções que nunca tínhamos tocado ao vivo. Ainda experimentámos duas, mas não resultaram muito bem. As canções evoluem para uma forma completamente diferente daquela do disco. Neste momento, há algumas canções no disco que eu gostaria de poder voltar atrás e gravar, pois soam muito melhor agora ao vivo. Mas não é difícil para nós fazermos ruído ao vivo, pois temos o volume do nosso lado e isso é algo que não podemos ter nos discos.
Mas, ainda assim, o EP “My Father, My King” capturava uma parte do que os Mogwai conseguem ser ao vivo. Seria o toque do Steve Albini [produtor do EP]?
Acho que sim. Nós gravámos o tema ao vivo, no estúdio. E ele fez aquilo soar como se fosse mesmo ao vivo num palco.
Pensaram nele para voltar a produzir o novo disco?
Não muito, creio. Temos que olhar para a frente e prosseguir. Se quiséssemos fazer um álbum verdadeiramente potente, talvez voltássemos a falar com ele. Mas não sei.
E editar um álbum ao vivo? Já pensaram nisso?
Sim, sempre. Mas, todas as vezes que gravamos um concerto, este sai mal porque sabemos que estamos a ser gravados. (risos) Talvez alguém deva gravar um concerto dos Mogwai e não nos dizer que o fez, porque nós ficamos sempre muito nervosos. (risos)
Pondo de parte o EP “My Father, My King”, os temas incluídos nos vossos últimos trabalhos nunca vão além dos cinco, seis minutos, ao contrário do que acontecia no início.
Na verdade, algumas das canções que entraram no disco eram muito compridas e nós cortámo-las. Depois de as termos tocado tantas vezes, ficámos com a ideia que elas soavam era a canções curtas. Acho que é mau deixarmos as canções crescerem em demasia sem necessidade. É que não havia agora nenhuma canção como “Ex-Cowboy” [do álbum “Come On Die Young”], que tem muitos mais acordes. Não nos deixámos embarcar em coisas demasiadamente longas. Isso não quer dizer que não venhamos a fazer no futuro outro disco com canções longas.
Esteve envolvido na banda-sonora do filme “Young Adam”, com David Byrne, que comandou as operações, e outros músicos de Glasgow. Como é que correu?
Muito bem. Foi um óptimo “abrir de olhos”. O David dava-nos algumas ideias sobre aquilo que pretendia de nós e deixava-nos a mim e ao Johnny [Quinn], dos Snow Patrol, a tocar durante horas. Foi muito divertido. E acho que os Mogwai podem fazer uma coisa assim.
É verdade que o David Byrne vos dava um conjunto de notas para vocês tocarem na ordem que entendessem?
Sim, para uma ou duas coisas. Ele nem sempre nos dava indicações. Outras vezes, pedia-nos, por exemplo, para fazermos um som parecido com água, para uma das cenas, e nós não sabíamos como fazer. (risos) Foi muito divertido.
Os Mogwai já alguma vez foram convidados para gravar uma banda sonora ou terem a vossa música num filme?
Já tivemos algumas canções em curtas-metragens, mas nada mais do que isso. Já fomos convidados para fazer grandes filmes, mas, ao último minuto, o convite caía. As pessoas que punham o dinheiro nos filmes nunca tinham ouvido falar dos Mogwai e não nos queriam. Em vez de quererem trabalhar de um ponto de vista artístico, trabalham de um ponto de vista monetário e de um ponto de vista do sucesso. É difícil fazer alguma coisa.
Ainda mantém o desejo de gravar um EP com versões dos Guns’n’Roses?
Não. Pensámos bem e achámos que ia ser uma ideia terrível. (risos) Acho que acabou por ser apenas uma piada.
Há mais ideias terríveis como essa na calha?
De facto, vamos fazer um disco de música tradicional escocesa. Talvez não seja, de facto, uma ideia assim tão má, mas vai ser muito difícil para nós. Há também um pintor, chamado Steve McQueen, que quer fazer uma coisa de música e pintura na Tate Gallery ou noutra galeria de arte de Londres, no próximo ano. Temos que fazer vinte e cinco minutos de música. E acho que o Kronos Quartet quer também fazer alguma coisa connosco. Há muita coisa a aparecer.
Vão tocar no Montreux Jazz Festival [que já ocorreu na altura da publicação desta Mondo Bizarre]. Como é que se vêem a tocar com Simply Red, Yes ou ZZ Top, num festival de... jazz?
(Risos) Não sei. É muito estranho. Acho que nós o decidimos fazer para ter maior exposição. Mas é uma ideia muito estranha. Nós nem sequer temos muita relação com o jazz.
No início deste ano, o vosso baterista, Martin, leiloou o seu pacemaker usado, tal como se fosse uma peça de “memorabilia” dos Mogwai. Como é que correu?
Ele vendeu-o aí por umas 260 libras [quase 400 euros] e doou o dinheiro à Heart Foundation, aqui da Escócia. Eu não sei como ou porquê que alguém comprou aquilo. (risos) É muito esquisito, alguém querer ter um pacemaker usado. Tinha sangue e pedaços de tecido e tudo. (risos)
É um pouco estranho ter um baterista que usa – infelizmente, é certo – um pacemaker, um mecanismo que gere o seu mais íntimo ritmo. Será ele meio baterista, meio caixa de ritmos?
É, ele é biónico. (risos) Nós pensamos que, à medida que ele foi envelhecendo e que a bateria do pacemaker foi ficando mais gasta, que viesse a tocar cada vez mais lentamente (gargalhada). Mas deve ser só imaginação. Não acho que ele tenha abrandado o ritmo.
Apesar do seu currículo musical escolar, e de tocar vários instrumentos, o Barry entrou nos Mogwai, segundo diz o Stuart, porque os fazia rir.
Eu sei. Foi o que ele me disse. Na altura, comecei por tocar flauta, mas deixei-a depois para tocar outros instrumentos. No minuto em que me juntei à banda, senti-me logo parte dela. Eles foram muito acolhedores e tem sido muito fácil para mim adaptar-me a este tipo de música.
É capaz de se recordar da coisa mais idiota que fez num concerto dos Mogwai?
A pior coisa que eu fiz foi tocar um solo de flauta. (risos) Tomei algumas drogas e depois pensei que seria boa ideia tocar um solo de flauta no Bowery Ballroom, em Nova Iorque. (risos) Uma semana depois lemos uma reportagem do Village Voice que dizia: “Será que precisamos realmente de um solo de flauta num concerto de rock’n’roll?”. Nós achámos graça a tudo isto, mas foi de certeza a situação mais embaraçosa pela qual passei. Por causa disso não tomo mais drogas antes de um concerto. Nem sequer bebo. Tornei-me profissional por causa desse erro. (risos)
Para terminar, ainda estão aborrecidos com a derrota do Celtic frente ao FC Porto na final da Taça UEFA?
Oh, isso foi tão mau... Nem consigo acreditar. Estou tão chateado porque eu julgava que íamos mesmo ganhar e não foi isso que aconteceu.
Alguma vez tocarão no Porto?
(Risos) Bom, também não vamos tão longe... Mas talvez possamos cobrar um dinheiro extra às pessoas. (risos) E pôr o PA no volume mais alto possível. (risos)
Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 16)
| | |