Entrevistas
MONDO GENERATOR
O CLUBE DOS AMIGOS DE NICK
“A Drug Problem That Never Existed” é o segundo álbum da banda paralela de Nick Oliveri, o baixista dos Queens Of The Stone Age. Menos linear que o trabalho anterior, “A Drug Problem That Never Existed” é mais um capítulo na versátil produção da família “Stone Age”. A conversa com Nick Oliveri.

A sermos justos, teríamos que dizer que os Queens Of The Stone Age é que são um projecto paralelo aos Mondo Generator, já que a génese destes é anterior à da popular banda liderada por Josh Homme. Nos derradeiros dias de vida dos Kyuss, Nick Oliveri arregimentou dois dos seus amigos mais chegados e companheiros de jornada, Josh Homme e Brant Bjork, meteu-se num estúdio e gravou um punhado de canções. Sempre irrequietos, Homme e Oliveri fundaram os Queens Of Stone Age e concentraram a maior parte da sua energia na nova banda. Entretanto, as fitas da gravação do álbum dos Mondo Generator iam ganhando pó. Até que, um dia, Oliveri ouviu-as novamente e achou que tinham qualidade para ser editadas. “Cocaine Rodeo”, um disco atrofiante, pesado, mal disposto e não exactamente brilhante, viu a luz do dia em Julho de 2000. Desde essa altura muito aconteceu na vida de Oliveri. Os Queens Of The Stone Age tornaram-se numa grande banda rock, com digressões ininterruptas pelos quatro cantos do mundo, o seu terceiro álbum, “Songs For The Deaf”, foi coroado “melhor álbum rock” de 2002, por todo o lado e a fama bateu-lhes à porta sem pudor. No meio do frenesim dos Queens Of The Stone Age, Oliveri conseguiu tempo para escrever e gravar as canções do segundo álbum dos Mondo Generator. Bastante superior ao seu antecessor, “A Drug Problem That Never Existed” pisca os olhos a “Songs For The Deaf” e exibe despudoradamente as influências de Oliveri. Entre muitas outras é possível descortinar vestígios dos Kinks (“Here We Come”, “Detroit”), David Bowie, era Ziggy Stardust (“All I Can Do”), Motörhead (“Girls Like Christ”) e Sex Pistols (“Jr. High Love”).

“Cocaine Rodeo” era um disco mais denso e menos variado do que o novo álbum, que é um trabalho mais luminoso, eclético e alegre. A que se deve tão grande diferença?
Bem, por estranho que possa parece, no primeiro eu reuni uma banda, com músicos que me são chegados, para a gravação do disco. O segundo foi feito com amigos a entrar e a sair do estúdio. Gravei as guitarras, o baixo e as vozes sozinho. Essa é a principal diferença entre os dois álbuns e julgo que isso se reflecte no modo como soam as canções. “Meth I Hear You Calling” é um pouco como “You Think I Aint Worth A Dolar But I Feel Like A Millionaire”, de “Songs For The Deaf”, uma espécie de aviso que diz: “vai-te embora. Mas se não fores, e ultrapassares esta canção serás recompensado”...
(Risos) Sim, sim. Nós gostamos de brincar e de tornar as coisas um bocadinho difíceis. De testar as pessoas. Mas pelos vistos, a julgar por “Songs For The Deaf”, nem toda a gente se assusta. (risos)

Por outro lado, há canções muito calmas, como “The Day I Die”, onde há apenas uma guitarra acústica e a sua voz.
Sim. Desta vez decidi dar mais importância à voz, ao modo de cantar e às partes de guitarra. Ainda que não tenha conseguido fazer as coisas mais complicadas na guitarra, nem os solos, coisas para as quais convidei os meus amigos.

Estou enganada ou “Here We Come” é construída a partir de “All Day And All Of The Night”, dos Kinks? Está absolutamente certa. Eu adoro os Kinks. Eu tentei disfarçar e ver se não soava muito evidente, mas é-me impossível esconder o quanto os adoro. (risos)

A última canção do álbum é “Four Corners”, cantada por Mark Lanegan. Mais uma vez, somos remetidos para “Songs For The Deaf”, pois tal como com “Mosquito Song”, toda a toada do álbum se transforma no último tema.
Penso que se pode dizer isso, pois, de certo modo, ambas as canções têm o mesmo tipo de ambiente. E o facto de ambas estarem no fim dos discos faz com que pareçam ainda mais idênticas. Eu considero-a a melhor canção do disco, a mais rica e com melhores texturas. É uma canção que, depois de se ouvir o álbum todo, nos transporta para um outro lugar. E adoro a maneira como o Mark a canta. Eu nunca conseguiria cantar assim.

O primeiro álbum dos Mondo Generator chama-se “Cocaine Rodeo” e o segundo “A Drug Problem That Never Existed”. Há algum significado especial nessas escolhas?
Não exactamente. Escolhi o nome do primeiro disco um pouco como uma piada a toda a questão à volta do stoner rock. O do segundo acabou por ser uma continuação dessa atitude. É um título, tal como o anterior, que pode ser entendido de um modo literal, mas que, na verdade, não tem muito que ver com drogas. São ambos uma brincadeira.

Há alguma temática dominante no álbum? As letras parecem ser todas sobre “amor e partida”...
Sim… são todas um pouco tristes e sobre coisas que me aconteceram [Nick Oliveri divorciou-se durante a concepção do álbum]. Escrevi sobre coisas que fiz e o que esses acontecimentos significaram para mim. Mas nem tudo é assim tão negro ou tão literal. Há letras irónicas. A ironia é uma boa maneira de falar de coisas desconfortáveis.

Brant Bjork, [baterista dos Kyuss e Fu Manchu], e um dos elementos originais dos Mondo Generator, voltou, desde que optou por formar uma banda para concertos, a ser um dos elementos centrais do grupo. O que levou a isso?
Sim, ele é mais um dos meus velhos amigos. Quando decidi formar uma banda para me acompanhar ao vivo, o Brant foi uma escolha óbvia. Também convidei a Molly [Maguire dos Earthlings?] e o Dave [Catching, dos Queens Of The Stone Age, Earthlings?] porque os conheço há muito tempo e porque eles formam uma espécie de “casal musical” de que gosto muito.

O disco anterior foi inteiramente produzido por si. Desta vez optou por requisitar os serviços de Blagh Dalia e Brad Cook. Sentiu a necessidade de trazer para os seus discos ideias de terceiros?
Eu já tinha trabalhado com o Blagh e com o Brad noutros projectos e sempre quis que o Brad produzisse um disco dos Mondo Generator. Apesar de o disco ter sido produzido por eles os dois (e também, em parte, por mim), o Brad é que acabou por ser o principal responsável pela produção do álbum. Ter outras pessoas a trabalhar na produção permite-me maior liberdade para me dedicar à parte de composição. Não tenho que estar tão preocupado com todos os detalhes inerentes à produção. O Blagh acabou por se tornar co-autor de algumas das canções do disco e acho que isso também acrescentou uma maior diversidade ao álbum.

Em “Cocaine Rodeo” aparece como Rex Everything. No novo disco surge com o seu nome verdadeiro mas mantêm Rex Everything como um dos convidados. E o Josh Homme também aparece em nome próprio e como Carlo Von Sexron. Porquê?
(Risos) Achei que em algumas canções seria engraçado esconder-me e deixar o meu alter-ego aparecer. O Josh também alinhou e divertimo-nos imenso com isso. Além do mais, assim parece que há muita gente diferente a tocar no disco. (risos)

Os Queens Of The Stone Age transformaram “Thirteen Floor”, uma das canções de “Cocaine Rodeo”, em “Tension Head”. Das novas canções dos Mondo Generator alguma vai ser modificada pelos Queens?
Não sei... No futuro os Queens vão ter cada vez mais canções para tocar. Estivemos a falar sobre isso e talvez aconteça. Eu gostava que pegasse-mos em algumas das minhas canções e as usássemos nos Queens porque gosto de as mostrar e essa é uma boa maneira de o fazer. Neste disco repesca duas canções escritas para as Desert Sessions, “Jr. High Love” e “The Day I Die”. Porquê?
É um pouco a mesma situação que aconteceu com a “Thirteen Floor”. Escrevi essas canções e, na altura, foram usadas nas Desert Sessions, agora quis dar-lhes uma outra perspectiva e fazer com que chegassem a mais pessoas. Uma das vantagens de ter vários canais para mostrar as minhas canções é que as posso ir aperfeiçoando. Claro que só o faço se gostar muito delas. Mas, de qualquer modo, não costumo gravar coisas de que não gosto. (risos)

Sendo baixista, não se importa de ter outra pessoa a tocar as suas linhas de baixo? Ainda para mais em canções escritas por si...
Não, não me importo de ter outra pessoa a tocar as minhas linhas de baixo. No disco, a quase totalidade das linhas de baixo é tocada por mim – a Molly toca apenas num par de temas –, mas ao vivo, como queria estar solto para cantar, precisava de ter alguém para tocar baixo. E há outra grande razão para eu ter optado por ter alguém para tocar baixo nos Mondo Generator: torna as coisas muito diferentes do que faço nos Queens Of The Stone Age. E eu queria a todo o custo que os Mondo Generator fossem, pelo menos para mim, diferentes dos Queens.

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 16)