THE PONYS
ASSIMILAR PARA CONSTRUIR
Primeiro foi a British Invasion e, em tempo real, a música de Beatles, Rolling Stones, Kinks, The Who ou The Animals foi assimilada por uma juventude americana à procura de algo mais que o Elvis suavizado e envelhecido precocemente que lhes entrava cinema dentro. Do impacto nasceu o garage, do impacto nasceram quase todas as manifestações estéticas rock’n’roll desenvolvidas nos Estados Unidos desde então.
Daí para cá, o intercâmbio foi-se mantendo relativamente equilibrado – Nova Iorque e os Ramones ofereceram rastilho ao punk dos Sex Pistols, estes não tardaram a atirar a carga de dinamite para o outro lado do Atlântico (ainda acesa, caiu nas mãos de Dead Kennedys e de uma série de outros).
Agora, vivemos um fenómeno misto. Rapture, Radio 4 ou os Liars do primeiro disco trouxeram o pós-punk de Gang Of Four e P.I.L. para a ordem do dia. Uma segunda vaga de Killers, The Bravery ou VHS or Beta avançou uns anos, descobriu New Order, Joy Division e Duran Duran e os americanos sofrem nova British Invasion – mas, desta vez, a invasão não se faz em tempo real, faz-se de memórias com vinte anos que, em mais casos do que seria desejável, não são assimiladas para criar o novo, emulam para repetir o velho.
Os Ponys, banda de Chicago que se estreou em 2004 com “Laced With Romance”, entram nesta conjuntura como excepção. Deixam evidente que também neles a música indie britânica de 80 produziu efeito – os turbilhões eléctricos do shoegaze, as texturas neo-psicadélicas, as tentações pop –, mas conjugam-no com o pulsar delirante e urgente do garage-rock americano.
“Celebration Castle”, o seu segundo disco – em que Jim Diamond passou a cadeira de produtor a Steve Albini –, atenua a asfixiante visceralidade da estreia, sofistica a assimilação dos universos em confronto – angústia urbano depressiva ateada por fogo rock’n’roll – e confirma os Ponys como banda que se inscreve com nome próprio no cenário musical americano da actualidade. Dela nos fala o vocalista/guitarrista Jered Gummere (a formação completa-se com a baixista/vocalista Melissa Elias, o guitarrista/vocalista Adams e o baterista Nathan Jerde), apanhado num fim de tarde à saída do emprego.
[Jered Gummere atende o telemóvel numa qualquer rua de Chicago. As primeiras frases são quase inaudíveis, abafadas por um coro de cães latindo]
Tem uma matilha à sua volta. Está a ser perseguido?
(risos) Não, trabalho num canil e acabei agora de sair do emprego. É uma espécie de centro de dia, onde o pessoal que tem dinheiro a mais deixa os cães quando não lhes apetece estar com eles. Nós levamo-los a passear, tratamos deles, enfim, mantemo-los ocupados.
É esse o seu trabalho principal, aquele que lhe paga as contas?
É um part-time. Depois tenho a banda, que me ocupa a maior parte do tempo. Mas gosto de cães, tenho dois. Aliás, toda a gente na banda tem cães. Há bandas de gatos, nós somos uma banda de cães.
Os Ponys são de Chicago, uma cidade com uma história musical riquíssima. O último “movimento” a extravasar largamente as suas fronteiras foi o do pós-rock, cuja estética está bastante distante daquilo que são os Ponys. É por isso que passam tanto tempo em Detroit, a cidade do garage rock?
Não, gosto muito disto aqui. Há muita coisa a acontecer, muitas bandas diferentes a surgirem. Existe um movimento underground muito activo, grupos dos quais nunca ninguém ouviu falar mas que tocam constantemente pela cidade. Não existe nenhuma invasão de clones dos Tortoise, que são uma banda que aprecio.
Apesar de muitos dos riffs e a atitude que transparece do vosso som nos guiar à força mais crua do garage rock, transportam-se habitualmente para os terrenos sónicos do shoegaze. Os Ponys são uma banda americana de rock’n’roll fascinada pelo psicadelismo britânico da década de 80?
Todos ouvimos uma série de bandas diferentes. Eu especificamente gosto muito desse som, dos Jesus & Mary Chain por exemplo. Gostamos muito de guitarras, obviamente, e eu e o Ian [Adams] adoramos criar as maiores muralhas de ruído que nos for possível, sempre que possível. [Durante a gravação do primeiro álbum] só queria que as nossas guitarras se ouvissem muito alto, mas bem definidas. Na verdade, era só com isso que estava preocupado. Todos na banda gostam de canções pop, mas também queremos que a música induza algo de transe.
A sua voz é muitas vezes comparada à de Robert Smith. É um fã dos Cure?
Um pouco... Ouvia-os muito mais há dez ou doze anos, isso é certo. Por acaso, tocam em Chicago esta noite, mas está a chover e o concerto é ao ar livre, portanto não sei se irá acontecer ou não.
Quando leio a comparação, imagino que surja pela forma como grita as palavras – quase à beira do desespero. Contudo, penso faltar à equação a urgência de um Parypa, teclista/vocalista dos Sonics.
É porreiro ouvir isso. Quando andava na escola secundária existia uma cena rock’n’roll grande e os Sonics e os Wailers [banda contemporânea dos Sonics, também de Seattle e também precursora de um certo rock’n’roll do Noroeste Americano que desembocaria, por exemplo, nuns Mudhoney] eram bandas que ouvíamos regularmente na rádio.
Podemos dizer que, nos Ponys, Ian Adams funciona como versão romântica de Lou Reed e o Jered como um Iggy Pop urbano depressivo.
Não sei... Provavelmente sim. Mas o Ian é que ouve muita música britânica dos anos 80. Gosta dos Monochrome Set, dos Orange Juice...
A verdade é que, mesmo sendo evidente tratar-se da mesma banda, pressente-se uma sensibilidade diferente quando canta um ou o outro.
A maior parte das nossas canções são compostas durante os ensaios. Nem consigo explicar como determinamos quem canta o quê. Acontece assim, simplesmente. Todos compõem, todos escrevem as suas próprias letras e depois o ensaio dita o que lhes acontece. Se temos uma nova canção podemos estar a tocá-la a noite inteira até a apanharmos – ou até a detestarmos quatro horas depois (risos).
A Spin Magazine descreveu-vos da seguinte forma: “Pós-punk inglês dos anos 80 tentando soar a bandas garage americanas de 60 que, por sua vez, copiavam bandas inglesas que imitavam grupos americanos de r&b dos anos 50”. O rock’n’roll actualmente é já um académico estudo de História?
Naquilo que interessa, não acho que o seja. Se uma banda estuda tão minuciosamente para ser rock’n’roll, então algo está errado. As bandas têm que ter atitude e estilo. Eu adoro música e é por isso que tocamos, só isso. Essa descrição da Spin desvenda de certa forma a minha colecção de discos, mas não a nossa direcção musical.
Quando o primeiro álbum [“Laced With Romance”] foi editado, os Ponys foram referidos como os novos Strokes, os novos Franz Ferdinand, os novos qualquer coisa. O que significa esse tipo de estrelato para vocês, para si que acaba de sair do seu emprego em part-time?
Não sei... Se fosse algo suave. Gosto do que fazemos agora, dos concertos, dos discos. Podemos fazer o que queremos sem ter que dar satisfações a ninguém. Entregamos na editora o disco que bem entendemos, sem ter que discutir direcções musicais com ela ou com um qualquer produtor. Se esse sucesso chegasse e isso se mantivesse, ou seja se pudéssemos continuar a fazer música que consideramos boa, seria óptimo. Não é coisa que me preocupe actualmente. Estou contente com a forma como tudo se vai encaminhando para nós. Mas este momento que vivemos actualmente é muito diferente daquilo que existia quando eu estava a crescer. Hoje em dia os miúdos têm acesso a tanta informação e a tanta música... É um pouco estranho. É bom ver que os concertos enchem e que há uma boa energia no público mas, ao mesmo tempo, em todas as cidades americanas há uma série de bandas rock com sintetizadores que mal sabem tocar. Acaba por se tornar um bocado aborrecido. É como se das árvores nascessem bandas a tocar new wave e pós-punk.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 23)
| | |