Entrevistas
THE NEW PORNOGRAPHERS
O Caos Organizado
Depois do reconhecimento que “Mass Romantic” no Norte da América, chega a vez dos New Pornographers conquistarem a Europa com a sua divertida postura e com as enérgicas canções pop que têm para oferecer. Eis o registo da humorada conversa que tiveram com a Mondo Bizarre numa nublada manhã em Lisboa.

Os New Pornographers existem desde 1996, mas só em 2001 lançaram o primeiro álbum. Essa demora deveu-se ao facto de terem muitos projectos musicais paralelos?
Carl Newman - Costumávamos ter muitos projectos em simultâneo, mas agora esta banda ocupa-nos a maior parte do tempo, é a nossa banda principal. Mas sim, foi devido a isso que demorámos tanto tempo a gravar o disco. Tínhamos um baterista que entretanto saiu, e isso atrasou-nos um pouco, bem como o facto do nosso baixista John, estar a gravar o disco apenas no tempo que tinha livre, uma vez que nós não tinhamos nenhum dinheiro, quando ele tinha tempo para fazer coisas de graça, fazia-o, mas sempre que alguém lhe pagasse, a sua prioridade era esse trabalho.

Se no futuro continuarem a ser bem sucedidos com os New Pornographers, colocam a hipótese de este se vir a tornar o vosso único projecto?
C.N. - Sim, consideramos, aliás, para nós os dois é mesmo o nosso único projecto. Para a Neko é definitivamente algo aparte, uma vez que ela não trabalhou tanto quanto isso no disco, e também porque ela faz os seus próprios discos a solo. Mas para o resto de nós é a nossa banda principal.

“Mass Romantic” já saiu há cerca de um ano no Canadá, mas só agora foi lançado na Europa. Encara este disco de um modo diferente agora do que quando o gravou, uma vez que já foi há algum tempo atrás?
C.N. - Temos muito mais perspectiva, somos muito mais objectivos agora. Logo após ter gravado o disco não o conseguia ouvir, nem sequer sabia o que pensar sobre ele, e quando o escutei pela primeira vez, não gostei. Mas agora gosto do disco, porque passou tempo, e as canções nem sequer soam mais como sendo nossas. Quando as toco, parece que estou a tocar canções de outrém. E gosto disso, de que haja uma certa distância entre ti próprio e a música.

Mas para o público europeu este disco é algo de totalmente novo, o que já não acontece com o público canadiano e americano.
C.N. - Não sei o que é que as pessoas na Europa vão pensar. Temos tido sorte, porque nunca esperámos tornar-nos populares nos E.U.A., mas tornámo-nos por acidente. Talvez haja um outro acidente aqui e nos tornemos conhecidos também na Europa.

Porque diz que foi por acidente?
C.N. - Porque nunca nos esforçámos para nos tornarmos conhecidos, o disco apenas foi editado e começou a vender. Só fomos para digressão porque o disco estava a ter boas vendas.

Fale-nos um pouco do processo de produção de “Mass Romantic”. Li algures que é um produtor bastante exigente, considera-se um perfeccionista nesse sentido?
K.D. - Não sei, o disco demorou muito tempo a ser gravado, porque pelos motivos já referidos, estávamos sempre a parar e a recomeçar.
C.N. - Até um certo ponto isso aconteceu, por vezes ouvíamos uma canção e dizíamos que isto ou aquilo não soava bem. Então tentávamos modificar a canção de modo a que colocássemos lá algo que a fizesse funcionar, mas podíamos parar a meio e concentrar-nos em outras coisas, e voltar a pegar nesse tema mais tarde. Fiz muito isso, trabalhar num tema, e depois deixá-lo em paz durante alguns dias, e voltá-lo a escutar já com alguma objectividade, mas não num sentido de perfeccionismo, apenas tentando experimentar coisas diferentes.

Pensam que os erros por vezes funcionam melhor?
K.D. - Sim, eu acho que sim.
C.N. - Por vezes ligamos apenas o sintetizador e tocamos, só mesmo para fazer barulho dum modo desorganizado, e gravamos esse tema só para ver como funciona.

Acham que a vossa música é um caos organizado?
C.N. - Sim, acho. Já ouvi essa pergunta anteriormente, ainda que apenas uma vez. E é definitivamente isso que a nossa música é. Quando as pessoas me perguntam acerca da natureza da nossa música, chego sempre a essa conclusão. Falo durante cinco minutos e no fim chego à conclusão de que é apenas melodia e caos, misturados numa amálgama.

Nunca se perdem nesse caos?
C.N. - Sim, é muito fácil. Há imensa coisa no disco que foi gravada de forma espontânea, porque quando estávamos a gravar essas ideias surgiram- nos na mente. Portanto algumas canções ficaram com cerca de cinquenta pistas de música, e no processo de mistura, tínhamos de seleccionar tudo, e decidir o que realmente queríamos salvar, e foi muito difícil. Misturar este álbum pressupôs andar a vasculhar através da música, era de facto um caos e foi complicado não nos dispersarmos de vez.

A música é de facto a nova pornografia?
C.N. - Será? Não sei... Dizemos que é, mas não sabemos qual é a nova pornografia. Foi um nome que começou por não ter nenhum significado. Começou apenas por ser um nome “nonesense”, e obteve mais tarde um significado quando descobrimos que havia um livro cujo titulo é ,“Music: The New Pornography”, o que para nós foi uma sorte.

O vosso próximo disco será na mesma linha sonora de “Mass Romantic”?
K.D. - Não será completamente diferente.
C.N. - Quero que hajam algumas baladas no próximo álbum. É dificil fazer boas baladas. Já começámos a gravar o disco, e vamos tentar terminar as gravações do próximo disco nos próximos dois meses. Mas agora a situação é diferente. Quando começámos a gravar o “Mass Romantic” não sabíamos se alguém iria gostar do disco, agora é diferente porque sabemos que há muitas pessoas que estão à espera do nosso próximo disco, há alguma pressão, mas é bom termos alguma pressão.

Penso que a vossa canção“Letter From an Occupant foi incluída no filme “Jay and Silent Bob Strike Back”. Como aconteceu isso?
C.N. - Viu o filme?

Não, penso que nem sequer estreou ainda em Portugal, embora não tenha a certeza.
C.N. - Provavelmente nem estreará, penso que tem um tipo de humor que não agrada muito ao público europeu. Sinto-me um pouco estranho a falar disto, porque fico contente por o realizador ter utilizado o nosso tema no filme, mas o filme é péssimo, mesmo muito mau. Saímos a meio, fomos lá só ver como tinha sido usada a nossa canção no filme, e assim que a ouvímos, olhámos uns para os outros, levantámo-nos discretamente e fomos embora (risos). Fico contente por ele ter usado o nosso tema, e acredito que estava a querer fazer um bom filme, mas o facto é que lá para as tantas descamba. A nossa canção foi inserida no último momento, ouvi dizer que ele gostou do disco, então decidiu escolher um tema nosso, telefonou-nos e pediu-nos se podia inserir esse tema no filme, e assim o foi. E o filme estreou logo, um ou dois meses depois, portanto era um filme que já estava terminado e no qual foi inserido o nosso tema a posteriori. O que é visível, pois no momento em que se ouve a canção, estão umas mulheres a dançar e vê-se que não estão a dançar ao ritmo do nosso tema, estão completamente fora de tempo. Estavam a dançar ao som da sua própria música. É um filme de Hollywood, com o Ben Affleck, o Chris Rock (mas acho que saímos antes de ele aparecer).

Mas pode ser um bom veiculo para promover a vossa música.
C.N. - Sim, mas é dificil dizer, penso que isso pode ajudar no sentido de o nosso vídeo ter passado também na MTV.

Autorizariam a presença de um tema vosso num anúncio publicitário?
C.N. - Adorávamos que isso acontecesse. Já ouviu falar dos Dandy Warhols? Eles foram muito beneficiados com isso. Seria óptimo se tal coisa acontecesse...
K.D. - Não sei bem. Lembro-me de ser miúdo e de ver um anúncio da marca de carros Buick, e de ouvir no fim “Come on Buick light my fire”, e eu pensava, “isto não é assim, há qualquer coisa aqui que não bate certo”.
C.N. - A minha namorada disse-me que se eu cedesse uma canção nossa para a Nike, que acabava comigo. E eu perguntei-lhe: “e se eles me derem um milhão de dólares?”, mas ela diz que não, que acabava à mesma comigo. Seria uma decisão difícil.

Mas ainda assim gostariam de ver um tema vosso num anúncio?
K.D. - Não me importava se fosse para a Machintosh, podia ser que me dessem um novo Mac (risos).

Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 11)