Entrevistas
PAN SONIC
A ARTE DO RUÍDO

O duo Pan Sonic constituído por Mika Vainio e Ilpo Väisänen é, talvez, um dos mais importantes projectos da electrónica actual. Em grande parte tal deve-se à força transmitida pela sua música, combinação de techno com o rock dos Suicide, o minimalismo e a música industrial. Ouvir Pan Sonic é sempre uma experiência sensorial desafiadora, tanto a nível físico (literalmente), como a nível mais pessoal. Os Pan Sonic fazem-nos entrar em contacto com o lado mais primitivo, ao mesmo tempo que não hesitam em agredir-nos de forma controlada com os ruídos do dia-a-dia. No fundo é um retrato de um mundo em que muitas pessoas actualmente vivem, em constante contacto com máquinas e mecanismos sociais que tentam formatar o indivíduo. A resposta acaba por ser o confronto em vez da fuga. No fim, e nalguns momentos, a música dos Pan Sonic até pode ser de dança, como um derradeiro momento de catarse das frustrações diárias do ouvinte. Ou então não, e rejeita-se por completo esta música, porque incomoda ou é “difícil”. Mas raramente se lhe é indiferente.

Os Pan Sonic não são, contudo, um grupo estanque. Tanto em duo, como individualmente, Mika Vainio e Ilpo Väisänen colaboram com músicos que admiram, como Alan Vega, John Duncan, Merzbow, Carsten Nicolai, Chicks on Speed, etc. E dedicam uma faixa de 61 minutos e 16 segundos no álbum “Kesto” aos Suicide, Keiji Haino, Throbbing Gristle e Alvin Lucier (entre outros). Não são pois – e apesar do individualismo e agressividade latente – o protótipo de uma banda isolacionista e sem referências. Talvez porque tudo acaba sempre por ser uma questão de sentimentos, como Mika Vainio dá a entender na entrevista que se segue. Os Pan Sonic tocam dia 27, na Galeria Zé dos Bois em Lisboa, e trazem novas músicas na bagagem.

O seu trabalho no duo Pan Sonic atravessa coisas muitodiferentes como o techno, o noise, a composição moderna e até o rock. O vosso último álbum “Kesto” tem uma longa faixa dedicada a vários artistas. Foram artistas importantes como fonte de inspiração ou foi mais uma questão estética?

A música dessas pessoas foi de facto uma importante fonte de inspiração.

Foram este o tipo de grupos, como os Suicide, que vos fizeram começar a fazer música?

Sim, houve muitas bandas, e os Suicide foram de facto uma das mais importantes.

Quando começaram estavam a pensar que iam fazer um determinado tipo de som que ia ser uma mistura de coisas que gostavam, ou perseguiram um som mais pessoal?

Bom, na realidade, nós não planeamos nada quando começamos o projecto Pan Sonic. Acabou por nascer assim desta maneira. Não tínhamos um plano para formar uma banda, apenas fizemos algumas faixas juntos. Mas resultou muito bem e decidimos continuar. Em relação ao estilo não tínhamos planos nem sabíamos o que esperar.

Estavam interessados na música electrónica quando eram jovens ou esse interesse apareceu posteriormente?

Eu sempre estive interessado em sons electrónicos e a música electrónica não era assim tão fácil de explorar quando era jovem. Mas estive sempre interessado.

Havia uma razão particular para esse interesse ou foi apenas uma coisa que aconteceu?

Sim, apenas aconteceu. Estamos a falar dos anos 70, a música electrónica era muito rara ou pouco usual. Agora a maior parte da música usa electrónica, mas naquela época era muito rara. Uma banda poderia ter um sintetizador, mas não era usado vulgarmente.

Anos depois deixou a Finlândia para viver em Barcelona, não foi?

Bem, eu vivi primeiro em Londres em 1996 e depois mudei-me para Barcelona em 1998 e vivi aí cinco anos. E agora já vivo há três anos aqui em Berlim.

Li que procuravam o Sol quando procuraram o sul da Europa. É verdade?

O que eu queria era sair daquela porcaria de cidade que é Londres! Apenas queria sair de lá.

Parece-me uma contradição procurar o Sol, porque a vossa música sempre me pareceu abrasiva, negra e até fria. Acha que há uma razão para isso?

Primeiro gostava de dizer que cada pessoa ouve e reage às coisas de uma maneira diferente. Algumas pessoas pensam dessa maneira, outras pensarão de uma maneira diferente. As razões para ser assim não as posso conhecer, eu expresso os meus sentimentos quando faço música, isto é uma certeza, mas esses sentimentos podem vir de origens muito diferentes ou mesmo de coisas que eu próprio não consigo compreender. E as coisas acabam por aparecer de uma forma muito indirecta. As coisas não funcionam assim, não é por sermos da Finlândia que fazemos música que parece ser fria, isso é uma ideia simplista.

Como é trabalhar nos Pan Sonic. Falou nos sentimentos como importantes quando faz música. Quando trabalha com outra pessoa como funciona então? É um diálogo, uma simbiose?

Sim. Nós trabalhamos juntos mas as faixas ou são baseadas nas minhas ideias ou nas ideias do Ilpo Väisänen. Depois podemos combinar as nossas ideias. Durante o processo de criação as faixas expressam aquilo que queríamos exprimir, caso contrário não as iríamos querer divulgar.

Também trabalha sozinho. O que o satisfaz mais?

Não consigo dizer o que me satisfaz mais. Cada faixa e cada CD é um todo e nalguns casos tenho mais sucesso que noutros.

Mas tem colaborado com muitas pessoas. Lançaram agora mesmo um álbum com John Duncan e no ano passado lançaram um disco com Alan Vega (antigo vocalista dos Suicide). O que representa trabalhar com pessoas tão diferentes?

É uma coisa muito interessante e um processo em que se aprende muitas coisas. Estou muito feliz por ter podido trabalhar com essas pessoas, cujo trabalho individual eu gosto muito. É uma coisa muito boa. Claro, também pode acontecer que a combinação não resulte, e quando se trabalha com outra pessoa é necessário fazer compromissos, mas é algo com que se tem que aprender a lidar.

Vocês também trabalharam com uma cantora alemã chamada Gry e com as Chicks On Speed, o que vos aproximou das canções pop. Também gostam de fazer canções pop?

Talvez o que esteve mais próximo da pop foram as canções que fizemos com o Alan Vega ou a faixa que fiz com as Chicks On Speed. No caso da Gry, que na realidade é da Dinamarca, nós não trabalhamos directamente com ela, era um projecto do FM Einmeit que trabalhava com ela há alguns anos.

São fãs dos Throbbing Gristle e agora vivem Berlim, por acaso viram o concerto dos Throbbing Gristle este ano em Berlim?

Não vi esse concerto, não estava em casa. Mas vi-os em Itália e em Londres há dois anos atrás.

O que pensa de um grupo como os Throbbing Gristle se reunir novamente ao fim de tanto tempo?

Porque não? Se sentem prazer nisso, está tudo bem e eu gostei dos concertos que assisti deles agora. Penso que muitas pessoas têm expectativas injustas em relação a estes concertos, são muito críticas e negativas em relação a esta reunião. Eu acho muito bom que eles façam estes concertos se gostam do que estão a fazer e eu de facto gostei muito desses concertos.

Tem medo que as pessoas um dia sejam críticas e negativas em relação aos Pan Sonic? São afectados pelas opiniões doutras pessoas?

Não me importo muito com isso. Há sempre muitas pessoas que não gostam do que fazemos. Faça o que se fizer há sempre pessoas com reacções muito diferentes. Não me preocupo com isso. Há pessoas que normalmente acabam por ser maldosas em relação aos outros, eu não lhes ligo nenhuma.

Estão a trabalhar num novo álbum?

Sim, estamos. Deve ser terminado no fim de Maio e lançado no Outono deste ano.

Novamente na Blast First?

Sim.

Depois de tanto tempo, o que pensa do problema que tiveram que vos fez obrigar a mudar o nome de Panasonic para Pan Sonic por causa do processo movido pela multinacional?

Era algo que esperávamos que acontecesse. Demorou mais tempo do que aquilo que esperávamos. Quando tivemos este contacto da Panasonic nos EUA a dizer que tínhamos que parar de usar o nome Panasonic não foi uma surpresa.

Foi uma provocação?

Na verdade nós não queríamos ser provocadores dessa maneira, apenas gostávamos do nome e da marca. Era uma ideia interessante usar uma trademark.

Vão tocar novas faixas em Portugal?

Sim, iremos tocar muitas canções novas que farão parte do álbum.

César A Laia
(Mondo Bizarre - Maio 2006)