NICK CAVE
A TERNURA DOS 40
Nick Cave já não é o mesmo. Depois de um disco tortuoso como "Boatman's Call" onde exorcisou todos os seus fantasmas, Cave encontrou a paz pessoal em "No More Shall We Part". Aquele que em tempos destruia palcos ao lado dos Birthday Party, prefere agora a segurança do lar. A idade não perdoa.
O público português presta-lhe um culto devoto e tem acompanhado o seu trabalho desde há longo tempo. Pensa que é porque percebemos que sente e entende perfeitamente o sentido do fado e saudade?
Possivelmente. Não sei porquê, mas sou sempre surpreendido porque as pessoas gostam sempre do que faço.
Talvez, porque é um artista muito intenso, e os portugueses gostam dessa intensidade...
Tento ser o mais verdadeiro possível com o que estou a fazer. A sério, trabalho bastante e o que surge da minha escrita, surge. Nunca me sento a pensar se hoje vou escrever um canção triste. Acho que já não tenho muito controlo sobre o que escrevo. É apenas o que faço.
Consegue separar o Nick Cave-pessoa do Nick Cave-artista?
Não vejo grande diferença. Para escrever as canções tenho um escritório, onde vou todos os dias. Às 9 da manhã já lá estou, venho-me embora às 6 da tarde e é isso que faço todos os dias: escrever canções, tocar piano, fazer outro tipo de escrita. É apenas o que eu faço, por isso acho que não tenho que me tornar numa pessoa diferente para fazer isto. Sou o que sou.
Mas alguns músicos assumem uma dupla personalidade: o homem é diferente do artista...
Acho que algumas pessoas tem pré-concepções de como é suposto eu ser. Muitas vezes ficam surpreendidas por não ser como eles pensavam que eu era. Não tenho tempo para me preocupar com isso. Acordo de manhã, olho para o espelho e sou quem sou, o que quer que isso seja...(risos)
Quem acompanhou o seu trabalho percebe que sempre foi uma pessoa espiritual, mas no novo álbum assume ainda mais essa espiritualidade. Concorda?
Acho que este disco não precisa de provar nada em particular, não acho que seja um disco religioso nesse sentido, aliás não é de maneira alguma um disco religioso. Existem canções que tem títulos religiosos, como o "Hallelujah", "My Lord", etc, mas isso tem a ver com outras coisas. Durante o disco eu grito o nome de Deus, ocasionalmente, mas o disco é sobre outras coisas.
Entre o Céu e a Terra
O novo álbum tem a particularidade de ser difícil de gostar à primeira audição...
Sim, a maioria disse isso. Dei-o a algumas pessoas e assim que o ouviram, ligaram e perguntei-lhes o que achavam e por cortesia disseram que era bom, mas uma semana depois voltaram a ligar a dizer que realmente gostaram. Penso que isso é excelente.
Há uma ambiguidade e um certo sentido de liberdade. Como no tema em que canta "I left home without my coat and my nurse wouldn't allow me to do that". É como se a rebeldia se fundisse com a liberdade.
Pode dizer-se que isso acontece, mas no final o personagem decide que será melhor voltar para casa e ficar com a sua enfermeira e não correr riscos. Voltar à sua medicação, voltar onde é seguro. Uma boa parte do disco é sobre isso. O "Oh My Lord" começa com "I thought i'd take a walk today, it's a mistake I sometimes make", sugerindo que será melhor ficar em casa e não sair da porta para fora.
De onde vem esse medo?
À medida que vou envelhecendo, sinto a necessidade de me proteger mais, sinto-me cada vez mais ameaçado e não sei bem porquê. Talvez dê mais importância às forças que andam à volta do mundo, já que quando era mais novo não ligava nenhuma. Sinto que estou mais consciêncioso do que se está a passar e consequentemente mais amedrontado. Pela primeira vez na minha vida tenho um ambiente de segurança em casa. Tenho uma mulher por quem estou completamente apaixonado, tenho mais filhos. Sinto-me bem estar ali. Por isso é que durante o disco existe esse tipo de coisa interna e externa, sendo a interna a segurança e a externa insegurança.
Sente que há uma batalha entre "Deus" e o "Diabo"?
Pode ser que sim, não sei, para mim pode ter a haver com o facto de me expôr ao mundo e sentir-me um pouco desconfortável a maior parte do tempo.
Mas se não divide o Nick Cave homem do Nick Cave músico e faz discos pessoais está a expôr os seus sentimentos. Não devia ter-se habituado já a isso?
Eu não gostaria de fazer um disco onde não pudesse expôr os meus sentimentos, mas por isso é que acho que o "Boatman's Call" é um disco muito incómodo. Na altura estava num estado mental em que me pareceu ser a melhor coisa a fazer. Às vezes ouço esse álbum. Não o ponho a tocar, mas se o ouço por acaso, para mim soa como o gemido de um insecto moribundo. É tortuoso e apetece-me pedir para o tirarem. Porque de todos os álbuns que fiz esse é o que carrega mais peso emocional. Normalmente não se pega nesse disco só para ouvir as canções, quando se ouve experimenta-se também algo que está para além do disco, o que está escrito, como eu me sentia na altura, as minhas relações com quem quer que seja. Por isso volto a dizer que acho esse disco um pouco desconfortável. O novo não é assim, apesar de vir do coração e de mostrar o que se passava comigo quando o escrevi, não tem o mesmo aspecto confessional. Pessoalmente acho que é muito fácil escrever uma canção confessional. Essa canção é suportada pela bagagem extra. É muito mais difícil escrever uma canção que não lida com isso.
O "Boatman's Call" é, de facto, um disco muito intenso...
Sim, mas para mim não sugeriu um caminho seguinte. Foi como uma estrada sem saida. Acabou-se. E agora o que é que eu vou fazer? Penso que a minha vida criativa tem sido chegar cada vez mais perto da verdade das coisas e despir toda a decoração e os aspectos inúteis da música. E isso aconteceu imenso nesse álbum. Eu não sabia muito bem o que fazer a seguir. Levou-me algum tempo para encontrar outro caminho. Nessa altura comecei a fazer outro tipo de coisas...
Foi por isso que chegou a fazer alguns concertos acústicos?
Foi incrivelmente importante para mim fazê-lo porque podia cantar e tocar piano ao mesmo tempo, e enquanto cantava dirigia a música com o piano, o que é bastante diferente do que faço com os Bad Seeds onde há apenas esse ruído monstruoso onde eu canto por cima. Fazendo esses concertos pequenos aprendi também muito sobre música, como fazer música e como ser um músico. E isso mostrou-me o caminho a seguir neste novo disco. Foi de uma importância muito grande.
Pensa que de algum modo aprendeu a controlar a força de cada canção, porque no "Boatmans Call" e no novo álbum, as canções são mais lentas e mais calmas, mas o murro que dão no ouvinte tem a mesma força de antes, quando eram mais caóticas?...
Fico satisfeito por ouvir isso. É necessario entender as circunstâncias em que escrevo. Em álbuns anteriores ia só com 3 ou 4 canções, algumas letras e havia essa ideia louca de pânico para escrever música e construir as canções no estúdio. Os últimos dois discos não foram assim. Com este fui para estúdio com as canções totalmente escritas. Como disse, escrevi-as no meu escritório sentado ao piano, sozinho. Nesse tipo de situação é dificil escrever uma canção violenta. É mais fácil escrever uma coisa mais melódica do que massacrar o piano o dia inteiro. Porque quando estou sozinho a minha mood é mais sensível, mais saudade, nesse sentido. Há uma certa melancolia em estar-se só. Por isso escrevo mais deste tipo de canções. A violência e a raiva contida nalgumas canções do novo disco vêm de uma espécia de explosão que acontece com a banda. Sigo-lhes o rasto e berro por cima, como no "Oh My Lord" ou "The sorrowfull wife". Eu preciso da banda para retirar este tipo de coisas cá para fora. É por isso que gosto de tocar com os Bad Seeds ao vivo, porque isso ainda não mudou, são uma banda muito forte.
Saber envelhecer
Faz música há 20 anos, sabe perfeitamente as direcções que tem de tomar, já não tem que provar nada a ninguém?
Sinto que consigo controlar mais as coisas e sinto que os Bad Seeds cresceram e tornaram-se cada vez melhores na medida que têm a capacidade de tocar um tema que seja tremendamente forte e de repente tocar algo mais frágil e isso requer uma boa dose de controlo sobre o que acontece em palco, tem muito a ver com a concentração dos músicos. Há dez anos isso não acontecia, podiamos tocar uma canção pesada e a seguir uma canção calma que soava na mesma pesada. Não tínhamos controlo sobre nada. Algumas pessoa podem pensar que é uma coisa boa, outras podem pensar o contrário.
Pode ser visto como uma evolução, uma vez que ao ficar mais velho e mais consciencioso, se tem uma maior habilidade para explorar?...
Para mim, que tenho 43 anos, não faz sentido fazer a mesma música que fazia há vinte anos, deixo esse papel para as novas gerações. Estou muito interessado no processo de envelhecimento: o que acontece com outras pessoas e o que acontece comigo quando nos tornamos mais velhos, acho isso muito interessante. Não quero ser um tipo com 43 anos a portar-se com se tivesse 20, deixo isso para o Mick Jagger. (risos) No mundo da música é muito dificil manter a dignidade, torna-se cada vez mais difícil porque a música rock é cada vez mais uma experiência para os jovens...
É como um vampiro que suga a juventude e quando os anos passam as pessoas começam a apontar o dedo e a dizer que os artistas já não servem...
A minha mensagem para eles é: vão-se lixar!
Alguma vez pensou fazer uma concerto em que participassem todos os músicos que já passaram pelos Bad Seeds?
Não. Eles tiveram o seu tempo e não há nenhum palco no mundo que seja grande o suficiente para os colocar todos.
Como se sente numa editora como a Mute que lhe dá total liberdade e apoio para fazer o que quer que seja, como discos de spoken word, etc...
Estou muito contente. Não trabalharia com mais ninguém a não ser que eles me despedissem, o que acho que não irá acontecer. Há um sentimento de proximidade entre todos os que trabalham lá. Não existe uma divisão assumida entre as bandas e a editora, é como uma familia. Por isso é que eu faço aquilo que eles me pedem, se é para fazer estas entrevistas, tudo bem, é a minha parte no processo e enquanto me deixarem fazer os discos sem meterem o nariz, eu não me meto no trabalho deles. E desta maneira as coisas resultam muito bem. Não tenho um A&R qualquer a ouvir os meus temas e a dizer: "não, as guitarras estão muito altas", etc... Não temos esse tipo de problemas. Vejo o que se passa com outros músicos meus amigos que estão noutras editoras e tudo é fantástico durante um par de anos, depois são despedidos, e apesar de continuarem a escrever canções não têm quem as edite. É muito deprimente. Somos muito cautelosos com o negócio por essa razão.
A maioria dos temas deste disco foram colocados no site para que os fans pudessem fazer "download" antes do disco sair. A ideia foi sua?
Não, foi mais uma das ideias absurdas que a editora teve. Há uns anos atrás um artista editava um disco, as pessoas compravam, faziam-se algumas entrevistas, colavam-se uns posters, era tocado na rádio, e já chegava. Hoje existem estas campanhas massivas, com singles com bónus, um rol interminável de pré-publicidade. Quando acabo de fazer um disco estou tão exausto do processo, que já não quero saber de mais nada. Só digo à editora para eles fazerem o que tem de fazer. O vosso trabalho é vender discos, o meu é fazê-los.
Mas não se sente confortável com o que se passa na internet à volta deste disco?
Eu fico contente com isso, mas pessoalmente não sou um internet freak. Ocasionalmente contam-me algumas coisas que se passam lá.
Outros projectos
Nos últimos três anos tem trabalhado noutros projectos para além da música, mais do que anteriormente. Está cada vez mais a tentar afastar-se do músico e a tornar-se mais num "artista"?
Sempre tive interesse noutras formas de arte e não me sinto preso apenas à escrita de canções.
Até que ponto é que as outras formas de arte influenciam a sua música e vice versa?
Não sei bem, eu passo de uma coisa para a outra, não costumo fazer duas coisas ao mesmo tempo, mas estou sempre a fazer alguma coisa. Neste momento estou a escrever o argumento para um filme do Johnny Hilcoat - que fez "Ghosts of the civil dead"- o tal filme sobre a prisão onde eu entro. Este é o seu terceiro filme sobre um assunto em particular, mas ele não quer que isso seja revelado para já. A música é uma parte fundamental dentro da escrita desse argumento. Todo ele tem anotações musicais, do tipo "aqui entra um violino". Normalmente isso não aparece num argumento, é metido depois...
Enquanto escreve o argumento está quase a compôr a banda sonora...
Sim, ao mesmo tempo. Enquanto escrevo tenho consciência de onde a música deve entrar, onde nada deve acontecer. Por isso muitas vezes, as actividades extra curriculares que faço, estão sempre ou de alguma maneira relacionadas com a música.
Neste álbum o seu registo de voz toma várias formas. Aliás no primeiro tema parece o Brian Ferry a cantar...
Já é a segunda pessoa que o diz, por isso deve ter razão. Mas garanto que não é intencional, apesar de gostar muito da voz do Ferry. É porque é um registo mais agudo. Mas fico feliz porque gosto muito dele, podia ter sido comparado com alguém muito pior. (risos) Há no entanto uma história curisosa, já que há um ou dois anos participei no festival Meltdown em Londres, com muita gente diferente, e convidei o Brian Ferry para cantar algumas velhas baladas folk americanas, o que ele acabou por fazer e foi fantástico. Para mim há algo de estranho e arrepiante na sua voz. Nem sempre gosto daquilo que ele canta ou da sua música, mas há algo na sua voz que me atrai.
Também tem o "Hallelujah" com as vozes femininas no final, e a primeira vez que ouvi esse tema, lembrei-me da Marianne Faithfull a cantar essa parte. Alguma vez lhe ocorreu isso?
(risos) Não, nunca me ocorreu isso, apesar de eu a ter conhecido recentemente e de lhe ter perguntado se queria que escrevesse um tema para ela, por coincidência soube que está a gravar um novo disco e que quer fazer uma versão do "The Ship Song", o que para mim é óptimo. Mas disse-lhe se quiseres outras canções eu posso escrever algumas ou podes utilizar todos os meus temas. Ela agradeceu.
Falando de versões, o que sentiu quando o Johnny Cash, gravou o "The Mercy Seat"?
Senti-me muito orgulhoso. Para mim é uma honra. Ouvi o Johnny Cash toda a minha vida, mesmo em criança, porque na Austrália tinhamos um programa de televisão chamado "The Johnny Cash Show". Lembro-me de assistir juntamente com os meus pais, e ele começava o programa sempre de costas voltadas e virava-se a dizer: "Hello, I'm Johnny Cash". Ele vestia-se sempre de preto e eu achava-o o máximo. Nunca esperei que isso acontecesse, a versão dele é fantástica, juntamente com o "I See A Darkness" do Will Oldham, que compete bastante com o original.
Quem são os artistas contemporâneos que mais respeita?
Sou um grande fã do Will Oldham, Palace, Bonnie "Prince" Billy, ou lá como ele se chama. Acho que uma grande percentagem do que ele escreve é fantástica. Não gosto de tudo, mas gosto bastante da sua música. Acho que já chega.
Como é que se sentiria se um artista português decidisse fazer-lhe um album tributo?
Acho que ficaria muito feliz. Pessoalmente acho que esse tipo de discos não são muito bons. Já participei nalguns tributos, como ao Leonard Cohen e ao Neil Young, mas na sua maioria são uma ideia absurda. No fim de contas quem é que os ouve? Provavelmente ouvem-se uma vez para ver o que as pessoas fizeram e as coisas ficam por aí...
Não será porque está demasiado vivo para receber uma homenagem dessas?
Sim, esperem até eu morrer e mandem o dinheiro à minha família...
Entrevista: Nuno Calado - Edição: Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 7)
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