Entrevistas
NO-NECK BLUES BAND
CELEBRAÇÃO CÓSMICA

“Free improvisation, in addition to being a highly skilled musical craft, is open to use by almost anyone: beginners, children, and non-musicians. The skill and intellect required is whatever is available. Its accessibility to the performer is, in fact, something which appears to offend both its supporters and detractors... And as regards method, the improvisor employs the oldest in music-making... Mankind's first musical performance couldn't have been anything other than a free improvisation”. A afirmação partiu de Derek Bailey e pode muito bem resumir a postura da No-Neck Blues Band, um dos colectivos mais importantes da música periférica feita em Nova Iorque nos últimos 10 anos. Tal como no início, continuam a fazer aquilo que lhes apetece sem dar satisfações a ninguém (tanto no que diz aos discos e à sua edição como aos concertos e os seus locais). Não procuram seguir modas (antes pretendem fugir-lhes), e o espírito de independência que orgulhosamente demonstram não pode ser outra coisa senão admirável. Prova evidente desse espírito é a entrevista com Dave Nuss, onde se abordam os temas mais prementes da já longa existência da No-Neck Blues Band. O colectivo nova-iorquino regressa este mês a Portugal para dois concertos: o primeiro no dia 29 na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa e o segundo no dia 30, na Casa da Música, no Porto.

A No-Neck Blues Band foi primeiramente constituída em 1992 e desde aí o colectivo sofreu várias alterações. Como é que uma formação em constante mudança sobrevive através do tempo?

Não, por acaso isto não é verdade. A No-Neck Blues Band formou-se lentamente com três, depois quatro, depois oito membros em 1996. A única mudança foi o Jeff ter saído, por isso agora somos sete – mas os mesmos membros de há 10 anos, com muitos de nós na banda há 12 ou 13 anos. Outra questão é: como é que uma formação que nunca muda sobrevive?

O que é que mudou musicalmente em Nova Iorque desde o ano de criação da No-Neck Blues Band até hoje? Como é que isso afectou a No-Neck Blues Band?

Ao tocar tornamo-nos melhores naquilo que fazemos musicalmente, mas a ideia da banda mantém-se a mesma.

Em 1999, estiveram em digressão com John Fahey, que vos apelidou a sua nova banda favorita e assinou-os na sua editora, a Revenant. O que é que se lembram desses dias?

Lembro-me que o Fahey veio ao nosso edifício, o Hinthouse, em Harlem por um momento. Ele usava jeans rasgadas com uma corda como cinto e adormecia sempre. Uma vez dormiu a noite toda com uma banana descascada na mão! Ele apaixonou-se por duas raparigas jovens e belas no nosso edifício e enviou-lhes cartas e cassetes e sinais do seu afecto durante meses.

Podemos falar de uma No-Neck Blues Band antes e depois da experiência com John Fahey? O que é que aprenderam com ele?

Dele aprendemos a celebrar aquilo que é excêntrico em cada um de nós, como ele fazia.

”Sticks and Stones May Break My Bones But Names Will Never Hurt Me”, lançado no Outono de 2001, é muitas vezes apontado como sendo o disco mais forte da No-Neck Blues Band. Concorda?

Foi o nosso primeiro álbum de estúdio, acho que a primeira vez em que podíamos ouvir de verdade aquilo que cada um de nós contribuía individualmente para o som da banda, em vez de o ouvir apenas como uma massa colectiva de som. Por isso com este álbum aprendemos acerca de definição. No entanto, acho que cada álbum é forte pelas suas próprias razões, como representativo do tempo em que foi feito.

Em 2000, John Fell Ryan saiu da formação para formar os Excepter. Vê o trabalho dos Excepter como uma ramificação óbvia da No-Neck Blues Band ou crê que o trabalho de John Fell Ryan nos Excepter é o trabalho que ele nunca faria ou poderia fazer na No-Neck Blues Band?

Acho que é mais o trabalho que ele nunca poderia fazer na No-Neck Blues Band, e é brilhante. De certa maneira, o Jeff queria “liderar” a nossa banda, mas cada personalidade na No-Neck Blues Band é muito forte e não susceptível a ser liderada. O Jeff fez a coisa certa ao trabalhar por si próprio, e todos continuamos grandes amigos e apoiantes.

"Letters from the earth", editado em colaboração com o selo Ser, é um disco com 111 minutos ou coisa assim de No-Neck Blues Band. Ouvi dizer que foi na sua maioria gravado num telhado de Nova Iorque. Confirma?

Sim – é apenas reeditado pela Very Friendly no Reino Unido. Documenta o nosso primeiro concerto ortodoxo de Páscoa ao ar livre de sempre em 1996, tocado no teclado de um edifico da Chinatown em Nova Iorque toda a tarde e noite.

Este ano de 2006 viu uma colaboração total entre a No-Neck Blues Band e os experimentalistas do krautrock alemães de longa data Embryo. O que nos pode contar acerca desse lançamento?

Os Embryo foram sempre grandes modelos para nós de músicos com grande integridade que sempre persistiram com a sua obscura e singular missão que dura há quase 40 anos. Eles foram sempre ferozmente independentes, fazendo sempre coisas com a sua própria editora e fazendo os seus próprios festivais, abstiveram-se do sucesso comercial em favor da ligação à exploração do som – no caso deles música étnica. Para mim os discos deles do final dos anos 70 e inícios dos anos 80 são os meus discos favoritos. Ainda andam em digressão numa ambulância cor-de-rosa e comem latas de feijões na berma da estrada sem problemas, apenas felizes por tocarem música.

Vocês também têm a vossa própria editora - chamada Sound @ One – onde têm editados alguns dos vossos discos. Quais são os resultados práticos dessa liberdade na vossa criatividade musical?

Quando a No-Neck Blues Band começou não havia assim tantas editoras underground interessadas neste tipo de música, por isso pensamos que começar a nossa própria editora seria a melhor forma de lançar música que capturava a nossa visão sem esperar impressionar outra pessoa, e para fazê-lo ao nosso próprio passo. A mesma coisa com o termos feito o nosso próprio espaço de ensaio e local de concertos. Sem confusões.

A No-Neck Blues Band lança várias vezes discos que provêm de concertos ao vivo e parece que os vossos concertos são momentos em que criam algo de novo, algo único. É isso que procuram nos vossos concertos, encontrar novas formas de seguir com a vossa música?

Sim, novas formas para nós sempre, mas também a mesma forma antiga como a música tenha sido tocada desde o princípio dos tempos. Nós não estamos a fazer algo tão diferente da música de qualquer tempo, acho eu. Apenas pessoas sentadas a tocarem música sem alguém a dizer-lhes aquilo que tocar – nada de especial!

Alan Licht disse: "Acho que há um grau de sucesso e falhanço em toda a música improvisada. Eu digo sempre que é como viver um dia da vossa vida, não é um minuto excitante a seguir ao outro; são períodos de excitação e aborrecimento”. É isto que sente?

Bem, sim. Eu acho que música improvisada é muito mais encapsular aquilo que é caminhar, falar, respirar, cagar, viver ou comunicar como um grupo. A dinâmica está sempre a mudar, por isso não é tanto acerca da capacidade – fazer algo conscientemente – mas sim apenas ter uma experiência autêntica e com significado.

Ao longo dos tempos actuaram de borla em cais, em parques públicos, e em telhados e também receberam concertos no vosso espaço de performance em Harlem. Porque é que são tão relutantes em tocarem em bares ou clubes nocturnos?

No inicio ou éramos expulsos de bares ou então adoptados por algum “prestável” dono de clube que queria ser o nosso mentor. Apercebemo-nos que a nossa música é melhor escutada em cenários mais naturais, ou pelo menos em cenários onde não temos que lutar para expressar as nossas ideias.

Ouvi dizer que a policia encerrava frequentemente os concertos no vosso espaço de performance. Como era o ambiente geral desses espectáculos?

Não, nós nunca tivemos problemas com a polícia no Hinthouse, em Harlem. A polícia cancelou um espectáculo no parque há uns anos atrás por causa de uma queixa de um dono de um restaurante perto, mas geralmente não temos problema com a polícia. Os nossos espectáculos na Hinthouse são sempre muito divertidos, toda a gente vem para se divertir, e é sempre “Noite da Mulher”!

Vêm a Portugal para dois concertos em duas salas completamente diferentes: a Casa da Música, no Porto, e a Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. O que é que se pode esperar destes concertos?

Da última vez não tínhamos a Michiko, a performer japonesa na nossa banda. Desta vez temo-la, por isso isso vai trazer algo nosso para a audiência. Ela é uma performer especial mas não pode viajar durante muito tempo, por isso organizamos isto agora para que ela pudesse estar em Portugal. É um prazer ela ir estar connosco.

André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre - Maio 2006)