Entrevistas
PLEASURE FOREVER
ARISTOCRATAS ESPIRITUOSOS
Devassa e contenção, a estreita linha que cinge o pequeno-grande cosmos dos Pleasure Forever. Do álbum com nome próprio há dois anos atrás para o recente “Alter” deu-se uma ligeira alteração de rota mas com manutenção do tratamento lírico de fundo. David Clifford abandonou os pratos da bateria e submeteu-se ao interrogatório.

Onde o primeiro disco era atravessado por alusões a um excesso negro o novo trabalho enfatiza a catarse humana. Quão precisa é esta ideia?
Penso que é bastante precisa, uma vez que indica o que se passa com a música do novo álbum, que é um pouco mais directa e testemunha o que se deu a seguir. Retoma e aprofunda o ponto que nós atingimos com o primeiro disco, que foi um certo patamar de loucura.

Por muito sinistro que possa soar, o novo disco tem uma forte estrutura pop.
Acho que isso acontece por termos um espectro grande de influências – desde a música dos Beatles e da música pop dos anos 60... Algumas das músicas podem ser mais fortes e intensas do que a comum canção pesada, baseada em guitarras muito altas. Outras seguem um estilo mais pop e luminoso. Um dos pontos de honra da banda sempre foi intensificar o processo de compor música. É uma experiência muito física e catártica. Muito do material que compomos baseia-se no nosso próprio interesse em música apelativa de orientação pop. Sei que muitas das pessoas que ouvem Pleasure Forever se interrogam sobre o que estamos a falar.

O som dos Pleasure Forever é sobre deleite e intelecto, emoção e entendimento. E há também a sexualidade. Qual é a sua importância?
Considero-a muito importante. Toda a música rock é sobre sexualidade, as suas origens são visuais, sexuais. O desejo assume grande importância. A música de dança também tem esse chamamento.

A vossa música é ameaçadora ou desafiante?
Penso que podem coexistir os dois aspectos. A parte da ameaça é como uma inserção de um certo nível de intensidade na música, mas ao mesmo tempo desafia as pessoas a ouvir mais e tentar compreender o que se passa, a descortinar os segredos e as mensagens que se escondem por detrás dela. Sei que o som é fora do vulgar, pelo que as pessoas precisam de ouvir várias vezes.

Há muita autopromoção na música rock de hoje em dia, os circuitos mainstream e alternativo tocam-se. Como lidam com o hype que entretanto se gera?
A nível mundial, a música pop orientada para a dança domina de certa forma a fatia do mainstream em que o grande público está interessado. O facto de surgirem bandas a romper o circuito alternativo, vindas de uma tradição punk rock, e a fazer música assente em guitarras é indicativo de que ainda há pessoas interessadas nisso. Algumas dessas bandas conseguem ter sucesso e isso só pode ser bom. Quanto aos Pleasure Forever, a situação é um pouco diferente. Não me parece que uma pessoa educada no mainstream fosse interessar-se pela nossa música da forma que se interessa pelos Strokes ou os White Stripes.

Há alguma percepção de audiência a funcionar como input criativo?
Sim, acho que se operou uma considerável transformação do primeiro para o segundo álbum no modo como escrevemos as canções. Isto ficou a dever-se às nossas digressões e às oportunidades que tivemos de testar canções mais longas e densas, com mais partes implícitas. Sentimo-nos mais retraídos para compor dessa forma, quisemos que as pessoas se sentissem mais impelidas para o que estávamos a fazer, em vez de nos verem tocar extensas secções instrumentais. Pretendemos aproximar as nossas canções em disco da maneira como decidimos apresentá-las ao vivo, mais direccionadas e com menos subentendidos.

Ao vivo, a entrega à música é forte e as palavras assumem menor presença. Qual é a importância que lhes atribuem na vossa música?
Penso que é uma parte muito significativa à medida que um disco ganha forma. Para o primeiro álbum funcionámos como uma equipa e o resultado espelhou muito do que se estava a passar na nossa vida e na vida de outras pessoas. Foi como um quadro demonstrativo do que estávamos a sentir e que, sob o ponto de vista lírico, tinha significado. Queríamos que este álbum transmitisse emoções verdadeiras mas também que se afastasse do formato de storytelling, de narrar histórias.

O que queria dizer quando afirmou que “Alter” é um veículo em movimento?
É uma acumulação de ideias para canções que tivemos desde o início da nossa formação, até mesmo da altura em que nos chamávamos Slaves. A composição deste disco fluiu como um veículo ao longo da estrada e, quando as coisas começavam a surgir, nós travávamos bruscamente e as ideias eram projectadas e colidiam.

Apesar da proposta angular e do novo estado de decadência atingido, este é tido como o disco mais acessível até à data. O que acha disto?
Sim, acho que algumas canções podem ser consideradas mais acessíveis. Para isso terá contribuído a produção do disco que o tornou um pouco mais imediato do que o primeiro, que possui mais energia. Mas se isto é o mais acessível que a banda pode conseguir, então fico preocupado. (risos)

Se houvesse uma associação provável entre a bateria, a guitarra e o piano e uma determinada emoção, qual apontaria para cada instrumento?
Não estou certo de que exista uma emoção específica, mas penso que todos se relacionam com o que estamos a lidar, com a paixão que sentimos no momento. As partes das canções tocadas por cada um dos instrumentos relacionam-se com o que estamos a sentir na altura em que as canções são escritas. Há um pouco mais de arranjo, de premonição que reflecte o nosso desencanto ou alegria.

Qual é o significado do título ‘Wicked Shivering Columbine’?
Muita gente pensa que essa canção está relacionada com o massacre na Escola Secundária de Columbine. Mas tem mais a ver com crescer no Colorado, de que eu e o Andy somos nativos. Columbine é o chamado “state flower” do Colorado e, portanto, a canção trata das experiências vividas no Colorado. Trata mais disso do que propriamente do atentado, apesar disso ser também parte da experiência de crescer no Colorado.

Há algum interesse manifesto no zodíaco e seus significados?
Sim. Não que algum de nós acredite realmente nisso, mas é interessante pensar que uma pessoa pode ter a sua personalidade moldada em conformidade com o signo correspondente ao seu nascimento. E como as pessoas do mesmo signo partilham características.

Acha que as pessoas estão a perder perspectiva?
Penso que as pessoas sempre procuraram uma certa noção de perspectiva ao recorrerem à religião ou perseguirem qualquer outra crença. Porque, de algum modo, isso cria uma moldura externa para o que fazem, tornando as coisas mais fáceis para a sua percepção.

Os Pleasure Forever são vistos como aristocratas espirituais e músicos de cabaret...
A parte do cabaret sempre foi um mistério para nós. Até podem encontrar-se elementos de cabaret numa abordagem próxima de Nick Cave. Mas, a julgar por essa interpretação, há muitas pessoas que nos vêem actuar e ficam desapontadas porque esperavam outra coisa. Fico um bocado preocupado com essas comparações, porque considero que elas cabem em certos casos, mas não em todos. No que diz respeito à espiritualidade, acho que a banda existe num mundo à margem do que se passa habitualmente. Mas sim, o espiritualismo é algo com que sempre lidámos enquanto banda. Temos diferentes acepções do cosmos e do seu significado, mas tocamos música como se se tratasse de uma religião. Especialmente no meu caso, penso que é algo que não consigo evitar. É o que me dá gozo na vida, é o que lhe dá significado.

Há planos para um futuro imediato?
Sim, estamos a trabalhar num EP com algumas versões e outro material para a Conspiracy Records que está quase terminado e deverá sair no Outono. Nos Estados Unidos, temos um tema que vai integrar uma compilação a ser lançada pela Buddyhead.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 16)