Entrevistas
NINA NASTASIA
“A MÚSICA SÃO OS SENTIMENTOS, AS PALAVRAS ENCONTRAM UM SENTIDO PARA ELES”
Nina Nastasia estreia-se esta semana ao vivo em Portugal. A intérprete e compositora não traz um álbum novo, mas promete apresentar muitos inéditos, que quer “rodar” nos concertos, antes de os gravar naquele que será o sucessor de “Run To Ruin”, de 2003. Em conversa com a Mondo Bizarre, a norte-americana de ascendência italiana levanta a ponta do véu sobre a sua música seca e enigmática. Duas curiosidades: não, ela não ouve world music da Europa de Leste, e aos calhamaços de terror tem preferido livros de culinária. Para ver ao vivo a 22 de Abril, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, e dois dias depois no café-concerto da Casa das Artes em Famalicão, antes do arranque do Festival Tímpano.

Está prestes a vir a Portugal, para dois espectáculos. Esses concertos fazem parte de uma digressão de promoção a um novo álbum? Planeia lançar o seu quarto disco em breve?
Por enquanto, ainda não há álbum novo. Mas vou tocar muitas canções novas. Gosto de as cantar ao vivo durante algum tempo, antes de as gravar. Álbum novo, provavelmente só no próximo ano.

O que podemos esperar dos concertos em Famalicão e Lisboa? Em Famalicão, vai actuar numa pequena sala, numa iniciativa que antecede um festival de singer songwriters. Em Lisboa, a sua performance vai ter lugar num espaço underground de boa reputação. Vai tocar canções novas ou mais antigas?
Uma mistura de ambas, mas para Portugal, serão sempre novas! Então vou perder um festival? Não parece muito sensato, da minha parte.

Li que, muitas vezes, actua com uma banda de quatro ou cinco músicos, que tocam guitarra e bateria, mas também violino, acordeão... Acha que é essencial ter uma banda com essas características, na apresentação ao vivo da sua música? Eles vêm acompanhá-la a Portugal?
Por acaso, penso muito sobre isso. Há muita coisa que se desenvolve com a banda, ao longo do tempo, pelo que certas canções têm uma tradição que é estranho quebrar. Só um ou dois músicos irão comigo a Portugal. Talvez parte dessa atmosfera tenha de ser substituída, apenas, pelo silêncio. Mas eu também gosto disso. Porque é assim que tudo começa para mim: ponho-me a imaginar que estou a ouvir muito mais coisas. Talvez para as outras pessoas é que não seja tão bom, sem os outros músicos, não sei.

Os seus discos têm geralmente uma atmosfera pesada, carregada emocionalmente. Suponho que tenha de inventar personagens, em certas canções, para retratar as histórias e situações. Como é que lida com isso em palco? Faz um pouco o papel de actriz, também?
Não, de todo. Talvez seja pouco interessante, porque nos meus concertos não há nada disso. Não danço, não choro, não imito sotaques estrangeiros. Não sou muito faladora.

Quanto ao ambiente noir das suas canções, sempre lhe saiu com naturalidade? Tem alguma coisa a ver com os seus livros, filmes ou músicos favoritos?
Bem, gosto da forma como coloca as perguntas. É diferente, o que faz que seja um pouco mais natural responder. Mas, ainda assim, é difícil. No cinema, tanto vou a um filme de terror, como a uma comédia romântica – o meu gosto é mais variado do que aquilo que faço. Adoro livros pesados, documentários sóbrios, canções esparsas. Mas na realidade o que tenho andado a ler é receitas de bolos. Mas ainda não me sinto preparada para cantar sobre isso. Há quem esteja, no entanto.

As suas letras fazem-me pensar, muitas vezes, numa visão pessoal de uma cena de crime, ou em situações pós-traumáticas. Deve ser uma observadora muito atenta das pessoas. O facto de viver em Nova Iorque faz com que tenha muitas histórias para contar?
Estou certa que viver em qualquer sítio tem o mesmo resultado. O que conta aqui não é o cenário ser pouco usual, penso eu. É mais o feeling. Mas a música vem primeiro, quase sempre. É como acordar com uma determinada disposição e encontrar uma situação para a explicar. Ou construir uma narrativa a partir de um sonho feito de sentimentos dispersos. Bem, a música são os sentimentos, e as palavras encontram um sentido para eles.

No entanto, costuma abstrair-se de comentar essas mesmas histórias. Prefere contá-las, apenas, usando frases curtas e sem acrescentar a sua opinião, como se o seu songwriting “objectivo” fosse uma espécie de jornalismo?
Não comento porque não confio em mim mesma, nem em quem pergunta.

Nasceu em Los Angeles e mudou-se mais tarde para Nova Iorque. Hoje em dia, a que cidade é que chamaria sua casa?
Vivo em Nova Iorque. Não sinto muito mais [pela cidade] do que isso.

No ano passado, o seu primeiro álbum, “Dogs”, foi finalmente reeditado. Como é que os seus fãs reagiram, já que muitos nunca tinham tido a oportunidade de comprar o disco?
É difícil saber como é que as pessoas estão a reagir. Muito do feedback chega-me das pessoas cujo trabalho é escrever sobre discos. Toda a gente que conheço já tinha a edição antiga. Mas espero que estejam em delírio!

Sentiu-se tentada a ouvir o disco outra vez? Acha que mudou muito, entre a primeira e a segunda edição de “Dogs”, ou seja, entre 2000 e 2004?
Nestes três discos [“Dogs”, 2000, “The Blackened Air”, 2002, e “Run To Ruin”, 2003] quase tudo foi escrito por volta da mesma altura. Houve uma construção para fazê-los soar diferentes. No entanto, há algumas mudanças, por isso sim, penso que mudei. Mas talvez não da forma que possam pensar; tem mais a ver com a ordem, com a recolha [de elementos].

Após a primeira edição de “Dogs”, os seus fãs reuniram-se na Internet e exigiram uma reedição. Ficou surpreendida com uma reacção tão entusiasmada à sua música, que é por vezes sombria e algo intrigante?
Fiquei sobretudo triste por [os fãs] não conseguirem encontrar o disco. Senti-me pressionada para que isso acontecesse, e não sabia como havia de consegui-lo. Estou a falar de pormenores técnicos, ligados ao negócio. Não gosto desse lado deste mundo, não acho nada divertido.

Um dos primeiros radialistas a divulgar a sua música foi o malogrado John Peel. Chegou mesmo a gravar uma Peel Session, e quando ele morreu, participou no concerto de homenagem à sua obra. Sentiu que era importante prestar tributo a alguém que admirava e tentava promover o seu trabalho?
Era essencial.

Trabalha, desde há muito, com Steve Albini, que além do seu papel na história do rock, enquanto músico, produziu também alguns dos discos da Shannon Wright. Como é que ele lida com sons mais ligados à folk?
Não estou certa sobre como responder. Acho que a Shannon Wright é grande, [mas] não lhe chamaria folky. Talvez seja um problema de tradução. Steve Albini é um bom ouvinte. Ele ouve o que está no estúdio, não o que está na sua cabeça. E isso funciona com qualquer tipo de música que faças em estúdio.

Os seus discos sugerem, também, que ouve alguma world music, sobretudo da Europa de Leste. Quais os seus artistas favoritos, neste momento?
Não, nem por isso. Não ouço muita música que seja eu a escolher. Talvez não acredite, mas é verdade! Gosto sobretudo de música ao som da qual possa limpar a casa, coisas assim com ritmo ou bastante barulhentas.

Uma última pergunta. Quão importante é para si ter em Kennna Gudjonsson o seu parceiro musical e pessoal? Tem sido sempre assim?
Ele é o membro principal da banda. É muito importante para mim. Há muitos anos que faz parte de tudo isto... Somos muito bons amigos.


Lia Pereira
(Mondo Bizarre - Abril 2005)