Entrevistas
THE PROMISE RING
Começar De Novo
“Wood/Water” é a nova proposta dos Promise Ring, banda já com provas dadas no circuito independente americano, e frequentemente associada à cena emo-core. Produzido por Stephen Street, o álbum é uma surpreendente colecção de canções descaradamente pop que confirmam este quarteto como uma das formações mais interessantes vindas do outro lado do atlântico, que sem preconceitos de qualquer espécie, segue os seus instintos e desafia os seus seguidores. Conversámos com o baterista Dan Didier.

O novo álbum “Wood/Water” representa uma nova fase na carreira dos Promise Ring, com canções mais pop e mais acessíveis. Concorda?
Bem, este é o noso álbum mais ambicioso até à data...

Os temas encaixam-se mais num formato clássico de canção do que nos discos anteriores, não lhe parece?
Não concordo, não penso que as novas canções sigam formas clássicas. Tentámos experimentar mais a nível das estruturas dos temas e penso que conseguimos ir mais longe, as canções têm estruturas simples, mas não é a fórmula usual verso-refrão-verso, ou melhor, não é apenas isso, é mais ambicioso.

Há também um especial cuidado com as texturas e arranjos. Utilizaram caixas de ritmos, teclados vários, percussão, sons ambiênte gravados no exterior...
Sim, desta vez, quisemos explorar sons diferentes, usar mais teclados e coisas do género. Nós sempre tentámos fazer algo novo, não estamos interessados en repetir o que já fizemos.

Semdo “Wood/Water” um álbum significativamente diferente en comparação com os trabalhos anteriores, estão prontos para correr riscos? Não receiam que alguns fãs fiquem desiludidos com esta nova orientação musical?
Acima de tudo, queremos manter o interesse e excitação no que fazemos. Correr riscos parece-nos natural, desde que o entusiasmo que temos em faser música não esmoreça.

Porque decidiram trabalhar com o produtor Stephen Street? São admiradores dos grupos que ele produziu?
Nós conhecemos bem o trabalho dele e sempre admiramos a forma como ele faz soar as bandas em estúdio. Pensámos que seria uma boa pessoa para trabalhar connosco e que iria entender o que estamos a fazer neste momento.

O Stephen Street deu muitas sugestões para fazer alterações nos temas, de forma a torná-los mais pop?
Nem por isso. Quando iniciámos as gravações, as canções praticamente já estavam acabadas. Houve apenas ligeiras modificações nas estruturas dos temas, na escolha do tipo de sons a usar... Foi mais do género chegarmos a estúdio e gravar sem grandes hesitações, pois sabíamos o que queríamos. À medida que o trabalho foi ganhando forma, as coisas fizeram sentido, seguiram o seu rumo naturalmente.

Algumas canções deste disco parecem-me dever mais a uma certa pop britânica do que bandas americanas, como por exemplo “Get On The Floor” ou “My Life Is At Home”. Assume essas influências na composição de “Wood/Water”?
A inspiração vem de todo lado: andar na rua, passear pela cidade, uma conversa com alguém... Esse tipo de coisas influenciam a nossa música, não é apenas nos discos que gostamos de buscar inspiração.

Por outro lado, “Suffer Never” lembra-me Flaming Lips...
Gosto dos Flaming Lips, mas não considero que alguma das nossas canções soe como as deles. Talvez a melodia dessa canção lembre um pouco Flaming Lips, também pelos teclados.

Uma das canções mais notáveis deste álbum, “Say Goodbye Good”, tem uma ambiência muito psicadélica, com um pouco de gospel no final. É uma canção muito ao jeito dos Beatles, não lhe parece?
Essa canção parece que se escreveu por sí própria. Surgiu uma melodia, uma letra, e vimos o que é que se podia fazer com isso. Em estúdio começámos a adicionar mais e mais elementos, teclados, cordas... Quando demos por nós, reparámos que já tinhamos gravado imensa coisa e tivemos de parar com os overdubs porque a canção já estava suficientemente “cheia”.

Há muitas baladas em “Wood/Water”. Isso significa que estão mais calmos como pessoas e já não sentem necessidade de expressar os vossos sentimentos e emoções fazendo música agitada e barulhenta?
Não necessáriamente. Quando compusémos “Wood/Water” era esse o nosso estado de espírito, estávamos mais tranquilos e era assim que queríamos que o álbum soasse. Quisémos que este disco fosse uma reacção ao álbum anterior. Mas também é possível encontrar temas mais rock neste álbum, como “Sufer Never” ou “Stop Playing Guitar”, onde tocamos com o volume mais alto. Apenas quizemos explorar um lado diferente de nós próprios e da nossa música.

Considera que os Promise Ring têm alguma coisa a ver com o emo-core, ou não gostam desse tipo de rótulos para definir a vossa música?
Nenhum membro do grupo concorda que somos uma banda emo-core. Não queremos fazer parte de um suposto movimento que no fundo é uma invenção da imprensa musical. Os jornalistas usam esse termo por comodidade e acabam por meter na mesma prateleira grupos com uma abordagem bastante personalizada dentro do rock, e por isso soam diferentes uns dos outros. Se ouvirem o “Wood/Water” e o “Bleed American” dos Jimmy Eat World, vão reparar que cada banda tem o seu próprio estilo. No entanto há pessoas que acham que é a mesma coisa.

Mas pensa que os vossos fãs vos vêm como uma banda emo-core?
Não sei, provavelmente sim. Se calhar é por isso que muitos deles vão aos nossos concertos. mas tenho esperança que muitos miúdos nos vejam ao vivo e comprem os discos porque consideram que somos especiais e possuímos um estilo próprio.

“Wood/Water” representa também uma nova etapa da banda a nível editorial. É o vosso primeiro disco para a Anti- (uma subsidiária da Epitaph), que conta nas suas fileiras com nomes de peso como Tom Waits ou Tricky. Sentem-se satisfeitos com a “nova casa”?
Sim. Eles são uma óptima editora e também boas pessoas. É importante eles contratarem artistas tão diversos e talentosos. Isso confere-lhes uma identidade muito distinta como editora. É louvável que uma editora como a Epitaph, conhecida por editar punk rock, tenha criado a Anti- de modo a que não fique estagnada , não ficando deste modo conotados com apenas um determinado estilo e aventurarem-se na edição de artistas diferentes. Respeito-os por isso. Espero que a Anti- contribua para a abertura de mentalidades dos miúdos que gostam de punk rock, de maneira a que eles tenham curiosidade de ouvir outros estilos musicais.

Na altura em que compuseram “Wood/Water”, o vosso vocalista tinha um tumor benigno no cérebro. Esse facto influenciou a composição do álbum?
Penso que sim, porque estando doente, ele teve que acalmar e deixar a banda de lado. Quando soube do seu diagnóstico, pensei que era o fim dos Promise Ring. Passado algum tempo, ele voltou já recuperado e pudemos recomeçar de novo,, o que foi óptimo. Não há nada de bom no que lhe aconteceu, mas isso ajudou-nos a relaxar e a ver certas coisas de outro modo.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 11)