Entrevistas
MORE REPÚBLICA MASÓNICA
INTROSPECÇÃO QUÍMICA
Com onze anos de vida, os More República Masónica continuam a resistir e a tentar quebrar barreiras. “Chemical Love Songs”, o quarto álbum da banda, estabelece os More como uma das mais criativas bandas nacionais. Jorge Dias e Nuno Castedo falaram à Mondo Bizarre sobre o novo disco.

No início foram os chamados concursos de música moderna portuguesa e o impacto provocado por “Azul Dietrich”. Depois vieram “More More More”, “Blow Your Mind” e “Equalizer”. Este ano os More regressam com o, há muito esperado, “Chemical Love Songs”, um disco que reúne canções tão importantes como “Celebrating The Sun”, “U.S.T” ou “Answer Machine”. Ao vivo, o grupo adopta uma postura mais agressiva, sem descurar a subtileza dos temas mais atmosféricos.

Porque escolheram o Jack Endino para produtor e qual é a diferença entre trabalhar com um produtor português e um americano?
Jorge Dias - Surgiu a opurtunidade por contacto com o Jack Endino, de este produzir uma banda portuguesa. A única comparação que podemos estabelecer é com o Marten Bailey. Mas cada um tem abordagens diferentes. Os trabalhos refletem as personalidades deles. O Jack deixou-nos concretizar as nossas ideias. É uma pessoa com quem é extremamente fácil trabalhar. Mas, não o escolhemos por ter sido o produtor dos Nirvana ou o produtor “grunge”.

No inicio voçês eram bastante rebeldes. Agora estão um pouco acomodados. passam na Comercial, na Antena 3...
J.D. - Não necessáriamente acomodados. A nossa perspectiva actual é diferente. A nossa irreverência, perante a indústria e o meio musical, mantem-se mas já não é tão óbvia. Continuamos a fazer as coisas como queremos. Termos canções que passam na rádio deve-se à nossa maturidade, em termos feitos as músicas que queriamos e também ao facto de, após tanto anos, as pessoas acabarem por reparar na banda e abrirem-nos certas portas.
Nuno Castedo - A nossa atitude como banda não mudou muito. Individualmente mudamos. Tornamo-nos mais ambiciosos. Não podemos estar sempre a fazer e a dizer as mesmas coisas.

Vocês, que conhecem vários lados da indústria musical, acham que o passarem em rádios maiores vos vai, finalmente, tornar mais conhecidos?
J.D. - Um dos nosso problemas sempre foi a falta de exposição. A nossa música nunca foi fácilmente “comestível”. Mas começa a haver uma abertura dos media para bandas médias e pequenas. Torna-se necessário chegar às pessoas e obter “feedback” delas. Para isso é preciso que elas nos conheçam. Passar na rádio é bom, faz com que se saiba que temos um disco novo e quem tiver curiosidade vai aos concertos ou procurar os nossos discos. Deixamos de estar circunscritos ao circuito dos “conhecedores”.
N.C. - O problema passa por a maior parte dos ARs não estarem a par do que se vai fazendo nas ruas. Seja rock ou hip-hop. As pessoas têm curiosade em ouvir coisas novas. Quem está nos centros de decisão tem que abrir portas a outro tipo de coisas. Há 15 anos, o Paquete de Oliveira falava, no “Divergências”, de “fascismos Culturais” e as coisas não mudaram muito. Não há censura directa, mas continuam a existir coisas que não são divulgadas. Nós não somos muito subversisvos nem temos posições politicas muito revolucionárias. Mas bandas do nosso género, seja por terem referências anglo-saxónicas, por serem rebeldes ou por não se relacionarem directamente com a cultura portuguesa, de algum modo são deixadas para trás.

Não acham que é uma vantagem não terem editora? Não estão amarrados a nada e podem fazer o que quizerem.
J.D. - Teóricamente sim. Mas de cada vez que fazemos um disco novo temos que recomeçar do zero, o que é desconfortável. Falta aquela segurança de se saber que pode criar e o ter um trabalho cá fora de um modo decente. O controle artístico e musical será sempre nosso.Se houvesse uma editora fixa este processo era mais simple. Como nunca nos assustamos acabamos sempre por conseguir editar.

Este disco é mais pop do que anteriores?
N.C. - Não. É um disco de rock! Pode é haver intromissão de outros géneros musicais pois ouvimos de tudo.

O “Answer Machine”, que está a passar na rádio, é bastante pop...
J.D. - Nunca fazemos discos unidimensionais. Os nosso discos têm, deliberadamente, altos e baixos. Momentos mais agressivos e momentos mais calmos. O tema escolhido para passar na rádio, é, se calhar, o mais “rádiofónico” do disco. O “Celebrating The Sun”, que tem mais de seis minutos, tornava-se um bocado inviável para tocar numa rádio.

No “Equalizer” convidaram a Ana Santos para cantar na versão de “Roads” dos Portished. Em “Chemical Love Songs” a Rita Duarte, ex-Monster Piece canta em “Answer Machine” e “Prayer For The Year 2K” e Jorge Cruz, vocalista dos Super Ego no “Mercury”. Porque convidaram essas pessoas?
J.D. - Gostamos de colaborar com pessoas que admiramos ou com quem temos empatia artística. As participações da Ana e da Rita são um pouco o revelar do lado feminino da banda. Há uma certa vontade de quebrar alguns clichés de banda rock. Convidar outras pessoas obriga a quebrar o quarteto tipico de banda rock e acrescenta novas perspectivas. As colaborações são um desejo de avançar por novas áreas.

Mas vosso novo video tem uma striper que é uma ideia tipicamente masculina.
J.D. Não. A striper também introduz uma feminilidade que não existiria se estivessemos só nós no video. Não quisemos fazer um clip de banda rock em que toda a gente sua imenso e parte guitarras. As imagens refletem o ambiente melancólico da canção, que retrata um certo tipo de decadência urbana. A solidão da vida na cidade onde estamos todos muito virados para dentro e distantes uns dos outros. O video é passado numa discoteca muito decadente, onde as pessoas passam as noites sózinhas, a olhar para stripers ou para as miúdas que passam.

E de onde vem a imagem muito anos 70 que voçês adoptaram, tanto na capa do disco, como nas fotos promocionais?
J.D. - A ideia foi termos um visual mais interessante, mas também irónico. A capa do disco tem imagens retiradas de publicidade que retratam uma euforia que nada tem que ver com a realidade. As pessoas têm tendência a criar falsos mitos. Vivem em ambientes depressivos e melancólicos, mas consomem imagens de glamour e high life inexistentes nas suas vidas. Há um contraste entre a nossa imagem, a capa do disco, o clip, mais divertidos e o conteúdo lírico e musical melancólico do disco.

Acham que as pessoas vão reparar nas letras? Não se vão perder na imagem?
J.D. - Quando se quer absorver uma banda até ao fundo absorve-se. Se querem ficar pela superficie, por um tema na rádio ou um clip é uma opção contra a qual nada há a fazer.
N.C. - Partimos do princípio que quem realmente se interessar pelo disco é capaz de entender o que está por detrás da imagem. O visual e o design deste disco podem ser enganadores, mas o desafio reside em ultrapassar isso.

Há uma grande diferença entre o som do disco, mais “leve” e os vosso concertos, bastante pesados e agressivos.
J.D. - É natural. Num concerto temos tendência em proteger-nos com um som mais alto. Não tocamos tanto os temas mais melancólicos. Um concerto é um relacionamento imediato. Com um disco a absorção é mais intensa e profunda.

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 3)