MOONSPELL
OS LIVROS E A LITERATURA
A Mondo Bizarre entrevistou o vocalista dos Moonspell, Fernando Ribeiro, num contexto fora do habitual. Para muitos esta entrevista pode ser uma chatice, para outros vai, de certeza, ser uma surpresa.
A necessidade de escrever vem da vontade de deixar escrito algo para os outros lerem, ou é uma coisa interior?
Na visão mais romântica preferia dizer que é mais uma necessidade interior. Uma pesssoa torna-se mais global ao escrever muito. A capacidade e a noção do registo começa a ser mais importante. Depois de quatro discos a escrever sobre diversas coisas, de várias maneiras, penso que a capacide do registo, não só enquanto sedimento, vai ficar para outrém. O registo é muito mais importante para uma pessoa que escreve numa base regular. É um desafio conseguir pôr no papel todas as ideias e todos os conflitos entre a ideia e a palavra. O "Butterfly Effect" foi um álbum extremamente difícil de escrever porque existia um grande conflito entre um excesso de palavras e pouco assunto. Havia palavras que eu realmente queria usar, palavras chave que se relacionavam com a minha própria conceptualisação. As letras estão divididas entre o muito complexo e o muito linear. Escreve-se primeiro, tal como se compõe música, por necessidade primária, interior. A capacidade do registo e a de comunicar, ou ter um receptor, acaba por ser importante mas de notas, "postedes", computador, disquetes. Um dos grandes problemas de escrever letras são as métricas e as rimas, que os letristas, às vezes, veêm como obstáculo. As minhas letras são escritas, por elas mesmas, mas também para serem interpretadas visual e musicalmente. Nos Moonspell, quer nas músicas quer nas letras, trabalhamos muito com um foco para o qual se dirige a nossa energia. Há muitas bandas que começam pela improvisação, pelo vazio. Nós ainda não o conseguimos. Prende-se com a dificuldade de arranjar uma coisa que não está enraizada em lado nehum, em trabalhar com focos que são muito pouco definidos para se materializar em qualquer coisa a que possamos chamar uma canção com letra e música.
Traduziu e usou o "Mal de Cristo" do Burroughs. Acha que o significado é o mesmo em Rimbaud, quando clama "Ó Cristo! Ó Cristo! Eterno ladrão de energias". Ou em Nietzsche ao dizer que o Cristianismo é a causa da fraqueza do homem. De tanta gente ter morrido e matado por causa de Cristo?
Nunca pensei muito bem nessa comparação. O Nietzsch era muito mais um redutor da religião, até em termos de filosóficos. O Rimbaud já tinha uma perspectiva mais selvagem, (era uma pessoa poética), do Cristianismo e da religião. O William Burroughs é uma pessoa que, para além de toda a quebra de leis que trouxe à própria linguagem, à própria maneira de escrever, porque muita da literatura moderna, essencialmente a contemporânea americana, é influênciada por esse "no sense" com muito sentido. Burroughs não pode sofrer muitas comparações entre assuntos. Ele desmonta-os com uma ironia atroz. "O Mal de Cristo" é um exemplo disso. O Burroughs é um dos escritores mais híbridos e mais difíceis de compreender. "O Mal de Cristo" é de um livro editado póstumamente, "O Fantasma de uma Opurtunidade". Há uma parte do livro que fala sobre a doença, uma das grandes recorrências dele, em que surgem doenças practicamente inventadas. Uma delas é "O Mal de Cristo". Não tanto a figura, real ou mitológica de Cristo, mas a interpretação que se faz do Cristianismo, como a Caridade Social, o auxílio dos outros visando uma promoção social. É essa a interpretação que eu tenho do Burroughs. Ele faz isso de uma maneira completamente grotesca com o "O Mal de Cristo", onde todas as pessoas sofrem de um messianismo agúdo. O tal foco para esta música, passa por este "Mal de Cristo", como doença e como exagero da Caridade Social, mas também por um programa de rádio, penso que da Rádio Miramar, da Igreja Universal do Reino de Deus em que as pessoas telefonam para agradecer carros, almoços. Coisas comuns em que se revela, claramente, o lado material da religião. Um dia, numa das muitas noites sem dormir que tivemos em estúdio, juntei isto tudo, não só influênciado pelo texto do Burroughs mas também pelo spoken word que ele fez com o Kurt Cobain, "The Priest, They Called Him", que tem imensos feed-backs e improvisações de guitarra feitas pelo Kobain, e depois aquela voz excelente, monocórdica e bastante expressiva do William Burroughs a ler os seus próprios textos.
Uma das letras, das tais que têm muito poucas palavras, "Disappear Here", é baseada em Bret Easton Ellis. A percepção que tenho é de que é mais centrada em "Menos Que Zero" do que em "American Psico" ou "Glamorama".
É do "American Psico". O "Disappear Here" foi o que mais me impressionou no livro. É o out-door onde se lê "disappear here". Dá a sensação do desconforto, do vazio, da passagem para algo desconhecido. No "Glamorama" o "disappear here” está explorado de uma maneira brutal, quase satânica, com os pentagramas, aqueles vultos, aquelas sombras. Foi isso que me levou a por isto nos Moonspell. O "Disappear Here", como muito do que está no álbum, tem um sentido simples, mas não estático. É aberto a interpretações, tal como o out-door do livro. É baseado naquela sensação, que as pessoas anulam um bocado, - mas que é das coisas mais recorrentes, de todos os minutos, de todos os segundos, - que é o sentir-se desconfortável fisica ou psicologicamente. "Disappear Here" é um pouco sobre isso e também sobre o desejo de desaparecer por um momento. Depois de escrever as letras, passo por aquele período de as ter ruminado, de as ter cantado, de as ter feito, descobrindo estas motivações muito simples. Por isso digo, que esté é, talvez, o álbum mais alucinante, liricamente, mas também o que tem mais ramificações para uma certa realidade, de vez em quando bastante comezinha e prática, como a figura do vigilante, a borboleta que está na capa, o "Eternal Spectator". Leio o Ellis por essa capacidade de expor o desconforto. Para além de expor toda aquela violência, toda aquela brutalidade inerente, que pode explodir a qualquer momento. O "American Psico" é completamente explosivo nesse aspecto. Gosto muito das recorrências do Ellis, do choque entre a normalidade e a violência. Nunca nenhum livro dele me desiludiu. É um autor que vou continuar a guardar na prateleira e a apreciar. Talvez o use como referência no próximo disco, ou nos seguintes.
Fiz uma síntese, das abordagens das vossas letras, ao longo dos discos: nos primeiros trabalhos há referências às divindades pagãs da ancestralidade lusitana, segue-se uma fase a que chamo das "criaturas da noite", vampiros, bruxas, depois um certo cantar do Decadentismo do século XIX, como no "Opium", mas que tem sempre um certo desespero, uma atração pela aniquilação. Este último disco é talvez o mais complexo, mas como já referiu, o que contém mais coisas comezinhas. Concorda?
Sou extremamente influênciado e sempre tive tendência para pegar em grandes chavões, como o ópio, associado ao decadentismo, o Fausto do Goethe, os lobos, os vampiros.
Há sempre referências identificáveis. Apesar de "Butterfly Effect" ser o disco com dados menos evidentes para a generalidade das pessoas.
Sim. Este é um álbum disperso. Não tem referências tão óbvias como o "Vampiria" ou "Mephisto". Tem que ver com a evolução dos membros da banda, com o meu crescimento e a minha procura de novas fontes, essencialmente literárias. De uma coisa sempre tive a certeza: o dialogar com a obra. Isso foi sempre muito importante. A simples leitura é a melhor maneira de retirar aquilo que realmente é importante, que é a alteração da vida, ou da perspectiva pela leitura, pela escuta ou pelo visionamento de qualquer obra artística. Cheguei a um grande chavão que é: a literatura vai ser uma das minhas grandes fontes de inspiração para todas as minhas letras. Leio do "Homem Aranha" até Bret Eston Ellis ou Verlaine. O "Wolfheart" foi todo direccionado para marcar território. Foi extremamente importante recorrer-mos a este passado pagão, que ainda hoje é muito desconhecido e muito substimado em Portugal. Tinha a haver com as pessoas que estavam na banda, nessa altura, nomeadamente o João Pedro e o João que eram adeptos destas coisas, apesar de ser eu que traduzia a pesquisa deles numa letra. O "Irreligious" foi a tal passagem para uma cultura mais clássica. Dos rituais "Full Moon Madness" ao "Mephisto", uma das letras que me saiu melhor, baseada num livro, o "Fausto" de Goethe. É um mito muito antigo e comparo-o a Prometeu. O disco é um pouco um bestiário que foi quebrado com a perpectiva mais filosófica do "Sin", um álbum muito ligado à personalidade e à religião, duas coisas sobre as quais andava para escrever há muito tempo. Essencialmente, influênciado por Hegel, Feuerbach, Nietzsche, todas as filosofias que reduzissem de uma maneira ou de outra a religião, e por outro lado, como forma de contraste de filósofos como Decartes que preveligiavam a relação entre a Razão e a Fé. Este disco é mais sobre o que me rodeia. Sobre a importância do insignificante, do desconforto, a inadequação, a confusão, etc. Gosto sempre de uma aproximação, que não tem que ser moderna ou clássica, mas pessoal. No "Butterfly Effect" e um pouco no "Sin", já estava muito influênciado pela cultura beatnik. Acabei por fazer "O Mal de Cristo", como uma espécie de cut-up entre música, emissão de rádio, feed-back e quase "spoken word".
De um conjunto de palavras muito usadas na literatura, na filosofia e na cultura clássica escolhi: Amor, Morte, Paixão, Dor, Auto-Mutilação, Honra, Guerra, Tragédia, Loucura, Suicídio, Desaparecer e A Grandeza da Imortalidade. O que é que isto lhe diz? Para mim são palavras que se aplicam às letras e ao universo dos Moonspell.
São refrões. Palavras que se tentam explicar, não por aquele intento de interpretação ou pela hermenêutica da coisa, mas pela tentativa de exorcismo, de catarse, de no meio desses destroços, conseguir compreender o que aquilo significa naquele momento. São coisas eternas que valem exactamente pelas suas manifestações momentâneas. É um resumo de muitas coisas que existem, não só nas minhas letras, mas também na literatura de que gosto e com que me identifico. Claro que vão ser sempre recorrentes quer na literatura quer nas letras dos Moonspell. São grandes clichés que têm, ao contrário de coisas mais concretas ou especificas, uma dimensão para escrever sobre. Um campo aberto ao qual se pode sempre acrescentar algo. Coisas que se vivem e não que se aprendem. A minha escrita, em termos de estilo, tem mais que ver com o Decadentismo. A corrente em termos de rima e de métrica com que mais me identifico. Estes temas não podiam faltar, e vão surgir sempre por oscilarem entre o muito obvio e o nada obvio. Toda a gente escreve sobre isso. Resta, a cada um, inscrever a sua própria experiência nisso. Para falar destes temas é necessário ir ao pessoal. Nunca se pode falar disto numa perspectiva abstrata.
Uma das suas referência literárias é Eça de Queiroz. O que me deixou curiosa, já que, actualmente, não é personagem habitualmente citada. Acha que nos faz falta uma voz super crítica e realista como a dele?
A literatura contemporânea portuguesa não é uma das minhas preferências literárias. Não sei se faz falta um Eça. A maneira como a classe política e social se organizou, não está muito premeável à influência de um livro ou de um manifesto. As pessoas não precisariam de um segundo Eça. O primeiro basta. É talvez o escritor mais actual daquela época. Livros como "A Cidade e as Serras", "A Capital", todas as crónicas da vida moderna, palavras como a verborreira, o politiquero, e outras que ele inventou e que usamos sem saber o nome do autor. Como leio muito Eça, comparo e transfiro automáticamente para a nossa época, quando vejo um discurso, uma motivação, uma interpretação. É de uma actualidade quase arrepiante. Penso que as pessoas se afastam do Eça pelo seu grande poder de descrição minunciosa. O Eça relata, ainda que de um modo leve, uma das coisas que mais aprecio na Literatura: um certo desconforto. Apesar de o Eça não caber muito na minha ficção literária, relacionada ou não com Moospell. É mais uma referência pessoal. Ganhei vicios a lê-lo, como a água com gás, só do Castelo ou Perrier, da célebre descrição das águas do "Civilização/A Cidade E As Serras".
No "All American Tour", ao falar do concerto de Detroit fala dos fãns que têm tatuagens baseadas no imaginário dos Moonspell. Acha que os vossos fãs também têm alguma identificação com os seus gostos literários, com as letras do grupo, ou é mais uma coisa visual?
Depende do fã e da altura em que começou a ouvir Moonspell. Conheço pessoas que deram atenção ao Álvaro de Campos, ao Patrick Suskind, ao William Burroughs, cujos livros começaram a ler, por causa de Moonspell. Cheguei a muitas coisas em, termos literários, através de outras bandas. Esse foi um dos grandes objectivos, e se calhar dos mais ambiciosos, que tivemos como Moonspell. Há pessoas que partilham e enaltessem essa componente literária, e depois passam para os seus próprios gostos e interpretações. Já houve quem me tenha dito que a sua vida mudou, após ler Álvaro de Campos, em particular a sua veia mais urbano-depresiva. Quanto às tatuagens foi uma coisa completamente "fora". Já tinhamos visto pessoas com o olho de Hórus, com a capa do "Wolfheart", mas em Detroit aglomerou-se um grande grupo de pessoas que tinham tatuagens feitas a partir de símbolos de Moonspell.
E, já agora, o livro que anda a escrever. Já o começou, voltou a trás, parou. Em que ponto está agora e qual é o tema?
Sempre quis escrever um livro. Mais do que fazer música. Isso não é segredo para ninguém. E começei logo por um romance que já iniciei, já dei a volta... Tenho cometido o erro de ler muitas coisas. Cada coisa que leio não me faz bem, não me deixa congelar certas ideias. Depois de várias procuras de assuntos, encontrei um título, "O Re-Animador", que me levou a uma estória que deslocava Cristo e os seus doze apóstolos (no meu livro penso que são treze) e enfialos no ambiênte da nossa sociendade. Metelos no universo do "American Psico", do "Glamorama", de alguns livros do Burroughs. Dei-lhes um nome, Os Bíblicos, profisões, objectivos e motivações que reconhecesse-mos. Tornou-se muito confuso de fazer. Comecei a ler coisas sobre os Pergaminhos do Mar Morto que vou usar para o livro. O mais curioso é que já tenho o fim. Falta-me é chegar lá. Se lançar algum livro, vai ser de poesia. Estou a compilar poemas, e talvez use uma ou duas letras de Moonspell, para esse efeito. Pode ser que esse primeiro projecto me dê animo para desbloquear o outro.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 2)
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