THE PARKINSONS
A VALSA DOS REBELDES
Os portugueses Parkinsosn estão a provocar tumultos na cena musical britânica. Depois de toda a bagunça causada pelos seus acirrados concertos, é altura de ver como o grupo se safa em disco. "A Long Way to Nowhere", o EP de estréia é um bom modo de ver se as expectativas são verdadeiras ou falsas. Victor Torpedo, o falador guitarrista do grupo leva-nos de viagem pelo mundo dos Parkinsons.
Os Parkinsons são cada vez mais falados mas de certeza que a tua perspectiva das coisas é diferente da de quem está do outro lado da acção. Além de que a generalidade das pessoas não sabe quem são os Parkinsons. Isso não é um pouco estranho?
É, mas neste momento a nossa jogada também é essa.. As editoras estão sempre a ligar ao nosso manager a dizer que querem uma música dos Parkinsons. Ele diz-lhes que aqui não há músicas. Se querem os Parkinsons vão é vê-los na arena. Este é o momento exacto para colocar cá fora o EP. As pessoas, pelo menos em Inglaterra, já nos viram ao vivo e agora vamos mostrar-lhes o quem somos em termos musicais. Estão à espera que seja uma coisa mal produzida, primitiva e ruidosa, que sejamos os novos Stooges, mas vai ser diferente.
Vocês também são apontados como a próxima "next big thing". Acham que com a saida do EP se vão tornar ainda mais conhecidos? Estão a ver-se na capa do NME?
É estranho dizer alguma coisa porque agora parece normal abrir o NME e vermos lá a nossa fotografia e falarem de nós. Se aconteceu o que aconteceu sem termos nada editado, sem as pessoas ouvirem uma música gravada em estúdio, agora tudo pode acontecer.
Uma das coisas que tem intrigado as pessoas é como é que vocês entraram em contacto com o Jim Reid, porque em Portugal há um grande culto pelos Jesus and Mary Chain.
Eu já estava em estúdio há dois dias e nem sequer sabia que era o Jim Reid que lá estava. Eu nunca fui grande fã dos Jesus and Mary Chain mas sempre respeitei o trabalho deles. Não sabia era o tamanho que eles tiveram na cena do rock mundial. Só agora realmente o sei porque vejo as pessoas falar disso e porque estivemos em digressão com os Freeheat, que são a nova banda dele e do Ben Lurie, com a Romi Mori dos Gun Club e o Nick Sanderson dos Earl Brutus. Eles foram os Oasis do rock e quando vi aquele tipo de gente a voltar aos concertos com os cabelos à Jesus and Mary Chain e aquele tipo de roupa foi uma viagem no tempo. Já conhecia o Ben mas o Jim não. Para mim foi uma surpresa, principalmente por serem pessoas excelentes. E só agora é que eu vi a relação dos Parkinsons com os Jesus and Mary Chain e dos Gun Club. Apesar de fazermos uma coisa diferente as nossas raizes são as mesmas. Estamos todos em sintonia e o Ben Lurie está a fazer um trabalho excelente. O Jim está mais na poltrona a mandar as bocas dele...
Nos Parkinsons nota-se a influência das bandas americanas e também a experiência que tiveste com os Tédio Boys em digressões nos EUA. Na América as bandas têm que provar o que valem em cima de um palco senão nem vale a pena gravar um disco pois não há editora que se interesse. Em Inglaterra parece acontecer o contrário pois muitas vezes cria-se um hype a volta de uma banda e nem sempre os concertos são os melhores. Às vezes as bandas inglesas pecam por falta de comunicação em palco, por falta de entrega. Se calhar, tudo isto foi um atractivo ainda maior...
Isso parece o nome de uma das nossas músicas: "Nothing To Loose". Nós nunca tivemos nada a perder. Eu tenho uma carreira de dez anos com os Tedio Boys, os 77 e os Subway Riders mas quando saí daqui saí sem nada a perder. A situação aqui acabou por ser o muro a desmoronar-se, o vai ser caótico. Mas depois dessas vivência conseguimos despoletar este momento. Mas também podia ser o contrario, podia estar a tocar para vinte pessoas. No primeiro concerto tinhamos 70 pessoas, e já foi bom pois eram uma série de amigos e o segundo estava esgotado. Conheço bandas que tocam há muitos anos lá e continuam com as mesmas vinte pessoas há cinco anos. Chega a um ponto em que nos perguntam qual é o nosso segredo. Nós não temos segredos, nós tocamos o que queremos e aqui não há truques. Quando é sangue, é sangue. Quando é suor, é suor. Quando aparece a policia, é a policia.
A "Garageland" é uma terra que conheces bem dos ensaios. A garagem é realmente útil e ajuda a inspirar as bandas ou nem por isso?
Eu venho da "Garageland". É o embrião de todas as bandas. No caso dos Parkinsons não foi o nosso embrião porque nunca tivemos dinheiro para alugar uma garagem ou ir para estúdio ensaiar. Ainda me lembro que a ultima vez que ensaiamos foi antes do festival de Reading, em Junho. Os concertos têm sido os ensaios, mas como venho da "Garegeland" esta musica é especial, porque é a raiva que me dão os mitos da garagem, que me faz andar para a frente e fazer as coisas. Quando ouço os Clash eles dão-me a emoção, a força e vontade de lutar. O lado romantico da luta são os Clash.
Os Parkinsons estiveram em grande rotação no programa do Steve Lamaq, na BBC, que é um dos programas de rádio com mais audiência em Inglaterra.
O Steve Lamaq foi muito importante para nós porque foi a porta aberta para sairmos do circuito de Londres. Neste momento ele já é mais importante que o John Peel. É estranho estares a ouvir um programa de rádio com nomes como a PJ Harvey e outros grandes e de repente anunciam que "vamos ouvir a melhor banda do momento: os Parkinsons". E ainda por cima com uma gravação que é "matadora".
Talvez também tenha sido o facto de estarem no sitio certo e na altura certa. De terem esbarrado com algumas pessoas importantes, como o Brett Anderson (Suede)...
O que faço nos Parkinson é o que eu sempre fiz: rock'n'roll. Podem chamar-lhe punk rock ou outra coisa qualquer. Eu sempre mantive esta linha. Desde os Tédio boys e dos 77 sempre tive coerência com a música e com a guitarra, mais nada. Practicamente todas a bandas que se vêem moldaram-se às situações consoante as modas. Com os Parkisnosn foi talvez fazer algo mais rude do que o que estava a fazer, mas na mesma linha. Agora eles é que se riem para mim porque eu já lá estava. Não há novidade nem segredo. Apenas fazemos aquilo que mais gostamos. O que sentimos no momento.
Nunca sentiram, de alguma forma, o tapete a fugir debaixo dos pés? Sentirem-se envolvidos num monte de situações que acontecem tão rapidamente e das quais não estavam á espera e perderem o controlo da situação?
Não. Neste momento tenho sido acompanhado por uma matilha de lobos. Eu sou português e os ingleses são os lobos que andam lá a ver o que se passa. Por exemplo, nós precisavamos de um manager e agora temos cinco. Temos mais gente a trabalhar, como a Interceptor que trabalha com os Suede, os Alabama 3 e outras bandas. Eles estão a dar uma preciosa ajuda. Os Parkinsons não seriam nada se não fosse esse precioso empurrão. Antes era só um porque estava a ver em que é que as coisas iam dar, agora meteram-se os outros quatro ao barulho porque percebem que aqui se passa alguma coisa. Com as editoras parecemos o Jardel. Toda a gente nos quer. A questão é que daqui para frente haverão muitas mais pressões. Mas eles só nos podem tentar controlar até ao minuto em que subimos ao palco. Quando lá chegamos acabou, nunca se sabe o que pode acontecer, e isso tem logo efeitos no dia a seguir e em toda a relações que possam acontecer.
Como no caso do concerto que acabou à pancada?
Claro. Nós iamos receber 150 libras, porque era um concerto essencialmente promocional, e agora eles querem que para além do dinheiro que não recebemos paguemos mais 750 libras. Por isso, até ver, não tem sido assim muito proveitoso.
O que é que aconteceu?
Foi ultra-violento. O sitio era um clube novo que está muito na moda. Aliás era suposto os Hives tocarem conosco. Fomos para lá de tarde fazer som e o tipo que estava na mesa estava sempre a chatear-me a cabeça, a mudar-me o som, a mandar bocas sem olhar para mim, do estilo "eu é que sei". Ele devia pensar que estava a fazer som aos Tindersticks mas enganou-se porque nós somos os Parkinsons e eu disse-lhe "tu não vais dizer ao Lemmy dos Motohead para baixar o som do baixo. Isto é mesmo assim, isto é rock". O que aconteceu é que as duas primeiras bandas tocaram com bom som e quando chegamos a cima do palco aquilo estava um caos. O nosso vocalista começou a picar-se com ele e eu, á terceira música, fui lá acima, agarrei no gajo e disse-lhe que era melhor ele começar a trabalhar a sério. Quando cheguei cá abaixo tocamos meia música e os seguranças estavam à nossa espera. Foi o fim do mundo. O público estava assanhado e fugiu ao controlo.
Quando abriram para os Suicide estavas de muletas com as pernas ligadas.
Eu nem devia ter tocado mas esse concerto foi especial porque tivemos oportunidade de escolher de quem é que queriamos fazer a primeira parte. Nessa altura estavamos em conversações com a Mute e eles perguntaram-nos de quem gostariamos de abrir um concerto. Como o Paul está á frente da Blast First, e também trabalha com os Suicide, nós dissemos que se eles fossem tocar a Londres nós gostaríamos de tocar com eles.
Que importância tem para vocês o facto de tocarem num concerto das NME Carling Nights?
É um concerto como qualquer outro com suor, mas em termos de abertura será importante por chegarmos a outro tipo de público. Vamos tocar no Astoria que é, talvez, o maior palco de Londres. Talvez seja essa a grande aventura deste concerto.
Fala-me um pouco dos concertos dos Estados Unidos, as salas eram grandes?
Desta vez fomos essencialemente dar um concerto em New Haven, que foi organizado pela Elevator, que era a editora dos Tedio Boys e dos 77. Depois surgiu a hipótese de tocarmos em Boston. Foi só um cheirinho dos Estados Unidos para voltar à carga. Em New Haven tocámos no Tune Inn que é relativamente grande e como era a última noite do clube foi um concerto muito bom. Em Boston foi numa sala pequena mas foi excelente. E Tinha drag queens o que é sempre bom.
Estão a pensar voltar aos EUA?
Neste momento não sei porque se está a passar tanta coisa. Para já e durante duas semanas, vamos fazer uma digressão em Inglaterra Depois vamos a Portugal e a seguir não sei. No verão devemos ir ao Japão e devemos fazer os festivais em Inglaterra onde em principio devemos ir ao T in the Park e se calhar voltamos a tocar em Reading. Também devemos ir a portugal e deve haver alguma coisa no resto da Eupora.
Têm alguma expectativa em relação ao Japão?
É um dos meus sonhos. Como é uma cultura completamente diferente não se sabe o que pode acontecer.
Como vão ser os concertos aqui em Março?
Vão ser concertos normais. Mas vai ser interessante ver a reacção das pessoas e voltar a tocar em casa. De certeza que vai ser diferente pela atmosfera, principalmente em Coimbra. Também vai ser interessante porque quando formos tocar a portugal vimos de uma digressão de 21 dias e vamos estar um bocado agitados. Se calhar Portugal vai ter a sorte de ver os Parkinsons no seu máximo.
Que bandas convidaram para abrir os concertos?
Em Coimbra deve tocar o Legendary Tiger Man e os D30 a nova banda do Toni Fortuna. Em Lisboa, em principio, são os No Counts.
Nuno Calado e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 10)
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