Entrevistas
MONO
MÚSICA PARA EMOÇÕES
Os Japoneses Mono, que recentemente editaram o álbum “One Step More And You Die” (ver secção de críticas) vêm tocar a Portugal já nos próximos dia 25 e 26 de Março. Dia 25 o quarteto actua em Lisboa, na galeria Zé dosBois, e dia 26 no Porto, no Meu Mercedes é Maior Quer o Teu. A conversa com Takaakira Goto, guitarrista do grupo.

O que levou os membros dos Mono a seguirem uma carreira musical em vez de enveredarem por outros caminhos?
Para nós, a música é o único meio genuíno de comunicarmos com os outros, e a música permite-nos exprimir qualquer tipo de sentimento genuíno. Nascemos e crescemos no Japão, um país excessivamente populado e com uma cultura muito diversificada. Chega-nos muita informação de todo o mundo através dos Media, a TV é ainda um meio dominante que controla o que é e o que não é cool. Se não se estiver consciente do nosso próprio “ser” é fácil perdermos os nossos gostos pessoais. Não há muito espaço para se exprimir gostos pessoais ou para expressões de arte. Assim, a música foi-nos essencial para podermos crescer nesse tipo de ambiente.

Quais são as suas memórias musicais mais queridas? De que forma se relacionam com o facto de os Mono serem uma banda instrumental?
Não foi a música. Alguns anos antes de começar os Mono vi o filme “Breaking The Waves”, de Lars Von Trier e, enquanto o via, senti uma enorme necessidade de exprimir as alegrias e tristezas da vida através da música, do mesmo modo que o filme fazia.

Disse numa entrevista que a razão porque fazia música nos Mono tinha que ver com garra e com a necessidade de deixar as emoções desenvolverem-se. Acha que os sons dos instrumentos fazem isso melhor do que a voz?
Sou muito influenciado por filmes e talvez isso seja uma explicação. Gosto de deixar um certo espaço na nossa música para que o ouvinte possa trazer a sua própria vida ou as suas emoções para a música. Um espaço para o ouvinte interpretar a música à sua maneira. Desse modo julgo que a voz ou as palavras não são necessárias. Depende de cada um o que sente nos nossos concertos, mas muitos fãs estrangeiros têm-nos dito que uma ida a um concerto nosso provou uma mudança nas suas vidas. As expressões que utilizam são, por exemplo, “para além da descrição”, “impossível de explicar por palavras”, etc. Eu quero explicar esse inexplicável através da música.

Apesar de serem uma banda japonesa os Mono têm na sua música uma dimensão universal. Sente alguma relação com bandas japonesas como Acid Mothers ou Boredoms? Ou sentem-se mais próximos da abordagem de grupos como Tarentel, Mogwai ou GY!BE?
Todas as bandas de que fala são grandes bandas e costumo ouvir os seus álbuns. Mas são de gerações diferentes. Nunca conheci pessoalmente nenhum membro dessas bandas, incluindo as que vivem no nosso país. Penso que os Mogwai e os GY!BE são bandas extremamente importantes do panorama musical, pois contribuíram para tornar o rock instrumental mais popular do que nunca e os Tarantel são nossos companheiros de editora nos EUA.

O que inspira os Mono no seu processo criativo? Imagens, música de outros, emoções, ou pedaços da vossa memória?
As emoções em primeiro lugar. Nos últimos tempos temos viajado muito e escrevemos a nossa música enquanto estamos em digressão e, no último ano, tivemos a sorte de conhecer muitas pessoas de diferentes países. Essas experiências fizeram-nos pensar na paz mundial, na guerra, na esperança, nas contradições da natureza humana e na fraqueza e fealdade do desejo humano.

Como descreveria os concertos dos Mono? Como articulam ao vivo as canções mais agressivas com as mais calmas? Notam mudanças na cara das pessoas à medida que vos vão ouvindo?
Gostamos que os nossos concertos sejam vistos como um filme que se desenrola à volta de um tema. Queremos que sejam como um dia da vida das pessoas, ou a sua vida inteira, com alegria, raiva, tristeza, silencio, com todos os aspectos da vida. As pessoas ouvem os nossos concertos em silêncio, enquanto prestam atenção ao som. No fim do concerto, algumas gritam, outras choram, ou erguem os braços.

Gosta de música contemporânea ou de bandas sonoras? Sinto alguma familiaridade, como se as pessoas vivessem dentro da vossa música...
Obrigado. É bom ouvir isso. Gosto de bandas-sonoras e ouço-as constantemente.

José Marmeleira
(Mondo Bizarre)