LULU BLIND / SUPEREGO / SLAMO
O ESTADO DA NAÇÃO
Juntamos à mesa três bandas: Lulu Blind, Superego e Slamo com o propósito de promover um debate sobre algumas das questões relacionadas com o estado das coisas no cenário rock actual e, em particular, o meio musical português.
As edições recentes de "Foge De Ti" dos Lulu Blind, "A Lenda Da Irresponsabilidade Do Poeta" dos Superego e "Room Without A View" dos Slamo serviram de pretexto para um diálogo aberto onde se cruzaram opiniões e ideias que definem um posicionamento e uma atitude por parte destes músicos, pretendendo-se assim desvendar o que significa para eles fazer rock na presente conjectura musical, política e social. Escolhemos estes três grupos que foram responsáveis por alguns dos melhores trabalhos do rock feito em Portugal nos últimos anos e que, de certa maneira, representam a diversidade de propostas estéticas dentro do género, que por cá têm vindo a desenvolver-se. Ao encontro compareceram Tó Trips (vocalista/guitarrista dos Lulu Blind), Jorge Cruz, Leandro Silva (respectivamente vocalista/guitarrista e baterista dos Superego), Tóbel e Filipe Sousa (vocalista e guitarrista dos Slamo).
Nos últimos anos, temos assistido a um aumento considerável de bandas rock portuguesas que escolhem o inglês para se expressarem. Qual é a vossa opinião em relação a este assunto?
Tó Trips - Cada um faz aquilo que entender. A música é como na pintura, dá liberdade para fazeres o que te apetece. No primeiro disco, tínhamos um tema cantado em chinês por um amigo nosso de Macau. Agora resolvemos cantar em português porque queremos chegar às pessoas e dizer qualquer coisa em português, o que não quer dizer que não se deva fazer noutra língua.
Jorge Cruz - Para mim, só faz sentido cantar em português em Portugal. É óbvio que toda a gente é livre de cantar de qualquer maneira, em qualquer língua. Há uma grande maioria de bandas portuguesas a cantar em inglês. Isso é sintomático, quer dizer alguma coisa. A tendência é para que haja cada vez menos bandas a cantar em português. Isso acontece porque os nossos músicos reflectem pouco sobre o que estão a fazer, e de alguma forma, estão a fugir de si próprios, como diz o título do novo dos Lulu Blind.
Filipe Sousa - Nos Slamo, ninguém pensa fazer música tradicional portuguesa. Inspiramo-nos no rock anglo-saxónico, porque crescemos a ouvir esse tipo de música e quando começámos a tocar, para nós foi natural cantar em inglês.
Em português, as pessoas entendem mais facilmente o que as bandas têm para dizer. Se calhar, as letras dos Xutos ou dos Clã têm mais impacto junto das pessoas por serem cantadas na nossa língua...
J.C. - Isso é secundário. Eu nunca pensaria cantar em português só porque as pessoas iam perceber melhor. Nós fazemos fados e estamos interessados em fazer música tradicional portuguesa. No entanto, não me parece que o rock cantado em português, tenha que ter alguma coisa a ver com a música tradicional portuguesa.
F.S. - A nossa principal função na música não é passar uma mensagem. A nossa mensagem é apenas a música.
T.T. - Eu não domino o inglês tão bem como o português. Cantar em português tem a vantagem de se ganhar um lado mais interventivo. No início, os Lulu Blind não estavam interessados em ideologias ou dizer algo de importante às pessoas. Agora queremos escrever letras com mais substância.
J.C. - Não é por uma questão interventiva que faz sentido cantar em português. Aliás, boa parte das letras dos Superego são mais intimistas do que outra coisa. Canto e escrevo em português porque sinto que me expresso com verdade e seria incapaz de me exprimir noutra língua, e não por achar que tenho de intervir no país onde vivo.
Consideram importante a existência de um lado mais político e activista no actual panorama do rock feito em Portugal?
T.T. - Sente-se um bocado a falta disso. Tenho 35 anos. Quando se tem 20 anos, as pessoas estão-se a marimbar e cada vez mais não se acredita em ideologias ou partidos políticos. Sou de esquerda, mas hoje em dia é tudo igual, não há criatividade ou uma maneira diferente de avaliar e resolver os problemas.
J.C. - Faz falta ter uma atitude para com a sociedade. A nossa sociedade convida muito a que isso não aconteça, porque lhe dá jeito, mas também porque os portugueses estão um bocado afastados daquilo que é o pensamento do sítio onde vivem. Eu penso politicamente, independentemente de uma relação partidária. Política é tudo, é nós discutirmos aqui as coisas, é podermos melhorar a forma como nos relacionamos uns com os outros.
T.T. - Os músicos têm de se juntar, ocupar um espaço, chamar as televisões, ir lá a polícia, e ter um projecto definido para apresentar. Dantes, as pessoas organizavam-se mais e lutavam pelos seus interesses, com manifestações, debates no P.S.R, apesar de às vezes serem coisas sem nexo nenhum. Não é só nas letras que um gajo deve falar disso; um grupo de pessoas organiza-se, junta-se num sítio qualquer.
O rock por excelência, sugere rebeldia, inconformismo e irreverência...
Leandro Silva- Em geral, as pessoas não têm essa preocupação, para além da música. Não sentem essa responsabilidade do que podem fazer. Não se responsabilizam sequer no que estão a fazer, quanto mais pensar no que as rodeia. O grande problema da falta de opinião e da consciência do que se passa, começa de dentro.
J.C. - Essa ideia de que a rebeldia do rock pode ser um obstáculo à conformidade, está muito diluída hoje em dia. O rock vive um momento muito mainstream, há muita encenação e artificialismo.
T.T- É um grande engano pensar que as pessoas são estúpidas. O que acontece é que não há espaço suficiente na rádio e televisão para gente que faz coisas de uma determinada maneira, como é o nosso caso.
Há quem considere que o rock, tal como o jazz, não tem evoluído nos últimos anos. É um estilo cada vez mais corporativo e inofensivo, no que respeita aos fenómenos de massas. Consideram que o rock tem vindo a perder esse lado incómodo e perigoso e se, por outro lado, está criativamente mais pobre?
T.T. - O rock é música e enquanto existirem pessoas, existe música. Por alguma razão, os festivais de verão, onde a maior parte de bandas que actuam são de rock, estão sempre cheios de gente.
L.S. - O rock está tão domesticado quanto as pessoas querem que ele esteja. A maior parte das pessoas abdicam do direito de escolha, e assim passam a fazer parte de uma carneirada que consome o que os media lhes impinge.
J.C. - Apesar de tudo, ainda encontro alguma frescura num certo rock e, no nosso caso, o que nos tem entusiasmado ultimamente, é um tipo de rock que se une de alguma maneira ao que é uma expressão mais específica de determinada cultura. Na música brasileira, tens bandas rock que só podiam ser brasileiras. O que nós estamos à procura, é fazer rock que só possa ser português, ou seja, continua a ser rock, mas ao mesmo tempo é uma música específica duma cultura que nos possa distinguir dos outros. Para que não sejamos meros papagaios de coisas que ouvimos de outros sítios. No meio da globalização, este é um dos caminhos possíveis.
L.S. - O rock é da música mais verdadeira que há. As bandas brasileiras são um óptimo exemplo. Eles têm grupos de rock, funk, soul do melhor que há. Por muito que o Jimi Hendrix seja uma influência, esses músicos têm de olhar de onde vêm para saberem para onde vão.
Ao contrário de outros países europeus, por cá são poucos os músicos pop-rock que se interessam pela música tradicional do seu país de origem...
L.S. - Os Superego são essencialmente uma banda urbana. Para ires à procura das tuas raízes, não tens que andar aí a chafurdar na lama e ir para as beiras tocar adufes. Tens de saber o que há de bom nos dois lados e fazeres a melhor mistura. Certos músicos portugueses querem fazer música inglesa, gostam de pensar que estão a criar em Bristol ou Nova Iorque.
Tóbel - Não concordo. Os Slamo não se preocupam em fazer fusões com a música tradicional portuguesa, mas sim pegar na herança do rock e inovar constantemente. Podemos fazer isso em qualquer parte do mundo.
F.S..- Não queremos copiar modelos estabelecidos e fazer exactamente igual. Tentamos inovar em termos de estrutura, sons, riffs...
J.C. - É óbvio que toda a gente tem liberdade para fazer o que quiser. Mas é pena que quase todos façam música da mesma maneira.
T.T. - Se o novo disco dos Lulu Blind fosse cantado em inglês, era mais um disco. Tem a mais valia de ser cantado em português, diz coisas. Há neste álbum influências claras, coisas que nós gostamos como Smashing Pumpkins. Mas também podíamos ter fado por exemplo, mas não sentimos necessidade disso. Eu gosto de fado, jazz, montes de coisas...
J.C. - Nós apenas lamentamos a falta de qualquer coisa, e isso só vai mudar quando as pessoas assimilarem e respeitarem as referências da nossa cultura.
Não vos parece que, em geral, os músicos e as bandas nacionais estão muito virados para o seu umbigo, existindo poucas trocas de experiências entre os músicos? É muito raro vermos alguém vindo do jazz, tocar com uma banda de rock, por exemplo...
T.T- Como é que isso pode acontecer se não há sítios para tocar?
J.C. - Falta esse intercâmbio. E falta sentarem-se e discutirem estes assuntos para que a cena evolua.
T. - À medida que os Slamo foram evoluindo, sempre tivemos bom relacionamento com outras bandas. Tem havido sempre uma ajuda mútua, nunca houve rivalidades.
T.T. - Eu acho que o ambiente no meio musical é mais saudável do que outros meios artísticos como o teatro, onde dizem mal uns dos outros. Não sou um nostálgico, mas o Rock Rendez Vous e o Johnny Guitar eram clubes onde os músicos se encontravam, e acontecia eu dar os parabéns a um gajo qualquer por ter visto um concerto da banda dele e pensava logo em convidá-lo para tocar com a malta. Nós convidámos os Black Company há uns anos atrás para gravar uma cena tipo rap-metal, e os gajos armaram-se em vedetas...pessoas assim vão morrer cedo. Um gajo deve ser o mais simples e honesto possível, e gostar de ver os outros a subir. Há lugar para todos, desde os pimbas ao pessoal do rock.
Em que medida as editoras têm travado, ou não, o desenvolvimento e a renovação da música portuguesa?
L.S. - A maior parte dos A&Rs não fazem os trabalhos de casa e têm uma parte das culpas. Algumas bandas têm determinação para avançarem e crescem por iniciativa própria, ultrapassando o entrave que representa a ausência de interesse das editoras. Os A&Rs pensam que os músicos só existem para serem famosos.
T.T. - Eles têm de segurar os seus empregos, e se não chegarem à tripla-platina prevista para o novo do Santana, vem o manda chuva lá de fora perguntar porque é que tal não aconteceu. Se for um disco português, ninguém vem lá de fora perguntar, se der prejuízo, até dá para descontar nos impostos.
J.C. - As pessoas que agora trabalham nas editoras foram, em boa parte dos casos, músicos. O interesse que eles têm de lançar coisas da cultura alternativa a todo esse lado mais mainstream em que eles estão implicados, é nulo.
T.T. - Há outros factores que são para aqui chamados. Existe muito por cá o jornalismo de secretária. Nos anos 80, havia mais militancia e isso notava-se nos concertos, no número considerável de maquetes que circulavam nas rádios. Chegava a casa, sintonizava o rádio na Radio universidade Tejo e ouvia o malhão tocado em bidons por uma banda industrial do barreiro, coisas assim, surpreendentes. Alguns anos depois, apareceram várias editoras independentes que tinham amor à camisola, editavam uma banda desconhecida em que eles acreditavam. Muitas desapareceram porque esses discos vendiam muito pouco e perdiam dinheiro. Por muito boa vontade que tivessem, havia contas para pagar.
T. - É preciso também que apareçam mais managers como o Paulo Ventura (N.R - manager entre outros, dos Pinhead Society, Superego, Slamo, Balla, etc.). Ele quer obviamente ganhar dinheiro, mas sabe o que está a fazer. O Paulo agarrou em nós e acreditou que podíamos chegar a algum lado.
T.T. - O Paulo Ventura é um gajo novo, de uma nova geração que está a aparecer, enquanto que os outros que estão acomodados, continuam a pensar que há uns anos atrás fazia-se assim e assim se vai continuar a fazer. Ele tem pica, não está acomodado, já tem experiência e mexe-se.
L.S. - Tens o exemplo do Jorge Dias, que sacou dinheiro do bolso dele e organizou o festival "Interferências" para que bandas novas tivessem exposição. É o resultado do empenhamento e carolice de pessoas que estão a tentar colmatar a falta de dinamismo de uma indústria preguiçosa.
Para terminar, qual foi o último disco que compraram?
L.S. - Gaiteiros de Lisboa: "Dança-chamas"
J.C. - Bob Dylan: "Highway 61 Revisited"
F.S. - Radiohead: "Kid A"
T.T. - Johnny Cash: "Solitary man".
Nuno Castêdo
(Mondo Bizarre # 7)
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