Entrevistas
MUDHONEY
Infusão Sónica
Com “Since We’ve Become Translucent”, os Mudhoney lançam água sobre a fervura das guitarras, refreando a abordagem agressiva e directa que havia caracterizado os seus primeiros trabalhos. Inauguram-se, assim, novas demarcações para a música. É o desmantelamento de anteriores aproximações sonoras, a descolagem em definitivo da conotação grunge que os perseguia desde o início da carreira. É a conversa mantida com Mark Arm, membro fundador, vocalista e guitarrista, que a seguir se reproduz.

OS PRIMÓRDIOS, O REGRESSO A CASA E O NOVO BAIXISTA

Os Mudhoney retiraram o nome de um filme de Russ Meyer que, na altura, nenhum dos membros da banda tinha visto Já o viram?
Sim. É um bom filme, é divertido e estranho. Acho que tinha motivos de interesse para todos nós gostarmos, apesar de não perceber muito bem sobre que tratam os filmes de Russ Meyer. Mas pensámos ser um bom nome para nós.

Os Mudhoney são tidos como a primeira verdadeira história de sucesso para a Sub Pop Records. Como se sentem ao voltar à editora onde começaram?
É muito bom. É que, na verdade, nós conhecemos algumas destas pessoas - com que agora voltámos a trabalhar - há muito, muito tempo.

Por que decidiram deixar a Sub Pop?
Porque, na altura, pensámos que a editora não existiria por muito mais tempo. Eles deviam muito dinheiro a muita gente. Sentimos que era necessário partir antes de magoar sentimentos. Não sabíamos que o álbum dos Nirvana ia sair e tornar-se tão importante como acabou por acontecer. Ninguém sabia disso.

De pois da saida da Sub Pop editaram pela Reprise. Como correram as coisas?
Estava tudo a correr bastante bem até cerca de 1998, altura em que decidimos gravar o nosso último disco com eles. Eles tinham contratado outras pessoas e as que tinham as bandas e as editoras a seu cargo não estavam muito viradas para nós. Foi uma grande batalha. Percebemos que, após a gravação de “Tomorrow Hit Today”, este seria o nosso último disco para aquela editora, sabíamos que nos iam dispensar. E a verdade é que também já não queríamos estar naquela editora.

Tem alguma ideia do motivo por que vos deixaram?
Sim. Porque não vendíamos muitos discos. Tínhamos consciência de que não teríamos grande possibilidade de mudar. Fazemos aquilo que sabemos e que somos capazes de compreender. Para nós, não fazia qualquer sentido compor música techno que eventualmente poderia transformar-se num grande êxito. Não iríamos compreender isso e é algo que, em definitivo, não queríamos fazer.

Após a partida do Matt Lukin (baixista) em 1999, a situação tornou-se bastante confusa para os Mudhoney...
Sim, acho que “confusa” é a palavra correcta. Mas não fizemos nada em relação a isso, como que ignorámos a situação. O Steve [Turner, guitarrista principal] e eu focámos as nossas atenções nos Monkeywrench e em ter uma criança.

A falta de um baixista permanente teve algum efeito no processo de gravação do novo álbum?
Não, porque nós tínhamos um baixista permanente, o Guy Maddison, excepto na altura em que gravámos ‘Inside Job’.

Como é que conheceram o agora oficial baixista dos Mudhoney?
Nós conhecemos o Guy em 1989, quando ele veio aos Estados Unidos com a sua banda Lubricated Goat, uma banda surpreendente cujo material devia ser “checkado”. Ele mudou-se para Seattle em 1993 e eu toquei com ele e com outros dois membros australianos numa banda chamada Bloodloss. Sabíamos que ele seria a pessoa adequada e um músico excelente com quem tocar.

O NOVO ÁLBUM, AS INFLUÊNCIAS

“Since We’ve Become Translucent” abre com um tema de 8 minutos. Esta diferente aproximação à música é algo intencional?
A letra para essa canção foi intencionalmente escrita de uma forma diferente. Mas acho que não nos debruçámos a pensar que seria um bom tema para abrir o álbum até o ouvirmos. Queríamos começar o álbum com algo semelhante a essa canção, achámos que seria uma boa canção introdutória.

Para este álbum, os Mudhoney trabalharam com quatro produtores diferentes. Porquê?
Acho que é mais correcto dizer que foram quatro engenheiros diferentes - não me parece que algum deles tenha produzido algo que viesse a fazer parte do disco. Nós apenas queríamos dedicar-nos a um par de canções de cada vez, desejávamos focar as nossas atenções nos temas em que estávamos a trabalhar na altura. À excepção de ‘Inside Job’, que foi gravada em 2000 com o Jack Endino, todas as outras canções foram levadas para diferentes estúdios e engenheiros, porque queríamos trabalhar com essas pessoas. Pensámos que faria mais sentido agir desta forma do que esperar pelos próximos álbuns para trabalhar com cada um deles.

Com qual deles preferiram trabalhar?
Com todos eles. É mesmo impossível dizer com qual preferimos gravar. Gostei mesmo muito de trabalhar com os quatro.

No tema ‘In the Winner’s Circle’ há uma parte em que se ouve “I’m a winner ‘cause I’ve got nothing left to lose”…
Nunca fomos uma banda que desejasse chegar aos lugares cimeiros, nunca ambicionámos levar os nossos álbuns até ao no.1. Sempre tocámos música porque adoramos fazê-lo e gostamos da forma como a compomos. Antes mesmo do movimento grunge, nós tínhamos começado como uma formação punk. Era o tipo de música que escutávamos, foi a génese da nossa consciência enquanto músicos - pelo menos, para mim e para o Steve e acho que para o Guy também. Foi o punk rock.

Fala de punk... Sentem-se influenciados pelos Melvins, por exemplo? Não, foi antes dos Melvins. Fomos mais influenciados pelos Black Flag... E pelos Stooges?
Sim, com certeza, apesar dos Stooges não estarem propriamente activos naquela altura. Foi, no fundo, a cena hardcore americana do período 1981-82 com os Minor Threat, os Flipper. Foi isso que nos deu energia e nos encorajou a seguir em frente ao ponto de pegarmos em instrumentos e tocarmos. E, à medida que conhecíamos estas bandas, fomos conhecendo também as suas influências, incluindo os Stooges, por vezes também os Black Sabbath, as bandas dos anos 60, todas as bandas de garage rock.

No número de Novembro de 95 da Rock Star, pode ler-se que os membros dos Mudhoney só ouvem discos antigos de blues quando estão em casa. É verdade?
Isso não é totalmente verdade. Deve ter sido alguém a exagerar nesse ponto. Há até um maior interesse em música folk do que nos blues, sobretudo da parte do Steve.

O tema que encerra o novo álbum, ‘Sonic Infusion’, traz à memória a linguagem própria dos Sonic Youth nos trabalhos mais experimentais...
Nem por isso. Acho que ‘Sonic Infusion’ é uma canção densa e na linha de um rock mais progressivo. Os Sonic Youth tocam com aquelas distorções estranhas e não consigo pensar em temas deles que sejam tocados à velocidade da canção final do nosso novo álbum.

Enquanto Craig Florey, que tocou saxofone na Sonics Rendevous Band, reuniu uma secção de trombeta em duas das canções do novo álbum, Wayne Kramer tocou baixo em ‘Inside Job’. Como é que surgiram estes nomes?
O Wayne estava a organizar um conjunto de canções para uma compilação de um website (MusicBoots.com) que, desde então, deixou de existir. A compilação chamava-se “Beyond Cyber Punk” e ele veio a Seattle para produzir a gravação que tínhamos feito. Na noite anterior, ele juntou-se a nós num dos nossos ensaios e, como não tínhamos ainda um baixista fixo, era o Steve quem tocava baixo. Foi então que o Wayne perguntou se podia experimentar connosco. Nós aceitámos e a experiência foi muito interessante. O Craig Florey, bom, conheço-o desde os meus 4 anos. Crescemos a cerca de cinco casas de distância. Eu costumava andar com a irmã dele que era um pouco mais velha que eu. Apesar disso, houve muitos anos em que eu não o vi.

Por que decidiram incluir uma secção de trombeta?
Porque pensámos que iria soar bem.

Como descreveria o novo álbum dos Mudhoney a um leigo na matéria?
Sempre tive um grande problema em tentar descrever o que nós fazemos, porque os pontos de referência que iria avançar - caso as pessoas não os conheçam - não serviriam de nada, as pessoas não iam conseguir compreender. Não podes dizer a alguém que não conhece os Stooges que algo soa como eles. Não se trata de uma coisa que as pessoas compreendam de imediato. Também não podes falar dos Captain Beefheart, porque só um universo muito restrito de pessoas os conhece.

Qual é o seu disco favorito dos Mudhoney?
Os que considero terem resultado melhor são “Superfuzz Bigmuff”, “Every Good Boy Deserves Fudge”, talvez “My Brother the Cow”, definitivamente “Tomorrow Hit Today” e o novo álbum.

EXPERIÊNCIAS E DESAVENÇAS

Uma das vossas experiências mais estranhas em cima de um palco parece ter ocorrido durante a edição de 92 do Reading Festival. Como é que tudo se passou?
Essa experiência foi quase tão estranha como durante uma actuação em 1989... Quando nós tocámos no Reading, tinha estado a chover e, por isso, o piso estava muito lamacento, as L7 estavam a tocar antes de nós e o público já estava a atirar lama para elas e para uma outra banda. Portanto, nós sabíamos que também iríamos ser “atingidos”, em parte por causa do nome da banda - Mudhoney. Era um pouco irritante quando éramos atingidos na boca. De qualquer forma, até achámos a experiência um tanto ou quanto divertida.

Quando visitaram a Casa Branca em 1994, por que é que não chegaram a privar com o Bill Clinton como os Pearl Jam?
Porque nós não éramos os Pearl Jam. Mas sim, fomos visitar a Casa Branca com os Pearl Jam, com quem tínhamos tocado na noite anterior. Então, eles foram convidados e, na realidade, o então Presidente dos EUA nunca tinha ouvido falar de nós. Mesmo assim, conseguimos acompanhá-los, apesar de não termos conhecido pessoalmente o Presidente. Mas tivemos direito a uma visita guiada à Casa Branca - conhecemos a Situation Room, que é onde eles acompanham e monitorizam os acontecimentos mundiais. E penso que não há muitas pessoas autorizadas a visitá-la.

O programa The Monkeywrench Radio, apresentado pelo Eddie Vedder, foi transmitido por todo o mundo em 1998, incluindo Portugal. Mas que recordações guarda da experiência no Self-Pollution Radio três anos antes?
Esse foi em 1995 e recordo-me de termos tocado material do álbum “My Brother the Cow”. Lembro-se de ver o Layne Staley por lá. E lembro-me da casa a partir da qual fizemos a transmissão, o ambiente. Acho que é tudo aquilo de que me recordo.

Há planos para uma outra experiência radiofónica com os Mudhoney?
Como aquela? Acho que essa questão terá de ser colocada aos Pearl Jam. São os únicos com o dinheiro suficiente para cobrir os custos.

É conhecida uma resenha sua do último álbum dos Wellwater Conspiracy...
Sim, pediram-me para escrever uma crítica ao álbum do Mark Lanegan para um website que, entretanto, deixou de existir. O mesmo aconteceu com “The Scroll and its Combinations” dos Wellwater Conspiracy.

Mas não se imagina a fazer isso num futuro próximo?
Bom, eu só pretendo fazer aquilo de que realmente gosto. Acho que iria detestar ter que ouvir uma pilha de discos de que não gosto para escrever sobre eles. Prefiro ater-me aos que efectivamente gosto. Sinto-me bastante melhor a produzir música, por exemplo, e a escrever e gravar o meu próprio material. E isso deixa-me demasiado ocupado para me preocupar com aquilo que as outras pessoas produzem.

O Billy Corgan não é um músico muito apreciado nem respeitado no circuito indie. O Stephen Malkmus (antigo líder dos Pavement) tem um bem conhecido historial de batalhas verbais com ele. Como é que reagiram quando ele comentou que os membros dos Mudhoney provavelmente tinham sido “jocks” no liceu?
Bom, o Matt chegou a praticar alguns desportos e, por essa altura, quando andava no liceu, era de baixa estatura. No que me diz respeito e ao Steve, estávamos mais inclinados para o skateboarding e coisas desse género. Mas nada de desportos tipicamente juvenis, como o futebol. Acho que o que o Billy queria dizer é que nós éramos aquele género de miúdos de grande compleição física que andam pela escola a agredir ou a assediar pessoas como ele, o que está longe de ser verdade. Eu até era bastante baixo nessa altura...

VERSÕES E O FUTURO EM PERSPECTIVA

Em Junho passado, planeavam gravar uma versão de Alice Cooper e uma canção de Buff Medways para um disco tributo a Billy Childish. Qual foi o resultado?
As canções estão já gravadas. A versão de Alice Cooper será o lado B do single ‘Sonic Infusion’. Entretanto, o Steve tem falado com o Billy e está mais por dentro desse assunto. Mas posso afirmar que estamos bastante satisfeitos com o resultado.

Os Mudhoney gravaram já uma grande quantidade de versões. Quais foram as que resultaram melhor?
Aquela de que estou a gostar mais, neste momento, foi a que fizemos recentemente de ‘Urban Guerrilla’ dos Oakland.

Já gravaram alguma versão de uma banda de que não gostavam particularmente?
Nem por isso, embora acredite que a que mais se aproxima disso é a versão que fizemos de ‘The Rose’, que é uma canção de Bette Midler. Na realidade, era mais uma piada. Penso que é, de alguma forma, importante olhar as coisas em perspectiva e manter um certo sentido de humor em relação ao que fazemos.

Como os Murder City Devils costumavam fazer, os Mudhoney partilham os créditos do material gravado de forma igualitária no seio da banda. Isso vai voltar a acontecer com este álbum?
Sim. Porque todos os elementos contribuem para o resultado final e nenhum é mais importante que o outro na banda. Por isso, não há uma figura central na banda, não há um líder assumido. Somos muito democráticos. Somos como uma comunidade hippie de rock’n’roll.

O que podemos esperar dos Monkeywrench [N.R. um projecto paralelo de garage blues que junta o Mark e o Steve] nos próximos meses?
Não sei bem. Há cerca de um ano gravámos oito canções cujo resultado foi muito agradável, mas precisamos de mais três ou quatro para fazer um álbum. Não temos ainda nenhuma data para o lançamento, porque precisamos de trabalhar nos temas que faltam. Mas esperamos que seja no próximo ano.

E quanto ao projecto a solo do Steve?
Ele tem estado a trabalhar nisso e soa bastante bem.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 12)