NEKO CASE
MELANCOLIA DESÉRTICA
Numa conversa com Miss Case pudemos trocar algumas impressões a propósito do seu mais recente e muito recomendável álbum, "Blacklisted". Entre amigos e copos, o resultado do disco foi excelente aguardando-se sequelas.
Neko Case é considerada uma das mais sensuais, divertidas e talentosas raparigas a fazerem música rock alternativa nos Estados Unidos. Possuidora de uma soberba voz de inspiração algo country à la Patsy Cline, Neko começou, curiosamente, por ser baterista em bandas de punk rock, onde posterior e timidamente foi adicionando a sua voz. Foi já no Canadá que tal aconteceu, e foi lá também, (mais precisamente em Vancouver), que completou um bacharelato em Artes. Em 1997 inicia a sua carreira a solo de clara inspiração country (mas que coexiste com um espírito mais rock), com "The Virginian", a que se segue em 2000 (e de novo residente nos Estados Unidos) o muito aclamado "Furnace Room Lullaby". Tal reconhecimento, quer por parte da imprensa, quer por um já significativo público, não a impede de participar em projectos bem distintos como os New Pornographers e as Corn Sisters, nem de fotografar e ser cozinheira em restaurantes. E em 2002, eis que nos chega o fabuloso "Blacklisted" o seu terceiro e melhor registo a solo, que merece mais do que honras de destaque. Fruto do trabalho desenvolvido em estúdio por gente como os produtores Darryl Neudorf e Craig Schumacher, os colaboradores Jon Rauhouse, Tom V. Ray e Dallas Good (dos The Sadies) e os convidados Joey Burns e John Convertino (Calexico), Howe Gelb (Giant Sand), Brian Connelly (Shadowy Men On A Shadowy Planet, Atomic 7), Kelly Hogan e Mary Margaret O'Hara, este é um disco que se distingue em muito do seu antecessor o qual se encontrava repleto de canções de amor. Imbuído então de imagens e de imensas sensações que vêm de elementos exteriores, do mundo que nos rodeia (mais até do que atmosferas), "Blacklisted" consegue através de arranjos mais elaborados e subtis, ser um disco mais intenso em termos emocionais. E muito mais belo, cheio de uma melancolia e de uma doçura, de um desencanto tocante, menos insistente em estruturas country corriqueiras, e apostando sim na densidade esparsa e desértica (com clara mãozinha dos Calexico). Mas a maturidade musical de Case revela-se não só numa maior variedade sonora, mas também pela forma como controla a sua voz dando-lhe maior profundidade, sendo aparentemente mais discreta, mas tocando-nos ainda com mais intensidade em momentos de clímax. Portanto, ficam aqui palavras da própria Neko Case, pois por tudo isto que disse sinto que não cheguei em nada à essência de "Blacklisted", que importa sim escutar, e que é de lamentar estar mesmo na lista negra das lojas de discos em Portugal...
Gravou "Blacklisted" com uma série de convidados, dentre eles os Calexico, Howe Gelb, Mary Margareth O'Hara, Brian Connelly .Foi-lhe confuso trabalhar com tanta gente ou achou a experiência divertida?
Confuso não foi mas houve muitos delírios nocturnos e muitos concursos de gargalhadas. (risos)
"Blacklisted" possui arranjos mais bonitos e mais subtis do que "Furnace Room Lullaby", o seu anterior disco. É também um disco mais esparso e mais obscuro do que "Furnace Room Lullaby". Essas opções foram tomadas conscientemente, como parte da escrita das canções, ou surgiram espontaneamente enquanto trabalhava com os outros músicos?
Um pouco de ambas as coisas. Quando entrei em estúdio as canções não estavam totalmente terminadas porque eu queria que fossem espontâneas. Acabaram por soar exactamente como eu queria. E, no entanto, quando as comecei não sabia muito bem o que procurava.
Em "Blacklisted" não há canções de amor da sua autoria. Mas não acha que o disco continua a ter um certo sentimento de "perda", de solidão amorosa?
Acho. O que acontece é que o disco está cheio de canções de amor. Mas não canções de amor sobre pessoas. Antes sobre lugares e épocas diferentes.
Quem são as Pretty Girls do disco?
São todas as raparigas do mundo. (risos)...
Ainda canta nos New Pornographers? Um vez disse que era uma marioneta nessa banda... Agrada-lhe, depois de passar bastante tempo a compor para si, cantar apenas por diversão?
Sim, gosto muito de cantar por cantar. Mas eu estava a brincar quando disse que era uma marioneta nos New Pornographers. Cantar com eles é uma coisa extremamente importante e divertida para mim. Neste momento estou a terminar o novo álbum dos New Pornographers que deve sair no início do próximo ano.
Além dos New Pornographers tem outros projectos paralelos?
As Corn Sisters com a minha amiga Carolyn Mark. Neste momento estamos um pouco paradas porque ela acabou de editar um disco, "Terribles Hostess", que considero excelente. Mas vamos fazer coisas novas no próximo ano.
Gostou de cantar no último álbum dos Giant Sand? O Howe Gelb considera-se um grande admirador seu. Presumo que o sentimento é recíproco...
Sou tão grande admiradora dele como ele é meu. Ele é uma grande fonte de inspiração para mim. Diverti-me imenso a cantar no disco. Ele fez com que eu e a Kelly (Hogan) bebesse-mos imensa tequila antes de cantarmos. Eram duas da manhã e fartamo-nos de cochichar e de rir. (risos)
Há muita gente que, tal como a Neko, faz música (americana, country, folk...) inspirada nas tradições "rurais" americanas mas que cresceu ou a ouvir música punk rock ou a tocar em bandas desse género e que ainda gosta de "rockar". Acha que há alguma relação entre o punk e o country?
Esses dois tipos de música surgiram da insatisfação e da paixão, por isso acho que essa relação faz imenso sentido.
A Neko tem uma voz muito poderosa mas começou por ser baterista. Achava que a sua vos não se enquadrava na crueza de uma banda punk rock?
Era demasiado tímida e escondia-me atrás da bateria. (risos). Acabei por cantar nessas bandas e foram elas que fizeram de mim o que sou.
Esteve em Portugal, no ano passado, com os Calexico. O que achou do que viu?
Apenas estive em Lisboa e Porto e foram só dois dias. Achei bastante bonito e gostava de conhecer mais coisas. Aquilo de que mais gostei foi da língua que achei muito musical. Era como se estivesse a escutar às portas, a ouvir o que se dizia lá dentro mas a não se entender realmente as palavras ditas.
Gosta muito de coisas antigas. Tem algum interesse em História?
Sim tenho! Mas não sou grande entendida.
Ainda faz fotografia e/ou continua a cozinhar em restaurantes?
Continuo com a fotografia mas já não tenho tempo para cozinhar num restaurante. Mas quando estou em casa cozinho afincadamente porque adoro alimentar as pessoas. (risos).
Vai andar em digressão com este álbum?
Sim. Vou levar comigo o (Tom V.) Ray e o Jon Rauhouse que também tocam em "Black Listed" (N.R.: membros dos The Sadies)
Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 13)
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