MOUTHUS
ESTRANHOS PARAÍSOS ARTIFICIAIS
A procura de informação na Internet sobre os Mouthus revela-se uma tarefa árdua. Uma mão cheia de críticas aos seus discos e pouco mais. Percebe-se que são apenas dois – Brian Sullivan e Nate Nelson –, que tocam guitarra e bateria respectivamente, e chegam de Brooklyn, Nova Iorque. Depois de “Mouthus” (Psych-O-Path) e “Loam” (Ecstatic Peace, editora de Thruston Moore dos Sonic Youth), ambos editados em 2004, o novo “Slow Globes”, acabado de sair, serve de desculpa para percorrerem a Europa ao lado dos portugueses Loosers. Redutor seria se lhes chamássemos noise rock, tal é a quantidade de dimensões diferentes que percorrem, mas desdobrar as camadas de som produzidas pelos Mouthus revela-se uma tarefa tão complicada como decifrar as suas respostas. Depois dos Black Dice, são o novo hype do noise nova-iorquino e falam sempre na terceira pessoa, como se quem responde às perguntas fosse alguém exterior à banda. Começaram a digressão em Lisboa, num concerto intenso e hipnótico q.b. e vão regressar dia 19 e 20 de Dezembro para mais dois concertos na Casa das Artes de Vila Nova da Famalicão e no Passos Manuel, no Porto (este entretanto cancelado), respectivamente. Dia 21 tocam de novo em Lisboa juntamente com os Loosers, em modo ensemble, sob o nome Mousers.
Procurar informação biográfica sobre os Mouthus não é tarefa fácil. O que nos pode dizer sobre o vosso background, o que vos levou a formar a banda, etc.
O Nate e o Brian, que são o núcleo conhecido como Mouthus, conheceram-se em 2002 através do Karl que agora responde pelo nome Axolotl, e pelo Richard, que é, sempre foi, e sempre será um dos meus elementos favoritos dos Sightings. Foram feitas jams de sala de estar, queimadas salas de ensaio e os cérebros desacelerados e acelerados como fios de fita viajando através de sujas e cósmicas cabeças de limpeza. Antes disso FILMES foram estudados e feitos por ambos os membros dos Mouthus, um em Boston e o outro em Nova Iorque. Somos fiéis filhos do nordeste americano. Em garoto o Brian debulhou milho numa comuna do Massachusetts ocidental, mas actualmente o seu cabelo é mais curto do que o do Nate. O Nate obteve boas classificações em testes padronizados e destruiu muitas lagostas com migalhas de pão. Entre isto e muito mais, ambos conseguimos licenciar-nos e o Brian está bastante avançado em biologia e química orgânica. Somos luminosos como o dia mas não nos chamem académicos, se somos bons em alguma coisa é em hard rock.
Como se envolveram na cena musical de Nova Iorque, tocando com gente como Thruston Moore (Sonic Youth) ou Double Leopards, entre outros?
O Mike e a Maya dos Double Leopards/Religious K-Nives conheciam o Nate dos seus tempos de parcas condições em Brooklyn. Em 2001, ele e o Karl dos Axolotl fizeram umas jams memoráveis numa prestes-a-ser-imolada-casa-de-má-reputação, quando vivíamos em Bushwick. Os serviços de senhoras eram solicitados a todas as horas mas nós batíamos-lhes com a porta na cara, as vagabundas. Foram feitas gravações que posteriormente se tornaram em oferendas aos mais poderosos. Mais tarde o Mike e a Maya ganharam as suas manchas de leopardo e depois de mais uma de muitas noites regadas a cerveja e de adoração ao altar de Judas, o Nate e o Brian tornaram-se nos Mouthus. Redescobriram-se como tipos novos e como toda a gente parecia cada vez melhor, rapidamente envergaram as t-shirts e num piscar de olhos começaram a entregar as muito necessárias pizzas a foragidos de Milão a Tóquio. E isso foi só o início. Numa noite de concerto, numa cave de Bushwick, Brooklyn, onde papel higiénico e porcaria, resultante de um esgoto danificado, enchiam o chão, apareceu o Thurston Moore. Sempre um homem de acção, reuniu a sua equipa de peritos legais de crack que fez um contracto que assinámos usando profusamente a matéria fecal a nossos pés. E desde então temo-nos esforçado por snifar uma linha de coca gigantesca, em forma de L, do tamanho da linha de comboio entre Chelsea e Williamsburg.
Qual é o papel da improvisação na música dos Mouthus?
As nossas canções SÃO canções. São escritas e ensaiadas muitas vezes por nós no Tarpit. Temos blocos de notas cheios de porcarias misteriosas que escrevemos para que possamos reproduzir sons e riffs. Construímos indeterminação nas canções, nos riffs e nos sons que usamos para que as performances sejam sempre variadas. Gostamos de estruturas flexíveis, mas NÃO estamos apenas a improvisar. Gostamos de usar material ensaiado para obter um ponto focal, para que possamos entrar em órbita à volta dele. Não gostamos de o usar para nos ajudar a contar de 1/4 de tempo para 5/4 de tempo, etc. Cada canção é uma espécie de linguagem diferente que nos permite ter uma conversa diferente um com o outro de concerto para concerto. Neste momento há quatro ou cinco pessoas no mundo que perceberam que nós realmente repetimos canções de concerto para concerto e quando eles aparecem acabam por fazer pedidos de determinados temas.
É fácil perceber que utilizam guitarra e bateria, mas que os mesmos não estão nas melhores condições de utilização.
Há uma excelente loja de instrumentos em Brooklyn, chamada Main Drag Music, que construiu para nós, com fita adesiva e alumínio, réplicas convincentes de guitarras e bateria. Soam quase como as coisas verdadeiras, em especial quando complementadas por pratos partidos, bateria electrónica, utensílios de cozinha e brinquedos em forma de gato. O valor de revenda, na Sam Ash (uma grande loja de música do centro de Manhattan, gerida por imbecis), é bastante alto, mas preferimos agarrar-nos a elas porque nos dão aquele som único de "algaea vortex".
No noise qual a importância do silêncio? E a importância da repetição?
O Silêncio dá-nos a oportunidade de saber que pedal precisa de pilhas novas, que corda está partida, que microfones de contacto precisam ser mudados, etc. As repetições vigorosas criam uma psique sólida para encher meias pretas de vinil.
Como é o vosso processo de gravação?
O processo de gravação decorre a cada dia que tocamos, o que acontece várias vezes por semana, às vezes todos os dias. Usamos um gravador de bobines de oito pistas, que soa muito bem, mas já esgotámos o stock de todas as rádios da área de Nova Iorque e agora temos que comprar lotes no Ebay, que é muito mais caro porque as bobines já não se fabricam. Utilizámos essencialmente microfones Sampson de três a trinta dólares, provenientes de uma venda especial da Guitar Center. Gostamos de gravar o mais possível e de, mais tarde, na mistura/colagem, obter um fio condutor a partir daquela confusão. Caso não tenha sido suficientemente claro anteriormente, ambos estudamos cinema e adoramos editar. Quando escolhemos coisas para os discos tendemos a preferir as coisas menos forçadas, muitas vezes gravações ao primeiro take.
Fale-nos sobre a vossa sala de ensaios/espaço de gravação, a que chamam Tarpit.
Nós partilhamos uma sala de ensaios com os Double Leopards, que são os maiores porque toleram o cheiro do Tarpit. Ambas as bandas fazem discos e colaboram em gravações naquele espaço.
Têm feito algumas colaborações (Skaters, Axolotl, Double Leopards…). De que maneira essas colaborações são importantes para os Mouthus e, na vossa opinião, quais os melhores resultados alcançados?
Bem, triângulos quadrados e hexágonos todos entrelaçados de maneira diferentes, parecem bonitos de diferentes maneiras num quilt ou no chão de uma cozinha ou casa de banho, cobrindo toda a superfície visível estendendo-se até ao infinito em todas as direcções. Os White Rock com o Mike e a Maya, a colaboração Axolotl/Mouthus, etc, etc... Todas são importantes; não existem resultados melhores que outros, elas apenas nos mostram coisas diferentes, permitem-nos trabalhar de maneira diferente, pensar de maneira diferente, servem como uma pausa naquilo que comemos todos os dias, independentemente da qualidade da comida que digerimos.
Num mundo onde a Internet é uma ferramenta importante, os Mouthus não têm um website. Acham que não precisam de estar à vista de todos ou partilhar informação?
Não há nenhum mistério por detrás disso. Neste momento, nenhum de nós possui um computador. No passado sentia-mo-nos aliviados por não ter de pensar nisso, mas hoje é uma chatice. Se se tornar necessário nós faremos um site, mas somos tão meticulosos no que respeita à parte visual e ao conteúdo que decerto ainda irá demorar algum tempo até que isso aconteça. Para já acho que estamos a receber uma boa dose de “atenção” do público… E nós também não somos de partilhar muita informação, caso ainda não tenhas reparado. Para já queremos apenas partilhar alguma música e algum material visual. Encorajamos qualquer pessoa a contactara-nos através do e-mail que incluímos em todas as nossas edições.
Os Mouthus editaram até agora três álbuns e alguns CD-R’s (na sua maioria auto-editados através da Our Mouth). Como vêm a partilha de ficheiros, as editoras de CD-R e as net labels como meio de difusão de música?
Não nos preocupamos muito com isso. Sempre que possível, tentem comprar as merdas dos artistas que querem apoiar. Se realmente querem ouvir alguma coisa e não têm dinheiro para a comprar então, se isso não vos preocupa, descarreguem isso da internet. Os CD-R’s são bons porque não são tão caros como os CD’s de editoras maiores e permitem que possas comprar algo directamente à banda sem ficares falido. Também permitem às bandas trocarem música mais facilmente. Há tanta música disponível devido aos novos meios de gravação e distribuição que seria impossível alguém ter tempo e dinheiro para absorver tudo, por isso tentem desfrutar daquilo que gostam à medida que as coisas vos aparecem à frente e não se preocupem muito com o resto.
Para os Mouthus Nova Iorque é um enorme playground onde se pode experimentar a toda a hora?
Sim, absolutamente, enfaticamente. É engraçado teres mencionado a palavra playground porque uma noite destas houve uma espécie de rave underground de deep house minimal, talvez patrocinada pela Deitch projects ou bandas tipo os Black Dice e Gang Gang Dance que também tocaram. Obviamente nós estávamos na lista por isso entrámos logo para a zona VIP, onde descobrimos que os promotores tinham um monte de tubos de plástico de várias cores entrelaçados, como um labirinto, montados num loft enorme. Alguns desses tubos acabavam em ecrãs de vídeo onde eram projectadas imagens de outros VIP’s no labirinto captadas em “tempo real” por câmaras ocultas. Outros tubos acabavam em pequenos altares encimados por pequenos abafadores cosidos à mão que seguravam canecas púrpura cheias de um líquido transparente que aparentemente era uma nova designer drug que faz com que pareça que estás a nadar em 50 000 doses de ácido, o teu sangue parece que está cheio de um emaranhado de alcatrão preto e os teus genitais parece que saíram de um banho turco feito com poppers. Foi melhor do que quando eu perdi a cabeça no dia do desfile das Sereias de Porto Rico. De qualquer maneira, quando se levantava a caneca abria-se um alçapão que te fazia cair para um sub-nível de banho de tapioca e de uma orgia com brinquedos de sexo provavelmente desenhados por Matthew Barney e um cântico tântrico por… Eu acho que era Marriane Nowottony, Ikue Mori, Charlemagne Palestine! Mas eu na altura estava demasiado passado para me estar a lembrar disso agora. Depois comecei a alucinar com um peixe gigante que caía do tecto e começava a rasgar a carne de toda a gente. E depois eu estava a rasgar a pele do braço do Brian com uma garrafa de bolso de Grey Goose. Foi um espectáculo verdadeiramente entusiasmante.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre - Dezembro 2005)
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