Entrevistas
PLEASURE FOREVER
O ETERNO RETORNO
Data do ano passado a edição do álbum de estreia dos Pleasure Forever. David Clifford, o baterista, conversou com a Mondo Bizarre acerca do passado da banda na música, do arsenal metafísico que os acompanha e da intensa presença em palco.

Um certo eclectismo espiritual e um existencialismo de vanguarda parecem enquadrar-se no vosso som e atitude. Concorda?
Sim. Contudo, acho que há algo mais, sobretudo a forma como as personalidades e as crenças dos membros da banda se misturam. Não me considero um existencialista, mas antes o que o filósofo Richard Rorty chama um humanista contingente e irónico. Isto dava para escrever um livro, por isso, para simplificar, a resposta mais fácil é que eu nasci Satânico, na acepção que Anton Lavey atribui à palavra. Nem o Josh nem o Andy [NR: respectivamente, o guitarrista e o vocalista / teclista / baixista] partilham desta posição e/ou ideologia. Cada um de nós segue o seu programa espiritual, mas todos encontramos o maior fervor e prazer na música. Eu também me interesso pelo "oculto", tal como os outros membros da banda e isso tende a reflectir-se na nossa estética e na música.

De que considera os Pleasure Forever reminescentes? Para além de certos elementos dos vossos projectos anteriores (os VSS e os SLAVES).
Música. Não é para ser superficial, mas é o que fazemos. Criamos a partir da nossa paixão pela música. Não tencionamos soar reminescentes de nada em particular, mas antes corporizar o poder místico da música. Houve, obviamente, outros artistas e bandas - muito mais conhecidos que nós - que partilhavam o mesmo objectivo. Alguns exemplos incluem os Led Zeppelin, Doors, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Germs, Queen, Beatles, etc.

Numa entrevista é citado ao dizer que "é um maravilhoso elemento poético da humanidade arriscarmos a própria vida para nos sentirmos, de facto, vivos". O que advogam enquanto banda?
Suponho que, como banda, advogamos esse paradoxo: que a vida é para ser vivida e a melhor parte de tudo isto é que o que quer que façamos, vamos morrer de qualquer forma. Advogo responsabilidade e autonomia. E, um dia destes, vou colocar isso em prática.

Ao longo do vosso álbum auto-intitulado podem ouvir-se pianos pungentes em comunhão com um poderoso trabalho de guitarras, tudo sustentado por uma atmosfera caótica e abrasiva. Como descreveria o vosso primeiro longa duração enquanto Pleasure Forever?
Como um navio decrépito e danificado - embora robusto e magnificente - ao regressar, triunfante, de perigosas aventuras no mar.

Como surgiu o trabalho gráfico para o álbum?
De diversas discussões ao longo de vários anos antes de conseguirmos pagar uma capa de disco como aquela. Eu queria que o trabalho da capa reflectisse a música do álbum, e sempre me intrigaram capas de discos que contam uma história ou têm algum mistério (como "Abbey Road" ou "Hotel California"). Adoro capas em que podemos olhar fixamente durante muito tempo e encontrar novos detalhes enterrados no trabalho gráfico. Uma fotógrafa profissional nossa amiga alugou-nos o seu tempo e estúdio e trabalhou bastante connosco por uma pequena quantia para tirar todas as fotos da capa. Em seguida, um outro amigo nosso trabalhou com o Josh para compor e combinar o trabalho gráfico. O projecto na íntegra levou cerca de um mês para concluir. Fico feliz pela resposta a esse trabalho ser tão favorável.

Uma análise em profundidade das vossas letras indicia uma tensão carregada entre a celebração do excesso e o ímpeto de auto-destruição. Como funciona o processo de escrita no seio da banda?
O Andy escreve todas as letras, por isso ele é que devia responder a isso. Mas posso dizer que está correcta a leitura que faz das letras. São um reflexo - positivo e negativo - daquilo por que passam as pessoas quando inclinadas para o excesso.

As canções no álbum estão construídas de uma forma que se aproxima da crença num permanente devir. Quais são as vossas referências metafísicas?
Um dos meus axiomas principais é decorrente de Heráclito: a água que passa debaixo de uma ponte não é a mesma duas vezes. Suponho que a questão diz respeito às letras e não ao fluxo da música. Mas mesmo a nossa composição lírica tende a demarcar-se da estrutura básica de uma canção pop (verso-refrão-verso), apesar de todo o esforço que possamos fazer ao brincar com as estruturas de canção mais comuns.

Como se sentem ao serem comparados com artistas como Marilyn Manson?
Não penso que seja uma comparação adequada. A nossa música é bastante diferente da dos Marilyn Manson. Contudo, gosto das letras e da estética dos MM e da maior parte dos álbuns e considero-me um "fã". Apesar disso, acho a música demasiado unidimensional e repetitiva e não creio que a nossa música seja tão claramente formatada para passar na rádio como é a dos MM.

Gravaram um EP antes da edição do vosso primeiro álbum. Qual foi o propósito?
Nós andávamos em tournée alguns meses antes da edição do álbum e tínhamos mudado de nome recentemente. Por isso, precisávamos de algo editado sob o novo nome da banda (com uma etiqueta na capa e uma campanha de promoção com a indicação SLAVES = Pleasure Forever) para esclarecer que éramos a mesma banda e que tínhamos um novo álbum para sair. O EP incluía duas canções do álbum e três faixas extra. Por isso, eu diria que o propósito foi o de promover a mudança de nome.

O que podemos esperar dos Pleasure ao vivo?
Volume e energia. As nossas actuações tendem a ser bastante ruidosas e energéticas. Somos compostos por três elementos e as pessoas diziam muitas vezes que a complexidade da música sugeria que várias músicos tocavam em palco, mas somos mesmo só nós. Tentamos focar-nos na dinâmica para permitir que as coisas evoluam ao nível da emoção e não seja sempre apenas um som duro e directo.

Como é fazer as primeiras partes de bandas como os Zen Guerrila e os Champs?
É óptimo. Somos grandes amigos dos Champs. O Tim Green, um dos seus guitarristas, gravou quase todos os nossos discos. Além disso, são todos muito divertidos e grandes companheiros.

Como acabaram a gravar um álbum para a Sub Pop?
Eles pediram-nos para assinarmos por eles. Penso que gostaram dos nossos cortes de cabelo.

O que planeiam fazer a seguir?
Vamos continuar em tournée quase em permanência. Vamos fazer uma série de actuações em Fevereiro com os Makers e depois todo o mês de Março pelos Estados Unidos com a antiga formação dos Murder City Devils (agora, os Dead Low Tide). Em Abril e Maio voltamos à estrada nos EUA com os Les Savy Fav. Depois voamos até à Europa a 19 de Maio para uma digressão na União Europeia e na Escandinávia até ao final de Junho. Lamento dizê-lo mas não temos datas para Portugal na actual tournée, mas talvez no Outono de 2002, quando tencionamos regressar. Obrigado.

Helder Gomes