Entrevistas
OLD JERUSALEM
ECOS DE OUTONO
Francisco Silva é o nome por detrás do projecto Old Jerusalem. “April”, o álbum de estreia, revela um escritor de canções de excepção. A Mondo Bizarre falou com ele.

Antes do nascimento de Old Jerusalem, Francisco Silva passou por algumas bandas, aventuras juvenis sem grandes consequências. Durante esse tempo foi sempre compondo sozinho, mesmo quando escrevia para um colectivo. A decisão de seguir em frente a solo aconteceu um pouco por acaso. Francisco adquiriu um gravador de quatro pistas para registar e mostrar as suas canções aos outros elementos dos grupos que integrou. A dada altura, influenciado por músicos americanos da corrente lo-fi, decidiu que esse era o caminho a seguir. As gravações no quatro pistas começaram a ser um fim e não um meio e assim surgiu o embrião de Old Jerusalem. Após um split-CD com os Alla Polacca, editado em 2002, com quatro temas que mostravam já um talento latente, surge agora “April” o álbum de estreia, um dos grandes discos do momento.

Sendo “April” um disco com uma sonoridade outonal, porquê a escolha deste título mais primaveril?
Inicialmente, pensei em “Old Jerusalem”, mas o Rodrigo Cardoso [responsável da Borland]convenceu-me a arranjar outro nome. Neste disco, há uma canção de que gosto bastante chamada “Is This April”. Pensei que seria um bom nome para o álbum, mas depois achei que era longo demais. Ficou simplesmente “April”. Soa-me bem e parece-me adequado. Além disso, nasci em Abril. Já me perguntaram porque é que escolhi esse título mas continuo a pensar que “April” está de acordo com aquilo que eu vejo. Em termos estéticos, o som da palavra agrada-me.

“April” é um disco muito melancólico e intimista. Esse tipo de abordagem é a tua via preferida para estabeleceres comunicação com o público?
Não quero fazer isso de uma forma muito explícita, mas agrada-me essa ideia, o criar uma relação com outra pessoa através da música, embora seja uma relação abstracta. Não conheço as pessoas que eventualmente o oiçam, não sei de que maneira vão entender este álbum. Mesmo as pessoas que conheço interpretam-no de uma forma diferente da minha. Claro que existe um espaço de comunicação que quero obter, mas não controlo se tal acontece ou não. O álbum é intimista, mas mesmo que não o fosse, essa tentativa de comunicar estaria sempre lá, subjacente. A minha abordagem musical aponta para aí. Gosto desses ambientes e das coisas que se podem expressar dessa forma. Se puder estabelecer intimidade com o público, óptimo, mas não é um objectivo declarado, embora intimamente, acabe por ser um desejo que está lá.

Quais os estados de espírito que te são mais propícios para escrever canções?
Quando, há muitos anos, comecei a escrever canções, a inspiração aparecia nas alturas em que me sentia mais triste. Depois, a partir de certa altura, a música acaba por ser um fim em si, já não é uma questão de estar ou não estar. Claro que continuo a escrever canções melancólicas ou tristes e canções simplesmente bonitas ou positivas. Canções de celebração e alegres nunca escrevi nenhuma, nunca fui muito por aí. Não escrevo só sobre coisas negativas. Uma conversa, um filme pode inspirar-me para escrever uma canção. Para mim, é importante continuar interessado no processo de escrita de canções, tenho de forçar-me a mim próprio à disciplina, a um trabalho mais intensivo. Mas não trabalho nas composições sem ter nada para dizer. Gosto de pensar que estou a criar algo de importante para mim. A minha perspectiva pessoal sobre a arte é isso: o momento artístico em que crio algo de significativo para mim. Isso valida tudo. Agora ,há duas situações distintas: podes estar muito inspirado e sair alguma coisa muito facilmente ou podes ter uma ideia que queres concretizar mas que dá uma trabalheira enorme. E então nessas alturas não tens inspiração. Sentas-te e tens que pensar “como é que eu vou fazer isto”, e é muito frio esse tipo de trabalho, não é nada aquela ideia romântica do escritor com as coisas a saírem perfeitas logo na primeira aproximação.

É uma questão de aperfeiçoamento de técnicas e sistematização de métodos de trabalho.
Sim, claro. Tens de dar solução a problemas, e tens de procurar formas de fazer isso sem parecer óbvio, sem parecer que foi trabalhado. Se uma canção soa natural, excelente, mas isso não quer dizer que ela saiu naturalmente. Há uma mistura de coisas e é nessa dicotomia que vou trabalhando.

A música de Old Jerusalem é bastante emocional. Serias capaz de fazer música mais cerebral?
Alguma dessa emotividade é cerebral. Eu não me exponho assim tanto como isso, faço-o de uma forma que não é assustadora. As letras são em grande parte autobiográficas, mas também há partes da vida de outras pessoas, partes inventadas e também há partes que são só metáforas de uma situação que não é aquela que está retractada, mas que se relaciona na minha cabeça com uma situação real. Por vezes não quero expor uma situação real e conto-a como uma história. Há uma mistura de elementos mais emotivos da vida real com ficção, o que é um trabalho mais cerebral sobre essas situações mais emocionais. Há um trabalho frio neste processo criativo. Não é tudo jorro emocional cá para fora. Há momentos em que isso acontece, mas precisam de ser trabalhados para serem uma canção. De futuro tenciono fazer música menos emotivo, mais frio, mais conceptual e provavelmente, sem palavras, pois também gosto de fazer instrumentais. Não quero cortar possibilidades. Quero que o próximo álbum tenha uma sonoridade diferente. Ouço muitas coisas diferentes e agrada-me uma série de formas de expressão. Não terá que caber necessariamente no projecto Old Jerusalem. Poderá ser outra coisa qualquer.

Escreves muito sobre o amor ou relações amorosas. É nesse universo que te sentes mais à vontade para compor canções?
Exactamente. No meu caso, muitas vezes não escrevo necessariamente sobre uma relação amorosa, mas mais em termos gerais. No fundo, toda a gente quer ser amada, ou sentir a sensação de aceitação, de pertença. Não escrevo sempre sobre outra pessoa. Às vezes tem a ver comigo próprio, a forma como me encaixo nas coisas ou com as outras pessoas, o mundo, o pôr-do-sol, o que seja. É um álbum sobre o amor , mas de uma forma global. Há canções bastante duras, canções misóginas, um pouco de tudo. Espero que as pessoas percebam o “April” dessa forma mais abrangente e não como um disco, na pior das hipóteses, um disco romântico.

E não é fácil escrever sobre amor sem cair em lugares comuns...
Sim, concordo. Mas tens o caso do “69 Love Songs”, dos Magnetic Fields, que é um exemplo feliz de como se pode escrever sobre amor de muitas formas...

Porque é que as letras não estão incluídas no álbum?
Por dois motivos: por uma questão de restrição orçamental e por uma questão estética. Publicar as letras implicaria usar um espaço adicional, o que tem custos, e teria que usar bem esse espaço, para ficar bonito em termos gráficos, uma vez que não gosto de remeter as letras lá numas folhitas de uma forma descuidada. Teria que ser algo mais pensado. Estou a pensar disponibilizá-las via internet, o que acaba por ser a melhor solução. Gosto de ter acesso às letras nos discos que compro, gosto de ver exactamente o que ali está, porque se tem uma percepção diferente de estar só a ouvir. Por vezes, quando se ouve um disco, tende-se a não se prestar tanta atenção ao que está a ser cantado e presta-se mais atenção aos sons e à ambiência global de um disco. Com as letras à frente, misturas melhor os elementos e estruturas melhor uma canção na tua cabeça de uma forma diferente. Por isso, gostava de ter incluído as letras no álbum, mas decidimos que o arranjo gráfico funciona melhor como está.

O Paulo Miranda, que produziu o disco, ajudou-te apenas a um nível mais técnico para que tenhas conseguido tirar um melhor proveito do estúdio ou também contribuiu em termos estéticos?
As duas coisas. Em estúdio, não mexemos na estrutura dos temas. O Paulo foi imprescindível. No lado mais técnico, tem ideias interessantes, por exemplo, nas formas de captação ou exploração de sons. Esteticamente, é importante termos referências comuns. Ele sabia o que estava a falar quando exprimia uma ideia e eu sabia o que ele estava a falar quando se referia a um som específico. Sabíamos quando uma canção soava a algo específico, e podíamos levá-la por esse caminho ou levá-la por outro caminho qualquer. Essa perspectiva de experimentar soluções e ver como funcionavam, foi importante e ajudou muito no som global do disco. O disco não soava da mesma maneira se tivesse sido gravado por outra pessoa. Quisemos que cada canção tivesse um cunho próprio e que se diferenciassem umas das outras, num todo coerente.

A tua música está entre a folk dos anos setenta, em nomes como Joni Mitchell ou Nick Drake e o country alternativo de nomes como Will Oldham ou Smog, mas não se esgota nessas referências mais óbvias. Concordas?
Sim. Identifico-me com o Nick Drake, mas também com músicos mais recentes. O Will Oldham foi determinante, mudou a forma como eu ouço música e é uma referência incontornável para mim. Depois, há nomes que são importantes para mim há já muito tempo. Gosto do Paul Simon e dessa vertente mais ligeira da folk. O country alternativo é um rótulo que abrange tanta coisa, há muita coisa que eu não gosto dentro desse caldeirão, onde há bandas que são atiradas lá para dentro e não têm nada a ver umas com as outras. Mas gosto de algumas coisas daquilo que se designa por americana. Aliás, o conceito de Old Jerusalem é muito ligado à música popular americana. Mas tenho outras influências: alguma electrónica... gosto da sonoridade das caixas de ritmos. Algumas das canções são pop, num determinado ambiente acabam por se aparentar à folk, mas podem ter uma roupagem mais rock. Curiosamente, algumas delas, foram feitas para ser rock porque vêm do tempo em que toquei com bandas.

Escritores de canções portugueses como Jorge Palma, José Mário Branco, José Afonso ou Sérgio Godinho são também referências importantes no teu trabalho?
Gosto muito do José Mário Branco, José Afonso e do Sérgio Godinho. O Jorge Palma menos. Tenho vários discos deles. Houve uma fase dos anos setenta que também se fez muita porcaria por cá. Mas, pelo meio, há coisas muito boas. Há uma canção específica que eu compus depois de ter ouvido uma canção do José Afonso, apesar de no resultado final não se dar por isso. A parte de guitarra foi muito influenciada por esse tema do Zeca. São influências mais subliminares, até porque canto em inglês e isso vira logo a forma como soa a minha música e afasta-a um bocado dessa escrita de canções mais portuguesa.

No panorama nacional, tu és um dos poucos escritores de canções de uma nova geração a receber alguma atenção nesta altura. No entanto, ao contrário, por exemplo, do Jorge Cruz, dos Superego, que canta em português, optaste pelo inglês. Já tentaste cantar na nossa língua?
Eu também escrevo em português, mas não para os Old Jerusalem. São coisas diferentes. Não sei se vou fazer alguma coisa com essa canções, mas neste momento não me apetece. O inglês sai-me naturalmente. Muitas vezes, penso em inglês, mas isso não é muito racional, não conceptualizo muito. Há na minha música, traços culturais do ser português. Isso revela-se naquilo que eu faço. Mas antes de mais, sou um homem e isso aparenta-me com todos os homens de qualquer país. Há sentimentos globais que são comuns. Quero cantar para qualquer pessoa de qualquer nacionalidade e rejeito a ideia de que vou comunicar só para Portugal. A língua portuguesa é complexa, tem várias sonoridades e usa muitos recursos mais do que outras línguas e por isso, é menos simples de trabalhar. O que estou a fazer neste momento é para ser cantado em inglês.

Dás-te bem com a frieza do estúdio, ou preferes tocar ao vivo?
No inicio, tocar ao vivo era um bocado assustador, ao tocar sozinho com a minha guitarra não há mais nada e está tudo centrado em ti, tudo vai contar: se cantas bem, se tocas as notas correctas... Sentia-me mais confortável em estúdio. Se falhasse à primeira, tentava à segunda. Mas à medida que fui ganhando mais confiança ao vivo, acabo por soar melhor e mais imediato nos concertos do que em estúdio, porque aí tens aquela pressão de registar. Ao vivo, as pessoas vão captar aquele momento e poderão guardá-lo na memória, mas é uma coisa passageira. Em estúdio, a nota tem que estar afinada, estou preocupado que aquela linha se encaixe bem na estrutura da canção, acaba por limitar a expressividade. Tentámos captar as coisas de uma forma interessante. Ficaram um monte de erros, precisamente por isso, porque se gravou um take que soa bem, tem aquele erro a meio, mas eu consigo viver com ele desde que a espontaneidade esteja lá.

Andas à procura de belos acidentes...
Sim. Isso é muito interessante...

Dão um carácter humano ao álbum.
Exactamente. Se um disco soar muito bem feitinho, com um som sintético, não me agrada. A experiência do estúdio e de tocar ao vivo vai ajudar cada um deles. O facto de ganhar alguma “eficiência” nos concertos, pode fazer com que no estúdio me sinta mais confortável em procurar esses acidentes e não ter medo deles.

Pensas que a tua música funciona em grandes espaços? Achas que é mais difícil manter o caracter aconchegante da música de Old Jerusalem perante uma grande audiência?
Em espaços pequenos funciona melhor. Agora estou a tocar com outra pessoa e a ideia é desenvolver colaborações com outros músicos. Presentemente, estou a apresentar ao vivo as canções desta forma, mas não quer dizer que sejam estanques e não funcionem noutro registo. Quero desenvolver a possibilidade de, com outros instrumentos, modificar os temas, de os tornar mais extrovertidos. Mas, neste momento grandes espaços não são os mais adequados para tocar este repertório. Por exemplo, num festival de Verão, seria complicado porque a predisposição das pessoas para ouvir atentamente é menor do que num espaço mais íntimo. Ouvir um disco em casa ou assistir a um concerto num bar é uma coisa; estares num ambiente de festival, em que estás divertido de uma forma mais expansiva e queres ouvir bandas que te façam mexer, que sejam adequadas ao ambiente e ao teu estado mental, é outra.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 14)