MOUSE ON MARS
PROCESSADORES DE MÚSICA
Jan St. Werner, compõe, com Andi Toma o projecto alemão Mouse On Mars (MOM). Nesta entrevista fala-se sobre o novo álbum, "Idiology", sobre aquilo que o motiva a fazer música, e ainda sobre editoras e Internet. Prelúdio de um concerto em Lisboa no dia 24 de Novembro.
Porquê "Idiology"? É uma mistura de idiota com ideologia?
Pode-se fazer essa analogia, mas o título permite várias interpretações. Idiota pode ser a representação do eu, aquele que não faz parte da sociedade. "Idiology" é assim uma espécie de paradoxo, porque há muitos idiotas, muitos elementos incombináveis e individuais. Como tal, é também um título anti-ideológico.
Os discos dos MOM parecem começar sempre com uma batida dançável, mas à medida que vão avançando tornam-se cada vez mais estranhos...
A nossa intenção é baralhar as coisas e ver até que ponto conseguimos chegar ao extremo. A nossa música não é linear. Pode ser agradável ao ouvido e opulenta quando se chega ao detalhe, com demasiada informação. Prefiro que haja sons a mais do que uma estrutura minimalista, que em poucos segundos se torna aborrecida. Não gosto do imediatismo na música.
Em "Idiology" usam vozes pela primeira vez. Porquê?
Foi sempre algo que evitámos, mas desta vez quisemos experimentar. O nosso baterista, Dodo Nkishi, deixou-nos usar a voz dele livremente e até ao limite, como se fosse mais um instrumento. No fundo, era algo que tínhamos de fazer, quanto mais não seja porque gostamos de desafios.
Como é que compõem a vossa música?
Construímos tudo com instrumentos e sofware. É um processo longo. No início ainda não sabemos muito bem onde vamos chegar. Há medida que a pesquisa vai assentando, começamos a construir um modelo daquilo que queremos. No fim temos uma música, que é uma cópia instável da ideia que tivemos inicialmente.
Pode-se dizer que a vossa música é reciclada na origem e reciclável no fim?
O conceito reciclável aplica-se no sentido em que as pessoas podem ter as mais variadas sensações quando nos ouvem. Mas não gosto que remisturem a nossa música, porque remisturar é como que remodelar. A forma como fazemos música já é com o objectivo que soe sempre nova. A percepção da música é que muda de acordo com quem está a ouvir. Neste sentido, a música é uma sugestão e não um produto finalizado. Não somos aquele tipo de artistas que querem exprimir as suas ideias da forma mais perfeita. Se as coisas correm mal, isso também faz parte do nosso trabalho. Jogamos com os possíveis e é isso que temos para oferecer.
Qual é o tipo de música que mais lhe agrada?
Não estou interessado em ouvir aquilo que está na moda classificar como "boa" música. Gosto mais de tentar perceber como é que através da música se percepciona o mundo. Regressámos agora da América do Sul e trouxemos coisas do Chile, Argentina, Uruguai e Colômbia, que vou agora começar a ouvir. Uma das coisas que mais me surpreendeu nesta tourné foi um miúdo de 10 anos chileno que nos fez perguntas sobre os títulos das músicas e a produção, e até sobre determinados sons escondidos, que nenhum adulto nos perguntou até hoje. Em suma, não tenho um tipo preferido de música, mas gosto mais da que tenta expandir ao máximo o seu género, ou que procura os extremos e não o conformismo. Posso dizer que me agrada aquilo que temos editado na Sonig, uma editora que demonstra os nossos gostos musicais.
Quando criaram a Sonig, o propósito era editar exclusivamente em vinil, mas depois acabaram por se render ao CD. Porquê?
O vinil é algo que os jornalistas e as revistas da especialidade não entendem. No início, quando decidimos só produzir vinil, o objectivo era distribuir directamente para as lojas, sem filtragem dos media. Além disso, o vinil não pode ser copiado, é único, tal como um livro. Já a música digital não está presa a nenhum suporte. Mas agora que trabalhamos com outros músicos, também temos que editar em CD, porque editar somente em vinil significa que muito menos pessoas os vão ouvir. É triste, mas não é justo só porque adoramos o vinil e detestamos o CD.
Falando dos outros projectos em que está envolvido, qual é a diferença entre MOM, Microstoria e Lithops?
Os MOM tomam quase todo o meu tempo e energia. Estamos em tourné metade do ano e viajamos por todo o mundo. Microstoria é um projecto mais exclusivo. É algo que faço quando tiro férias dos MOM. Trabalhar com o Markus Popp (Oval) é sempre muito intenso. É um confronto de ideias e energias, em que nos concentramos mais naquilo que é estritamente necessário, enquanto que nos MOM inserimos tudo o que encontramos. Lithops é o meu projecto pessoal, quando não quero estar nem falar com ninguém, quando não me quero comprometer. É menos preciso e mais imprevisível.
Qual é o objectivo do website dos MOM? Promover uma experiência diferente, tal como a vossa música?
O website (www.mouseonmars.com) é uma espécie de jogo que obriga o utilizador a descobrir os caminhos. É abstracto e não-promocional. Não apresenta os MOM como uma banda, mas como uma ideia. Foi feito pelo nosso amigo Constantin Rothkopf, que se interessa por algoritmos e combinações matemáticas estranhas. No que diz respeito a informação mais convencional, existe o website da Sonig (www.sonig.com), onde estão patentes os nossos interesses políticos e artísticos. É o nosso próprio fanzine.
Em termos de concertos, tive a oportunidade de vos ver ao vivo em Chicago em 1997, com os Stereolab, e a vossa energia parecia infinita. O que é que podemos esperar do concerto em Lisboa?
Ao vivo tentamos ir o mais longe possível na energia que produzimos. Usamos todos os aparelhos electrónicos que conseguirmos levar connosco, e esperamos que as pessoas exprimam aquilo que estão a sentir: dançar, enlouquecer, ou até adormecer. Em palco vou só estar eu e o Andi. Como fizemos a primeira parte da tourné com a banda completa e foi um esforço muito grande, decidimos fazer a segunda parte só nós dois. Por isso, não esperem ver grande coisa. Concentrem-se mais naquilo que vão ouvir.
Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 9)
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