Entrevistas
P.G. SIX
UM POÇO DE MEMÓRIA COM VISTA PARA O MUNDO
À primeira vista, Pat Gubler pode não ser um nome ao qual associemos só por si um feito, mas quando o relacionamos com os Tower Recordings – dos quais foi um dos fundadores – tudo muda de figura. Depois de ter estudado composição no Purchase College em Nova Iorque entre 1988 e 1994 (onde colheu alguns contactos importantes), Pat Gubler juntou-se a Marc Wolf, Matt Valentine e Todd Margolis nos Memphis Luxure, uma banda influenciada pelos Captain Beefheart e pelos Pussy Galore e que chegaria ao fim pouco tempo depois. Mas mesmo antes do final dos Memphis Luxure já Gubler, Wolf e Valentine se haviam juntado a Helen Rush para alguma improvisação e gravações experimentais e seria precisamente daí que nasceriam os Tower Recordings, um colectivo que se movimentava num vasto raio de acção que aglomerava ao mesmo tempo a tradição e novas influências, o folk-rock dos anos 60 e a improvisação, e até mesmo tropicália e composição microtonal. Ao mesmo tempo que actuava nos Tower Recordings (que iam sofrendo alterações de dia para dia), Pat Gubler foi criando música sob o pseudónimo de P.G. Six (os membros dos TR não raras vezes possuíam alcunhas bizarras). Além de importar alguns elementos dos Tower Recordings, Pat Gubler fez questão de frisar o seu gosto pelas tradições musicais da Europa e da América e a sua busca constante de se expandir musicalmente através de instrumentos vindos dos quatro cantos do mundo. “Parlor Tricks And Porch Favorites” e “The Well Of Memory”, sob a alcunha P.G. Six, são dois lançamentos preciosos onde se pode conferir as raízes do recente boom revivalista da folk em doses consideráveis, mas quem conhece as origens de Pat Gubler sabe que é sempre possível esperar um pouco mais, algo de inesperado e surpreendente, e os seus concertos são um bom exemplo disso. E em entrevista, Pat Gubler foca alguns dos momentos mais importantes da sua vida musical ao mesmo tempo que tenta encontrar respostas para as questões mais pertinentes que o rodeiam. P.G. Six estará em Portugal (acompanhado por Samara Lubelski) para dois concertos. O primeiro já no dia 17 deste mês, no Passos Manuel, no Porto. No dia seguinte, ambos os músicos vão marcar presença na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.

Quando e como se deu o seu primeiro contacto com a música. O que é que nos pode contar acerca disso?
Comecei a tocar música através dos meus irmãos mais velhos, um tocava piano e o outro guitarra. Acho que comecei a improvisar no piano quando tinha onze ou doze anos e depois tive algumas aulas.

O que é que sente como mais importante: os anos que estudou música ou as pessoas que conheceu durante esses anos? De todas essas pessoas, quem o influenciou mais?
Acho que as duas coisas são inseparáveis – as relações pessoais e musicais. Algumas pessoas que me vêm à mente são a minha primeira professora de piano, Elsie Storck, o meu professor de composição na faculdade, Dary John Mizelle, e obviamente todas as pessoas com quem toquei ao longo dos anos.

Quais são os sentimentos em relação aos Tower Recordings neste momento? Vê-os como nós, como um colectivo enigmático e quase mitológico?
Bem, é sempre um pouco diferente ver alguma coisa do lado de fora em oposição a estar centralmente envolvido nela. Por isso, para mim, não vejo na verdade o aspecto mitológico, mas olho para trás para os Tower Recordings como uma experiência especial… muitos momentos mágicos.

Como vê o trabalho do resto dos membros dos Tower Recordings? Identifica-se com ele?
Sim, acho que estamos a trabalhar em esferas de actividade similares. A caminhar sob percursos similares. Muito desse trabalho foi influenciado por coisas similares… a música folk, improvisação livre.

A certa altura, os Tower Recordings contavam nas suas fileiras com onze elementos. Como é que foi tocar música sozinho (apesar de trabalhar com o Tim Barnes)? Como é que foi construir "Parlor Tricks And Porch Favorites", o seu primeiro disco a solo?
Algum do trabalho estava a acontecer realmente ao mesmo tempo, apesar de terem sido precisos alguns anos até que o meu material a solo fosse lançado. É definitivamente uma experiência diferente focar-nos no trabalho a solo. Pode ser muito satisfatório. O trabalho colaborativo pode ser igualmente satisfatório, mas de uma forma diferente.

Ao longo dos anos, pareceu sempre de certa forma dividido entre a música americana e europeia. É uma divisão pacífica?
Acho que sim. Senti afinidade com a música celta (irlandesa, escocesa, bretã) durante muito tempo. Mas eu não nasci nessas tradições. E também não fui nascido na tradição folk americana igualmente. Por isso sou um pouco sem raiz. Acho que estou a apenas a tentar exprimir os meus diferentes interesses na música, a tentar fundi-los numa única coisa.

Sendo um dos primeiros de uma vaga de revivalistas da música folk britânica, como vê toda esta onda de pessoas que recriam a música folk (as gentes do free folk, aqueles que vão buscar inspiração a John Fahey e a Robbie Basho e outros)? Identifica-se de alguma forma com alguma destas realidades?
Sinto-me parte de alguma coisa – cruzar caminhos com artistas que trabalham com influências similares, tocar nos mesmos concertos. Interagindo. Trabalhando um pouco em rede. São tempos interessantes.

Tende a combinar na sua música o tradicional com o avant-garde. De onde é que isso vem? É fácil para si combinar as duas direcções?
Acho que muita da inspiração para isso vem da experimentação sonora na música psicadélica desde os Beatles, para a frente. Combinar canções com elementos experimentais. Não sei se é particularmente fácil, mas é um desejo de criar combinações interessantes. Talvez de certa forma demonstre como algumas coisas são semelhantes.

Por vezes usa instrumentos bizarros como o ukelin, o kemance (um violino turco), o japonês shakuhachi e o chinês d'tzu. Acha possível de alguma forma ligar-se a sua música à world music?
Para mim, utilizar estes instrumentos pouco usuais é um esforço no sentido de explorar diferentes combinações de sons. Diferentes cores de tons ou timbres. Não abordo estes instrumentos realmente de uma forma académica… da mesma forma que um etnomusicólogo poderá abordar.

Como sente Nova Iorque nos dias de hoje? Como vê a música feita na cidade?
Nova Iorque pode ser uma cidade um pouco dura para a música. Há muita coisa a acontecer, mas as rendas altas estão a ameaçar fechar alguns dos mais interessantes locais. Haverá sempre pequenos grupos de actividade, mas serão forçados a mudar para diferentes bairros.

Creio que a Incredible String Band e os Fairport Convention, por exemplo, sejam uma grande inspiração para si e chegou mesmo a tocar com o Robin Williamson há algum tempo atrás…
Sou um fã de Incredible String Band e de Fairport Convention. Os Tower Recordings chegaram uma vez a abrir para Robin Williamson há uns anos atrás, e tenho tido ao longo dos anos lições de harpa folk com ele quando ele tem estado de passagem pelo nordeste dos Estados Unidos. Ele é um músico extraordinário e um tipo muito porreiro.

"Live Tonic 6-11-00" foi o primeiro de uma série de actuações ao vivo de P.G. Six lançadas em CD-R. "Live Gladtree Festival 4-10-04" foi o segundo. Quais são os planos para estas séries?
O próximo no horizonte é o lançamento de uma actuação ao vivo de Amesterdão que eu fiz com o Tim Barnes.

Vem a Portugal em breve com a Samara Lubelski. O que acha da sua música? Quais são as suas intenções para aos dois concertos em Portugal?
A Samara e eu temos vindo a tocar intermitentemente desde há muitos anos, e eu aprecio verdadeiramente as direcções por onde ela está a levar a música dela. Para os espectáculos em Portugal vamos apresentar concertos a solo, e provavelmente vou-me juntar a ela em algumas canções a tocar flauta no concerto dela.

André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre - Novembro 2005)