Entrevistas
OLD JERUSALEM
A SOLIDÃO DO SEGUNDO DIA
Old Jerusalem é o nome artístico de Francisco Silva, um dos mais talentosos e humildes escritores de canções em Portugal. “Twice The Humbling Sun”, o segundo disco para a Bor Land, confirma e ultrapassa a esperança semeada em 2003, com “April”, e oferece-nos de bandeja canções superiores, como “One, I Should Know You” ou “A Feast Of Our Communion”. Em conversa com a Mondo Bizarre, Francisco desfaz algumas ideias deixadas por “Twice The Humbling Sun”, como a sugestão de que este teria sido um trabalho mais colectivo do que “April”, ou a impressão que Old Jerusalem e The Unplayable Sofa Guitar são projectos-siameses. Mas vai confirmando que “180 Days”, a infalível faixa de abertura do novo disco, se passa realmente no Porto, e que nem sempre convive de forma pacífica com os frutos do seu trabalho. Francisco Silva em discurso directo e sincero, pontuado pelos sorrisos que, nas entrevistas por e-mail, acontecem assim :-)

Passam-se poucas semanas desde que “Twice The Humbling Sun” chegou às lojas. Sabendo-o um perfeccionista, pergunto: como é que está a conviver com este disco? Está satisfeito com o resultado final?
A minha convivência com o disco vai passando por várias “fases” e a ideia que vou construindo dele é também permeável ao tipo de reacção que ele provoca nas outras pessoas. Por isso, como podes imaginar, a minha convivência com o álbum é muito mais pacífica agora do que era, por exemplo, em Maio de 2004, quando fizemos as primeiras misturas do material entretanto gravado. O processo de gravação foi bastante desgastante (e em muitos momentos frustrante) e há sempre um momento de “nojo” posterior ao trabalho terminado, em que a convivência com o resultado final é complicada. Mas isso vai-se invariavelmente ultrapassando e a verdade é que cheguei à conclusão, no momento que antecedeu o lançamento efectivo do disco, de que me sinto suficientemente confortável com pelo menos metade do álbum, e que, para o meu gosto, o “Twice the Humbling Sun” soa mais consistente e um pouco mais relevante que o “April”.

A reacção da imprensa ao álbum tem sido de enorme entusiasmo. Surpreendeu-o, a adesão unânime da crítica ao disco?
Sim, bastante. Na verdade, esperava uma reacção mais fria para este disco, não só porque é mais monótono e contido que o “April”, mas também porque esperava vir a sofrer um certo backlash gerado pela (sobre?)valorização do álbum anterior. Isso não veio a acontecer e o “Twice the Humbling Sun” foi recebido com grande simpatia, o que me surpreende mas, obviamente, me alegra bastante.

Estava muito apreensivo, por carregar nos ombros a responsabilidade de apresentar o sucessor de “April”, uma estreia muitíssimo bem recebida?
Não, nem por isso. Claro que não estive absolutamente imune em todos os momentos a uma certa apreensão induzida pela receptividade do “April”, mas falar em “carregar a responsabilidade” desse disco é um bocadinho desproporcionado. Além disso, o trabalho de estúdio acaba por rapidamente resolver essas questões com o melhor dos remédios: uma boa dose de realidade – estas são as canções que tens e para as quais tens de arranjar, de forma muito pragmática, um caminho para que soem bem. Se isso é melhor ou pior do que o que fizeste atrás deixa de estar sob o teu controlo, so why bother?

Quando começou a compôr os temas de “Twice The Humbling Sun”?
Deixei de apor datas aos meus rascunhos por isso tenho dificuldade em saber ao certo por que alturas foram sendo escritos estes temas. Penso que o primeiro tema escrito para o “Twice the Humbling Sun” (mas que acabou por não integrar o alinhamento do disco) foi tocado ao vivo pela primeira vez na primeira parte do concerto de Bonnie “Prince” Billy em Matosinhos e terá sido escrito pouco tempo antes. Mas a verdade é que também já não tenho bem presente quando foi esse concerto... (sorriso) [Lembramo-nos nós: foi no final de 2003]

Não sendo um trabalho conceptual, “Twice The Humbling Sun” é «mais álbum» do que “April”, no sentido de oferecer uma maior uniformidade, não só sonora como temática. Concorda?
Sim, é um dos motivos por que me agrada mais este trabalho quando comparado com o “April” e foi um dos esforços conscientes que se levou a cabo no estúdio: tentar que este disco soasse mais como um “álbum” e menos como um conjunto de canções alinhadas de forma mais ou menos aleatória.

Diria que é um álbum de “passagem de idade”, entre a juventude mais imberbe e uma juventude mais adulta, por exemplo?
Talvez. É verdade que há várias alusões no disco à passagem do tempo (ou mais propriamente à consciência da sua passagem), por isso parece-me adequada essa aproximação.

Em que é que o facto de neste disco se fazer acompanhar de uma pequena banda, composta por Paulo Miranda, Liliana Quesado e Pedro Marques, marca a diferença em relação a “April”?
Na realidade, se houve alguma diferença em relação ao “April” no que respeita ao processo de trabalho, ela reside mais no facto de este disco ter sido elaborado de forma mais solitária! As colaborações foram pontuais – o Pedro nem chegou a passar no estúdio, gravou em casa e enviou-nos as suas propostas em CD –, e realizaram-se numa fase já avançada do trabalho, pelo que as únicas pessoas envolvidas de forma permanente no trabalho foram o Paulo Miranda como produtor e eu como músico. No “April” o leque de colaborações foi mais extenso, pelo que a sensação de “banda” que a disposição dos nomes nos créditos do disco transmite é apenas aparente.

É muito tirano, em estúdio, ou deixa que os outros, com destaque para o produtor Paulo Miranda, lhe mudem o rumo às ideias? Tal como em “April”, a produção de “Twice The Humbling Sun” é muito cuidada…
Tirano?! Pelo contrário, costumo estar demasiado ocupado com a minha auto-comiseração para fazer valer os meus pontos de vista (sorriso). O Paulo Miranda e eu nem sempre convergimos nas abordagens que nos parecem mais adequadas para cada tema ou mesmo para a estética geral do trabalho, mas com discussões (no nosso caso, raramente abertas, mais mudas) e cedências mútuas vamos encaminhando o trabalho para algum porto. O processo não está isento de algum stress emocional para ambos, mas temos sobrevivido... (sorriso)

Integra, agora oficialmente, o line up dos The Unplayable Sofa Guitar, do Paulo Miranda. Houve troca de ideias e canções entre os dois projectos, que mais uma vez chegam ao mercado ao mesmo tempo, como dois irmãos?
Os dois discos foram trabalhados de forma absolutamente isolada e não houve qualquer troca de ideias ou influência mútua entre os projectos. Aliás o carácter e os métodos de trabalho das duas “bandas” são extremamente distintos, pelo que não faria sentido transpor uma realidade na outra. O facto de chegarem ao mercado na mesma altura é pura coincidência.

A escrita das letras cabe-lhe apenas a si. Ao contrário de muitos grupos portugueses e estrangeiros, faz um uso muito criativo e algo elaborado do Inglês. As suas referências são mais musicais ou literárias?
Ambas. O fundamental da forma de expressão de Old Jerusalem é a palavra cantada e é nessa dicotomia que é abordada cada canção. O uso criativo da linguagem (no caso, o Inglês) é um objectivo/meio tão importante quanto o uso criativo da expressão musical. No meu caso, diria até que é um pouco mais importante, com o que isso possa implicar de positivo e negativo.

As letras de “Twice The Humbling Sun” estão consideravelmente mais assertivas e até libidinosas do que em “April”. Concorda?
Sim.

Em “To The East Son”, diz que “Spain is not far”. Achei curioso: uma referência, em Inglês, a uma realidade que é a nossa (a proximidade, a Este, com Espanha). Já em “180 Days”, fala em ruas de granito, lojas de discos e chuva. Tinha em mente o Porto, como cenário dessa música?
No caso específico do “180 Days”, sim, o cenário é o Porto. A escolha do Inglês para as canções de Old Jerusalem não determina de forma nenhuma que o imaginário do projecto siga coordenadas anglo-saxónicas. O idioma foi escolhido por ter um cariz mais universal e uma musicalidade adequada ao tipo de canções que escrevo, mas o imaginário que é veiculado não fica preso na matriz do idioma.

Essa primeira faixa do disco é uma das minhas canções favoritas de todo o álbum. Houve alguma intenção, em escolhê-la para o arranque? Todo o alinhamento parece bastante ponderado…
O alinhamento foi ponderado de forma cuidada, dentro dos limites do razoável. Perdermo-nos no emaranhado de possibilidades nunca é boa política... Por acaso tentei fugir ao arranque óbvio que é o “180 Days”, mas acabei por render-me às evidências: a cadência do tema é perfeita para iniciar um disco. (sorriso)

Em relação à capa, que tem dividido opiniões, houve também uma vontade de se afastar da “ingenuidade” da capa do “April”, fazendo uma proposta visual um pouco mais oblíqua?
Era importante para nós que a imagem que acompanha o disco não fosse relacionada de forma óbvia com a ideia mais ou menos formada sobre o que é a sonoridade de Old Jerusalem. Por outro lado, era importante fazê-lo sem quebrar a ligação íntima que existe entre o artwork de um álbum e o seu conteúdo. Para mim a capa funciona nessas duas vertentes e numa terceira muito mais imediata: acho o desenho da Helena [Reis] bonito.

Há quem o considere um dos grandes songwriters em actividade, neste momento, em Portugal. Como é que lida com esse “título”?
Lisonjeia-me muito, como é óbvio. O ideal era eu próprio conseguir acreditar nisso um bocadinho – era um bom paliativo para as alturas em que me sinto inútil e falhado! (sorrisos)

Made in Portugal ou nem por isso, quais os discos que mais tem ouvido actualmente?
A minha forma de ouvir música é muito aleatória e estou quase permanentemente a comprar novos discos, pelo que é difícil dizer o que estou a ouvir mais em cada momento. Posso indicar, por aproximação, alguns dos últimos discos que ouvi:
Sunn O))) - “White2”
Mandrágora - “Mandrágora”
The Blow - “Everyday examples of humans facing straight into the blow”
Black Mountain - “Black Mountain”
Minus Story - “Heaven and Hell”
Vic Chesnutt - “Silver Lake”
Berg Sans Nipple - “Form Of…”
Loretta Lynn - “Van Lear Rose”
Mas parece-me que o último disco que me apaixonou realmente e me “forçou” a audições sucessivas foi o “Light Green Leaves”, dos Little Wings.


Lia Pereira
(Mondo Bizarre - Maio 2005)