Entrevistas
PANDA BEAR
Radioso Panda

A viver em Portugal, Noah Lennox, mais conhecido por Panda Bear, também baterista dos Animal Collective, fala do seu novo disco, “Person Pitch”. Declara-se assumido defensor da boysband 4Taste, explica como gravou o seu novo disco de originais, revela as suas influências e como é a sua relação com Lisboa e os gostos musicais da sua filha. Não poderia haver ambiente mais perfeito para conversar com o autor da pop psicadélica e luminosa de “Person Pitch” do que uma tarde solarenga à beira Tejo.

Porque é que o álbum se chama “Person Pitch”?

Inicialmente pensei chamar-lhe “Perfect Pitch” porque, caso não saiba, “pitch” é uma qualidade que algumas pessoas têm de cantar num tom perfeito. Para mim, que não tenho essa habilidade. Depois pensei que “Perfect Pitch” era uma ideia demasiado arrogante, enquanto que “Person Pitch” já não tem essa arrogância e relaciona-se com o som de uma pessoa e tal como toda a música que faço, com uma representação das pessoas, sendo que para mim este álbum representa muito do que sou, do que penso e sinto, mas também de tudo o que esteve à minha volta enquanto gravava o disco. Eu tive uma filha com a minha esposa e o álbum é como que uma dedicatória a ela e uma representação do que ela é também.

Actualmente vive em Lisboa a cidade de alguma forma influenciou o disco?

Claro que sim. O ambiente é uma influência tão forte em qualquer pessoa que esteja a criar algo e agora, depois de já ter ouvido o disco algumas vezes, consigo realmente sentir a forma como me sinto na cidade, relaxado, calmo, sem pressas.

Como foi o processo de gravação do disco?

Foi um bocado lento. Há dois anos atrás, quando ainda não tinha nenhuma destas canções feitas, tive a ideia de lançar uma série de singles e depois reuni-los num álbum. Roubei esta ideia a um músico chamado Maurizio, que é de uma banda electrónica alemã chamada Basic Channel, que lançou vários singles de 12” e depois juntou-os todos num álbum. Esta ideia também fazia sentido para mim porque sabia que não iria ter muito tempo para gravar o disco, por causa da banda e tudo isso. Além disso, como sabia que com este “método” estaria a trabalhar em cada música em alturas diferentes, isso faria com que cada uma fosse realmente especial e, logo, melhor.

Este novo disco é todo feito à base de samples. Quais é que foram os teus critérios para escolher os samples?

Foi um pouco ao acaso. Numa fase inicial foi mesmo ao acaso, procurando na Internet (passo muito tempo na Internet), em muitas estações de rádio on-line. A maior parte das coisas nem sabia o que eram. Também tirei muitas coisas do iTunes, porque eles disponibilizam trinta segundos de tudo o que têm e também sons que encontrava pela Internet, muitos sem grande qualidade sonora. Depois juntei tudo como um puzzle, acelerando algumas partes, distorcendo outras ou abrandando-as. Esta foi basicamente a fase inicial, coleccionando uma série de samples e tentando misturá-los todos. Depois, quando comecei a ouvir tudo o que já tinha feito uma e outra vez e a tentar captar a melodia que estava por trás dos samples, veio a fase mais difícil, pois a parte cantada estaria sempre restrita à melodia repetitiva dos samples. Numa última fase o que aconteceu foi tentar melhorar certas partes que começavam a ficar aborrecidas, tal como quando se faz uma sopa ou algo para comer e se junta algum picante. A fase final resume-se a um apimentar das partes que começavam a ficar monótonas.

Quando se ouve o disco parece que andam por lá os Beach Boys ou o Lee “Scratch” Perry. O quanto é que estes músicos são uma influência para si?

Massiva. As perguntas relacionadas com as influências são sempre um pouco problemáticas para mim, uma vez que não sou um ouvinte frequente de música. Eu nem tenho um rádio para ouvir música ou uma aparelhagem na minha sala. Normalmente oiço mais música quando ando em digressão com os outros membros da banda porque todos eles têm enormes colecções de discos. Eles acordam e começam a ouvir música, eu não. Neste disco como estive a samplar tanta coisa e a utilizar pequenos pedaços do trabalho de outras pessoas, achei que seria apropriado pensar nessa questão e fazer uma lista de tudo aquilo que me influenciou na gravação do disco e ficou uma lista enorme e eu sabia que me estava a esquecer de várias coisas. Estavam lá nomes de todo o lado. Se eu não tivesse gravado o disco e o ouvisse e tivesse que dizer o que aquilo me lembrava, diria toda a música dub, especialmente coisas como o Scientist, Lee “Scratch” Perry e esses nomes mais famosos, mas também música dos anos 50 e 60 como –. Buddy Holly, Everly Brothers, Beach Boys e toda essa onda.

Prefere trabalhar nas suas canções em estúdio ou tocá-las ao vivo?

Gosto de ambos os momentos. Tocar ao vivo é especial porque só acontece naquele momento exacto, apesar de algumas pessoas gravarem os concertos, mas gosto do facto de ser uma experiência muito momentânea, que acaba depressa, além de que é partilhado por muitas pessoas. Já o trabalho de estúdio vai ser ouvido muitas vezes por alguém que está no seu quarto ou na sala ou onde quer que oiça música, por isso eu sinto que quando estou a trabalhar em estúdio que o meu trabalho vai ser mais valorizado e ouvido imensas vezes, por isso quero ter a certeza que de cada vez que alguém o ouve essa pessoa vai descobrir coisas novas e especiais.

Conhece o B-Leza, o local onde vai ser o teu concerto cá em Lisboa em Abril?

Já ouvi falar, mas nunca lá estive.

É um local especialmente dedicado a música africana, como o kuduro conhece kuduro?

Não, mas estou muito empolgado com o facto de já muitas bandas africanas terem actuado lá. Mas ouvi dizer que aquilo é muito fancy e as bebidas muito caras. Não era nada disso que estava à espera.

O que é que poderemos ver no seu concerto em Lisboa?

A semana passada dei dois concertos no Reino Unido e o alinhamento vai ser um bocadinho diferente. Vou tocar algumas canções do “Person Pitch”, mas tudo misturado, isto é, todas as músicas têm duas partes ou múltiplas partes e eu vou trocá-las todas, pois não gosto de tocar as canções ao vivo exactamente como estão no disco, pois isso seria chato, pelo menos para mim. Também vou tocar algumas canções novas minhas e outras duas novas dos Animal Collective, que vou tocar à minha maneira.

Como é que consegue conciliar o seu dia-a-dia aqui em Lisboa com os Animal Collective?

Por vezes não é nada fácil, mas o meu trabalho é fazer música. Todos os dias faço música e a minha filha acha muita piada. Depois a parte mais negocial da música trato-a através da Internet e dos e-mails, passo quase o dia inteiro no computador o que irrita bastante a minha esposa. Mas tenho que o fazer. É difícil ter tempo para trabalhar com a banda e para me dedicar à minha família. Depois tenho trabalhos como este, que tento encaixar no pouco tempo que tenho, sendo que já ando a trabalhar nestas músicas há dois anos, quase que me esquecia delas. Ainda há as digressões e tudo isso, como tal é complicado.

E quando poderemos ouvir coisas novas dos Animal Collective?

Mais para o fim do ano. Não sei dizer com certeza, mas o novo disco deve sair lá para Setembro/Outubro.

Quando disse à Pitchfork Media que a sua banda favorita do momento era os 4Taste, estava a falar a sério?

Completamente. O que aconteceu foi que eles (Pitchfork Media) me pediram para dizer qual era a minha banda preferida do momento, mas não podia ser ninguém dos meus amigos, o que se tornou difícil para mim, pois a maior parte das novas bandas que conheço são de pessoas que conheço de alguma forma. Então a primeira coisa que me veio à cabeça foram os 4Taste, talvez porque os tivesse visto nesse dia na televisão ou ouvido a música, não sei. No final do ano passado estive a falar com um rapaz do Porto sobre como é que avaliamos a música, com base na intenção da música ou o objectivo que esta tem, e não acho que seja justo avaliar algo como os Deerhoof e os 4Taste utilizando os mesmos critérios. No caso dos 4Taste temos que pensar em qual é o objectivo da música deles, o que é que eles realmente querem da música. Primeiro temos que ter em conta que eles são uma banda fabricada pela telenovela. Eu não conheço o rapaz que escreve as músicas deles, mas o outro rapaz do Porto conhece o pai dele e ele acha que é ele mesmo que escreve as músicas, o que acho ainda mais impressionante. Mas como ia a dizer, a audiência para esta música é constituída essencialmente por jovens, na maior parte raparigas e tendo em conta isso acho que a música está muito bem feita para esse público. A música deles é extremamente catchy e lembro-me quando surgiu a nova temporada dos “Morangos com Açúcar” e a música do genérico era uma nova dos 4Taste, só a ouvi uma vez e fiquei a sabê-la logo de cor, sendo que é muito difícil escrever uma canção assim tão bem. Acho que o vocalista canta bem, está produzida de uma forma que faz sentido para a música. Isto sou eu a defender a minha escolha dos 4Taste como a minha banda preferida do momento. Basicamente acho que não é justo julgar tudo na mesma perspectiva.

E a sua filha gosta dos 4Taste?

Acho que ela não gosta lá muito dos 4Taste. Ela gosta mais de ritmos com batidas, como hip-hop, com o qual fica muito empolgada, techno nem por isso, e se for algo muito repetitivo já não se entusiasma muito. A música do meu disco é mais o estilo que ela gosta. Com coisas mais calmas aborrece-se.

João Moço
(Mondo Bizarre - Março 2007)