PERRY BLAKE
QUEM TEM MEDO DE CANÇÕES TRISTES?
Perry Blake é um "dandy" irlandês que se pretende mundano. O seu terceiro álbum sonha com a Califórnia. Uma "California" imaginada - já que o próprio nunca lá esteve - e que é a miragem dos personagens que dão corpo às ideias do seu novo álbum. É uma abordagem mais solarenga da música para um cantor que emergiu do negrume existencialista do trip-hop e das baladas melancólicas. Com mais música soul à mistura e também algum cinismo anti-corporativista.
Fala baixinho e cultiva a pose. Poderá dizer-se mesmo que Perry Blake, o irlandês que acredita que as suas canções não têm nada da sua terra natal, é um nadinha pretensioso. Depois de uma estreia auspiciosa com "Perry Blake", em 1998, onde dividia a sua melancolia com os loops e as orquestrações - o que rapidamente o levou a ser encaixado nos derivados do então ainda recente movimento trip-hop - tentou autonomizar-se e no ano seguinte passou directamente ao classicismo de "Still Life", álbum de uma escuridão claramente inspirada na dor de corno, onde o "crooning" escorria por movimentos de cordas em baixa rotação. O disco tinha boas canções mas era um bocado chato no comprimento da sua autocomiseração. O culto reduziu-se aos convertidos mais hardcore e parecia que o interesse já tinha passado, o que se acentuou ainda mais com o álbum ao vivo "Broken Statues". Mas eis que Blake regressa este ano com um novo fôlego e uma nova sonoridade. Um bom motivo para renovar a confiança nele. "This Life", a canção de abertura, é digna de figurar na lista das melhores do ano…
Considera o seu novo álbum, "California", como um novo ponto de vista artístico ou é apenas mais um passo num trabalho que se vai criando?…
Acho que é mais um passo num "work in progress". Não há nenhum plano, nenhuma concepção global. Tentei fazer um álbum que soasse verdadeiro para mim. O único critério importante foi o de não me repetir, não fazer um novo "Still Life". É importante mudar, não estar sempre a fazer o mesmo disco. A minha ambição foi a de fazer um novo álbum bom e diferente do anterior.
Sentiu-se de alguma forma preso a uma imagem que já tinha criado com os anteriores "Perry Blake" e "Still Life"? Principalmente com o primeiro álbum as pessoas associaram-no bastante à corrente do trip-hop. Alguma vez sentiu o peso dessa etiqueta?
Sim, de certo modo. Mas quem faz música acaba sempre ficando preso a uma imagem. Não importa o que se faça, as pessoas acabam sempre por nos encaixar numa categoria qualquer. Penso que não tenho muito a ver com o trip-hop. Às vezes uso loops, mas não tenho nada a ver com esse movimento, e acho que a maioria desses grupos de Bristol eram um bocado inarticulados, embora os Portishead sejam uma grande banda. Geralmente há duas ou três boas bandas num movimento e o resto limita-se a segui-las. Mas a minha ideia não é fazer o que os outros andam a fazer.
O período de tempo entre a edição do novo álbum e do anterior, "Still Life", foi muito maior que entre a dos dois primeiros. Entretanto apaixonou-se pela soul music? É o que parece pela audição desta nova gravação…
A soul foi-me dada a conhecer pelas minhas irmãs mais velhas. Elas ouviam de tudo desde o David Bowie e os T-Rex até à Dusty Springfield ou ao Marvin Gaye. Portanto fui criando uma variedade de gostos bastante alargada. E ao ouvir canções do Burt Bacharach ou Dionne Warwick na rádio fui acabando por absorver certas melodias. Portanto essa "soul music" já estava em mim. Neste álbum tentei também usar sobreposições de voz em tons mais altos e isso soube-me bastante bem. Talvez para um próximo álbum tente outras coisas diferentes, mais electrónicas, por exemplo.
Quem ouviu os seus álbuns anteriores poderá ficar com a sensação de que tinha saído de uma relação falhada e que agora está a tentar reganhar um certo gosto pelas pequenas coisas da vida, como parece transparecer em canções como "Ordinary Day" ou "Pretty Love Songs". Até que ponto isto pode ser verdade?
É bastante verdade, excepto que não se tratou de uma relação falhada, mas de várias (risos). O lado bom da questão é que acabo por ganhar a vida à conta disso. Eu sempre prestei atenção aos pequenos detalhes da vida, os que parecem mais perturbantes. "Pretty Love Songs" não é uma canção tão simples como parece. É sobre a nossa alma ser possuída por um mundo corporativo. É também uma canção acerca de escrever canções. E acerca de ficar em dívida para com pessoas sem nome e sem gosto para quem se trabalha. É, no fundo, acerca da inevitabilidade de ter que se fazer compromissos na vida em geral.
O que parece é que de momento há uma perspectiva menos existencial, menos grandiosa, e mais um prazer de se desfrutar de coisas usuais, de ideias simples. Tem neste momento uma abordagem mais leve à música?…
Sim, por exemplo, "Ordinary Day" tinha uma letra inacabada, uns versos que deveriam servir apenas para me guiar nas gravações. Mas quando gravei achei que havia um lado bastante bom nessa simplicidade, que geralmente não usaria. Achei que deveria deixá-la assim. Poderia torná-la muito mais complexa, mas isso seria forçar algo que tinha uma simplicidade muito bela, e de certo modo estúpida. Achei que essa estupidez era boa. É aquele tipo de sensação da honestidade do amor nos seus primeiros estágios que é bastante estúpida. Achei que a canção capturava um pouco dessa sensação e deixei-a assim.
As "sad love songs" podem ser muito mais cativantes e poderosas do que as "pretty love songs"?
Acho que pode haver bons pontos nos dois géneros. Qualquer canção é boa, se de alguma forma transparecer uma verdade de algum tipo. Infelizmente, a maior parte daquilo que se pode ouvir na rádio hoje em dia é bastante insincero. E penso que o mínimo que se pode pedir de qualquer artista que ganha montes de dinheiro vendendo milhões de discos é que soe bem, soe honesto. Mas o mundo corporativo quer é impingir às pessoas aquilo que pensa que elas querem ouvir. Nada de novo. Sempre a mesma tralha.
Nos últimos anos da década passada houve uma grande euforia com a música electrónica, da mais dançável à mais experimental. A maior parte dela instrumental. Agora parece que de alguma forma as pessoas estão a precisar de canções de novo. Pensa que as canções alguma vez morrerão?
Não. Penso que uma das razões para se voltar a necessitar de canções é que as pessoas que estiveram envolvidas na explosão da música de dança de há uns doze anos a esta parte estão a ficar mais velhas. A Europa tomou muitas drogas nos últimos doze anos, e quando a euforia passa, essas pessoas começam a procurar música "chill out" ou então precisam de algo mais substancial, como um bom livro ou boa música. Há não só boas canções a aparecer de novo como novos bons escritores. As pessoas estão a precisar de ler um bom livro de novo e não apenas de "surfar" na net ou ver televisão. Acho que culturalmente as coisas estão a ficar um pouco melhor. Se as canções vão morrer, é difícil dizer. Sabe-se lá o que os nossos netos irão ouvir. Pode ser qualquer loucura. O som de microfones presos a baratas e insectos…
Os irlandeses têm desde há longo tempo uma fixação com os Estados Unidos. Como se fosse a Terra Prometida, o Sonho. De certo modo é essa tradição que está a prosseguir quando invoca a California neste novo álbum?
Não há nada de irlandês nos meus álbuns. Nasci na Irlanda, mas vivi a maior parte da minha vida em Inglaterra. Agora retornei à Irlanda, mas… De facto os irlandeses têm essa fixação na América, desde os períodos da fome. Mas os americanos de origem irlandesa que conheci achei-os muito reaccionários. Culturalmente estão tão afastados de mim, como eu deles. A história deste disco é sobre um casal europeu que sonha com a América, que pode parecer perfeita, mas que todos sabemos que não é. Vêm-se as rachas. Eles não vêem as rachas. Eles querem ir lá e ter a experiência. Ficar ricos e viver o Sonho Americano. É parte ficção parte realidade.
Mas essa história é baseada em alguém que conhece?
Na realidade é uma história baseada em factos verdadeiros, mas que foi romanceada. É a história de dois amigos de um amigo.
Quando se abre o novo CD há uma imagem com um anúncio onde se pode ler: "Se não a encontrar-mos esta noite, ela destruirá outra vida". Pensa que as mulheres são a raiz de todo o mal?
São também a raiz de todo o prazer. É difícil: as mulheres não são como os homens e vice-versa. Eu acho que já se encontrou a cura para a Malária. Eventualmente será descoberta a cura para o Cancro e a Sida. Não tenho a certeza se alguma vez se encontrará uma cura para as mulheres (risos).
O seu trabalho não tem um lado muito comercial. Há uma abordagem - digamos "alternativa" - na música que faz. Sente-se sortudo por estar ligado a um editora que tem distribuição a nível mundial? Como se vê no esquema da indústria musical?
No início estava ligado a uma "major" de Inglaterra. Mas depois eles despediram-me e assinei por uma etiqueta francesa que tem contratos diferentes em vários países. Em Portugal o álbum sai pela Universal, na América é através da Rykodisc, que é uma editora independente mas que é tão grande quanto uma multinacional. Eu não me importa quem lança os álbuns, desde que as editoras não tenham uma opinião sobre as gravações. Eu não permito que eles venham meter o nariz no estúdio. E quando vêm é para ouvir o que já está feito.
Consegue então beneficiar de um pouco desses dois mundos - independentes e multinacionais?
Sim, e já me sinto bastante sortudo por poder fazer isto como modo de vida.
É realmente verdade que os europeus continentais e os latinos reagem melhor à sua música, por contraponto aos anglo-saxónicos? Como explica esse facto?
Acho que é porque os anglo-saxónicos não percebem as letras (risos). Em Inglaterra os meus discos têm óptimas críticas, mas a generalidade do público não se interessa muito. De qualquer modo já há uma espécie de historial de se gostar de música melancólica em Portugal, por exemplo. Em Espanha também. Eles não têm problemas com música triste. Na Irlanda, claro que há a tradição da tristeza na música celta, mas a maior parte das coisas mais modernas é lixo. Não significa nada para quem pense um bocadinho.
Terá a ver com a cultura pop e o consumismo que é muito mais forte nos países anglo-saxónicos?
Sim, claro, é apenas lixo, e essa música é suposta ser lixo.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 13)
| | |