PITCHSHIFTER
Intocáveis
Os Pitchshiter regressam com "PSI", o mais melódico dos seus álbuns e aquele onde é maior o equilibrio entre guitarras e máquinas. O sempre lúcido e certeiro J.S. Clayden (voz, programações), fala do processo de gravação de "P.S.I.", dos guitarristas perdidos e de como é estar na mesma banda que o irmão.
A integração das máquinas no som dos Pitchshifter tem sido feita progressivamente a partir de "Infotainment", mesmo que consideremos "www.pitchshifter.com" e este novo "P.S.I", como os discos em que as ditas estão mais presentes. Como é vista, de dentro para fora, essa evolução?
Essa foi uma evolução natural para o grupo. Alguns grupos adoptam receitas para soarem "cool" ou para ganharem dinheiro. Para nós é uma questão de subir uma escada, de progressão. Cada disco deve ser mais bonito do que o anterior. Os samplings e a electrónica em conjunto com as guitarras tornam o nosso som mais fluído e permitem um híbrido interessante.
Os primeiros álbuns dos Pitchshifter não deixavam transparecer o vosso actual interesse por máquinas. Esse interesse já existia nessa altura?
No início nós não usávamos a tecnologia pois a que existia na época não nos parecia muito avançada. Actualmente há samplers, computadores, sequenciadores e muitas outras coisas que tornam muito mais fácil concretizar uma ideia ou pensar num som mais aberto, mais orquestral. Com as máquinas podemos introduzir todo o tipo de arranjos e de orquestrações e foi o que fiz em "P.S.I.", para o qual fiz a maioria das programações.
O vosso "line-up" mudou após "www.pitchshifter.com" e também depois de "Deviant". Agora perderam mais um guitarrista, não foi?
O Johnny Carter, que foi um dos primeiros guitarristas dos Pitchshifter, saiu porque se quis dedicar a uma carreira de produtor e agora trabalha no seu estúdio em Nottingham. A saída dele não teve nada que ver com problemas de ralacionamento ou com a música. Quanto a Mike Grundy, o guitarrista suplementar que usámos durante a digressão de "Deviant", ele foi tocar com outra banda e agora tem um trabalho excelente e bem pago. Inclusive, ele disse-nos: "malta, não posso deixar este trabalho. Sou demasiado bem pago”. Quando nos tornamos mais velhos passamos a ter mulher, filhos, casa. É uma ilusão pensarmos que podemos continuar a fazer sempre o que queremos. Em especial num negócio tão volátil como a música. Nós passamos a contar com os serviços de Dan Rainer, de modo a termos um segundo guitarrista nos concertos.
Terem perdido Johnny Carter mudou o vosso modo de olhar para as músicas de "P.S.I"?
Nem por isso. As músicas deste disco, tal como a maioria das de "Deviant", foram escritas por mim e pelo Jim (Davies, guitarra).
Isso explica a visão "guitarrística" predominante em "Deviant"...
Acho que em "Pitchshifter.com" levámos longe demais o uso de programações. Em "Deviant" redescobrimos coisas mais orgânicas. Afinal os samplers chegaram depois das guitarras ao som dos Pitchshifter e foram uma etapa da nossa vida. No novo disco combinámos ainda melhor as duas facetas, adicionámos-lhe mais melodia e demos mais importância à produção.
"P.S.I" é um álbum muito elaborado a nível de som e de arranjos...
Na verdade, é o disco que escrevemos em menos espaço de tempo, em apenas quatro meses. E escrevemos em casa, de modo totalmente independente. Entre o irmos para estúdio e o dizermos aos fãs e às pessoas conhecidas que o disco ia sair levamos apenas um mês e meio. Foi um processo muito rápido. E Machine, o nosso produtor favorito [trabalhou também em “www.pitchshifter.com”], foi fantástico. Tornou o nosso som muito possante pois ele é uma pessoa com capacidades enormes.
Como é que correu essa colaboração?
Foi um verdadeiro prazer. E se Machine não fosse o nosso produtor eu tinha-lhe pedido para passar a fazer parte do grupo. (risos) Ele tem os mesmos pontos de vista que nós e consegue levar a nossa música a níveis inesperados.
Porque é que ele não produziu "Deviant"?
A MCA pressionou-nos para que não fosse ele a produzir o disco e além disso, na altura ele estava ocupado.
O estúdio é um instrumento de trabalho ou antecipam totalmente o que aí se vai passar?
Fazemos 90 por cento do trabalho antes de chegarmos a estúdio. Temos alguns amigos que fizeram pequenas partes de programação no disco. Eles apareciam no estúdio e diziam-nos: "oh! quero programar essa parte de bateria, esse bocado".
O facto de trabalhar com o seu irmão (Mark Clayden, baixo) tem vantagens especiais?
Temos uma comunicação silenciosa. (risos) Compreendemo-nos perfeitamente. Desde que somos adultos que nunca tivemos uma discussão.
De onde surgiu a vontade de fazerem música juntos?
Fui apanhado pelos outros. Eles fizeram-me uma patifaria. (risos) Eu era designer gráfico e nunca tinha pensado em ser vocalista. Eu costumava fazer coros e os outros começaram a pedir-me para cantar. Estavam sempre a insistir para eu cantar. Nessa altura eu morava em França e tinha uma namorada maravilhosa e uma vida muito feliz. Ou outros telefonaram-me e disseram-me: "John, temos um contrato com uma editora e queremos que regresses a Inglaterra para cantares connosco, senão não podemos continuar a ter a banda". E pronto. O resto é história. Eles lixaram-me (risos).
O que o fez procurar texturas vocais cada vez mais agudas e agéis?
No início o meu irmão, além de tocar baixo, cantava. Quando passei a cantar senti-me um pouco obrigado a seguir o estilo dele que não era bem aquilo de que eu gostava. Em "Underachiever" (um dos temas de "Infotainment"), comecei a usar esse tipo de voz. Foi a partir dessa altura que comecei a gostar de cantar e do que fazíamos.
Há uma ideia que sempre vos foi muito cara que é a de independência.
Se tivesse dinheiro editava os nossos próprios discos mas não temos meios para isso. Temos que estar sempre a escolher a editora que aparenta ser menos "diabólica". No negócio da música assinam-te por vários discos mas se não quiseres isso largam-te imediatamente.
O que pretendiam com o EP "UN-United Kingdom"?
Esse disco saíu numa altura em que as pessoas voltaram a ter respeito pela família real. Eu não tenho respeito nenhum por essa gente. Além de que não é um só "Reino", quanto mais "Unido". Basta ver a Irlanda e todos os problemas daí decorrentes. O conceito de "Reino Unido" faz-me rir. Em "Un-United Kingdom" havia alguns temas que não quisemos utilizar no álbum. O EP é um objecto para fãs. É Sex Pistols versão drum'n'bass. Além de que traz uma versão dos Big Black com guitarras muito pesadas. Foi um experiência muito divertida.
Emmanuel Hennequin
Exclusivo www.obskure.com/Mondo Bizarre
Tradução: Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 11)
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